quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Veteranas em França, juniores preparam Mundial no Turcifal…


Que futuro lhes espera?

É assim que se trabalha o futuro do ciclismo português? Durante cinco dias uma selecção feminina correu em França, tendo três das seis seleccionadas já ultrapassado os trinta anos e, por isso, não é de prever que algum dia cheguem aos calcanhares das melhores mundiais. Enquanto isso, na vila do Turcifal, num circuito de 50 km os melhores juniores do país preparavam o Campeonato do Mundo que correrão dentro de um mês, numa prova com 126 quilómetros! O calendário nacional terminou a 24 de Julho, exactamente dois meses antes dos Campeonatos do Mundo!

Maior problema que a falta de dinheiro, é a forma como este está a ser utilizado. No último ano o orçamento para a selecção femininas triplicou e não foi para se trabalhar o ciclismo feminino mas sim para parecer que está a ser trabalhado. Por outro lado, as selecções de cadetes, juniores e sub-23 masculinas saem prejudicadas. Está-se a comprometer a formação de novos Tiagos Machado ou Ruis Costa.

A questão das selecções

Sou da opinião que em qualquer vertente do ciclismo, independentemente do sexo, a Federação Portuguesa de Ciclismo deve criar condições para que os portugueses possam chegar ao topo e estar entre os melhores do mundo. Garanto que não sou o tipo de adepto que apenas se preocupa com o ciclismo de estrada masculino mas não gosto de ver os recursos disponíveis mal utilizados, como acho ser o caso.

Nos últimos anos houve algumas iniciativas interessantes relativas ao ciclismo feminino. Infelizmente, apenas isso, interessantes mas sem grandes resultados. Primeiro foi a criação de uma equipa que ambicionava correr as principais provas do calendário internacional mas limitou-se a coleccionar empenos naquelas em que participou. Rapidamente viram que o projecto não ia longe e viraram-se para o calendário nacional.

Entretanto, tinha dado nas vistas a Ester Alves, porque lá fora não era tão má quanto as outras e a nível nacional dominava. A Federação fez um esforço para a levar ao Campeonato do Mundo de 2009 e na minha opinião fez muito bem, porque era uma oportunidade merecida, mas infelizmente ficou numa queda na primeira volta e não deu sequer saber quantas voltas conseguiria fazer com as melhores do mundo.

Desde então tem havido algumas participações de portuguesas em algumas provas estrangeiras, mas nada sério ou, pelo menos, nada com pés nem cabeça. Basta olhara para o caso deste Trophée d'Or, a prova francesa que se realizou entre os dias 20 e 24 e contou com a presença de uma selecção portuguesa, composta por seis corredoras. Até aqui, nada de anormal, é verdade. Eu até poderia pensar que se está a dar condições a seis corredoras portuguesas de estar junto das melhores do mundo para poderem evoluir. Eu até poderia pensar que o facto de terminarem todas nos últimos lugares não tem importância porque o que realmente importa é adquirir experiência. No então, eu não posso pensar nada disto, porque metade da selecção era composta por corredoras com mais de 30 anos. Será que alguém pensa que elas vão evoluir o suficiente para deixarem de andar na carroça da corrida e algum dia chegarão perto das melhores? Eu aposto que não. Que se dê a oportunidade a uma rapariga de 18 anos (juniores de 2º ano podem correr com elites, em femininas) e uma de 22, eu compreendo, mas de resto…

Além da verba destinada à selecção feminina, no orçamento para 2011 também aumentaram as verbas destinadas ao BTT, à Pista e ao BMX (ver gráfico abaixo). Em contrapartida, foram reduzidas as verbas para os restantes escalões masculinos.

Antes de mais, tenho que dizer que não vi qualquer efeito do aumento da verba dos cadetes de €9.000 para €25.000 em 2010, pois como diz no Relatório de Contas da FPC de 2010, “a Selecção de Cadetes apenas realizou um estágio”. Este ano houve redução para €20.000, continuando muito superior ao valor de 2009, mas ainda assim sem se ver ao que se destinou essa verba, pois até agora a selecção de cadetes… ainda só fez o estágio. Então, onde foram/serão despendidos os vinte mil euros?

Onde melhor se notam os efeitos do corte orçamental é na selecção sub-23, que nos últimos anos tem disputado a Taça das Nações na íntegra e este ano apenas correu uma prova, na Toscana, onde o Amaro Antunes até venceu uma etapa. Até ao final do ano falta apenas a Volta a França do Futuro, mas sobre isso falarei na secção seguinte.

Quanto aos juniores, o corte também é notório, já que no ano passado correram quase todas as provas da Taça das Nações e este ano apenas a Corrida da Paz (além dos Europeus, para ambos os escalões).

Agora deixo a pergunta: vale a pena cortar na formação do ciclismo de estrada masculino para investir numa selecção feminina nas condições que já referi?

A estruturação do calendário

Na estruturação do calendário nacional, também encontro algumas falhas… aliás, qualquer pessoa as encontra. Não faz muito sentido que os Cadetes tenham o Prémio Internacional Alves Barbosa em Setembro e o calendário nacional de juniores termine a 24 de Julho, na Volta a Portugal, dois meses antes do Campeonato Mundial que deverão disputar. Temos juniores de qualidade em Portugal, com condições para dar continuidade aos bons resultados que o Rui Costa e o Rafael Reis tiveram a nível internacional nos últimos anos. No entanto, apesar de termos juniores com qualidade e potencial para chegar longe, não teremos juniores bem preparados no Campeonato do Mundo, pois não é em circuitos regionais que se preparam uns Mundiais.

Sei que não há dinheiro para tudo e não peço a criação de novas provas, mas poderiam organizar o calendário que têm de outra forma, por exemplo com a Volta a Portugal de Juniores mais tarde, diminuído a distância entre esta e os Mundiais.

É também de salientar que este ano houve menos dureza nas provas do que em anos anteriores. É verdade que há cada vez menos provas, a Taça de Portugal baixou de sete provas em 2007 para quatro em 2011, a Volta a Portugal de cadetes que foi criada com três etapas baixou para duas, e a Volta a Portugal de Juniores que foi criada com quatro etapas e incluiu chegada ao Alto do Montejunto baixou para duas etapas (e a brincadeira do Velódromo) e sem chegada em alto. Não vou entrar no caminho da crítica barata e dizer que a Federação deveria organizar mais provas, pois estou consciente de que essa é a sua vontade e, se não as organiza, é porque não tem capacidade financeira para tal. No entanto, se não é possível acrescentar dias de competição, os que existem devem ter uma dureza adequada ao escalão a que respeitam.

Ao longo dos vários escalões de formação, vai existindo um processo de selecção. Apenas os bons juniores conseguem passar a sub-23 e apenas bons sub-23 passam a elites (infelizmente, cada vez há menos corredores a fazer esta transição e muitos dos “bons sub-23” acabam carreira). Nos cadetes e juniores não há qualquer selecção, existindo muitos corredores que não têm qualquer vocação para este duro desporto. Existe também quem apenas treine quando apetece, o que não deveria ser suficiente… mas às vezes é.

Numa prova de elites em que chega um grande pelotão (independentemente de haver ou não cortes de tempo), é completamente normal, porque a profissional só chega quem tem qualidade (apesar de não serem todos os melhores, apenas lá chega quem tem alguma qualidade). Os pelotões de cadetes e de juniores são formados por corredores nascidos em apenas dois anos e não passa pela cabeça de ninguém que num país pequeno como é Portugal, num escalão de dois anos, existem 50 ou 60 jovens com talento para o ciclismo e que trabalham como deve ser. Quando, numa corrida destas categorias, chega um pelotão de 50 ou 60 corredores, não tenham dúvidas: a prova foi muito fácil.

Infelizmente, este ano houve provas “muito fáceis” em quantidade superior ao que eu considero desejável, o que tem vários inconvenientes. Um é iludir miúdos que fazem alimentação de McDonalds e bifanas e conseguem bons resultados, pois quem acompanha estes escalões conhece várias histórias de miúdos (alguns deles, já em idade sub-23 ou elite) que eram gordinhos, tinham bons resultados nos cadetes ou nos juniores, passaram para o escalão seguinte e acabaram para o ciclismo. Afinal de contas, quantos chegam a profissionais com excesso de peso? Não digo que ninguém o consegue, pois todos nós sabemos que há excepções, ma são isso mesmo, excepções, um ou dois num pelotão de 200. O mais grave é que há miúdos talentosos que trabalham durante todo o ano e no final acabam desmotivados porque andam a perder com gente com excesso de peso que não tem futuro na modalidade e encostará a bicicleta assim que aparecerem as primeiras dificuldades. Imaginem como se sentiria o Evans, o Contador e os irmãos Schleck se no próximo ano a Volta a França, o Giro e a Vuelta não tivessem grandes dificuldades e fossem vencidas pelo Freire, o Bennati, o Hushovd, o Sagan ou um outro sprínter que passe bem as pequenas subidas. No mínimo, frustrante.

Eu preferia não tocar em nomes e não vou fazer listas para não correr o risco de me esquecer de ninguém importante, mas olhem para o caso do João Leal, que no ano passado era o melhor trepador do pelotão júnior a par do seu colega Rafael Reis e este ano não pôde fazer diferenças porque poucas ou nenhumas são as provas com dificuldades. Houve na Volta a Loulé, em que ganhou, mas de resto não teve hipóteses. Este é o caso mais flagrante, que ninguém pode desmentir, mas mais exemplos há de jovens que sobem muito bem mas se vêem obrigados a discutir sprints em pelotões numerosos por ser a única forma de ter bons resultados.

Além do calendário nacional de juniores terminar muito cedo e de existir pouca dureza neste escalão e no de cadetes, esta também falta para os sub-23 e os elites, se bem que aqui a FPC não tem quase nenhuma responsabilidade, pois apenas pode ter alguma influência sobre as provas da Taça de Portugal. Pergunto eu, alguém sabe quem são os melhores trepadores sub-23 portugueses? Com base em que resultados?

Um erro com responsabilidade da FPC (a menos que me escape algum pormenor) é a sobreposição da Volta a Portugal do Futuro com a Volta a França do Futuro, já que a prova francesa é de 4 a 11 de Setembro e a portuguesa de 7 a 11. Com esta sobreposição, ou Portugal não estará na Volta a França do Futuro, ou não irá com os melhores sub-23 portugueses, ou desfalcará as equipas portuguesas (e que apoiam aos corredores durante a época) dos seus principais trunfos para a Volta a Portugal do Futuro, o grande objectivo da temporada. O que está fora de hipótese é repetir o que aconteceu nos últimos anos e que é o ideal: as equipas terem os seus corredores na VPF em Julho e a selecção correr em França, em Setembro, sem interferir nos interesses das equipas.

*****
Entretanto, para colmatar a falta de provas em Portugal, que impossibilita uma boa preparação mas os Campeonatos do Mundo, a FPC anunciou que correrá a Volta a Tenerife, de 31 de Agosto a 4 de Setembro, com uma selecção composta por Ricardo Mestre e João Pereira do Tavira, Ricardo Vilela do Boavista, Bruno Silva da LA/Antarte e Rui Sousa, Filipe Cardoso e César Fonte da Barbot-Efapel.

“Vamos tentar lutar pelos primeiros lugares, embora tenhamos consciência das dificuldades que iremos encontrar. O pelotão espanhol de elite e amador é muito competitivo e o percurso é altamente selectivo”, diz o seleccionador José Poeira. Penso que não preciso dizer que o percurso é altamente selectivo para todos e para esse tipo de percursos contam com Mestre, Rui Sousa e até Vilela, João Pereira e Bruno Silva. O que acho necessário é que das 13 equipas presentes, seis são locais, das ilhas Canárias, e estão para o ciclismo espanhol como as equipas amadoras madeirenses para o ciclismo português. De resto são quatro amadoras espanholas (do continente), uma francesa e uma italiana. Não se pode exigir que os portugueses ganhem, como se fosse o grande objectivo da temporada ou os adversários não soubessem andar de bicicleta. Esta prova deverá ser encarada como uma forma dos corredores manterem um bom ritmo competitivo após a Volta para alguns deles poderem estar nos Mundiais em boa condição, mas no final não será admitida a desculpa “o pelotão espanhol amador é muito competitivo”.

Boa sorte para os sete, para o Tiago Machado, Nelson Oliveira e Sérgio Paulinho para o que falta da Vuelta, para o Bruno Pires no que resta do USA Pro Cycling Challenge e ao Rui Costa na Volta a Poitou Charentes que termina amanhã.

8 comentários:

  1. Infelizmente sempre foi e sempre será assim, a maior parte do calendário é organizado pelas associações e clubes (também por algumas empresas especializadas), para a FPC poder concentrar-se num trabalho mais especifico das seleções e evolução do ciclismo em geral, mas depois nunca se vê trabalho realizados pela maioria dos funcionários e dirigentes da FPC, e não são poucos...

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  2. adorei ler o artigo, está muito bem dito tudo o que escreveste, pena é a FPC não preceber... reenvia para o mail da FPC...

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  3. "a sobreposição da Volta a Portugal do Futuro com a Volta a França do Futuro, já que a prova francesa é de 4 a 11 de Setembro e a portuguesa de 7 a 11."

    Eu quando soube disto fiquei de boca aberta. E explicações?

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  4. De facto agendar a Volta a Portugal do Futuro nas mesmas datas da Volta a França do Futuro é de um amadorismo e falta de inteligência atroz. O convocar atletas com mais de 30 anos de idade (que nunca alcançaram qualquer feito relevante) para estágios da selecção é outro. Devem achar que como a Jeannie Longo ganha campeonatos de França de contra-relógio com mais de 50 anos, é possível formar uma atleta para se destacar na alta competição aos 30 anos, ainda teria 20 anos para brilhar ao mais alto nível devem pensar esses senhores, só que as coisas não funcionam assim. E óbvio se queremos disputar com os melhores provas internacionais convém que eles estejam habituados a correr uma quilometragem equivalente ou que não se afaste muito do dessas provas internacionais. Para não variar, mais um excelente texto.

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  5. Obrigado pelos comentários ;)

    Carlos, na Federação ligam a opiniões diferentes das deles? Eu vejo as mesmas pessoas, os mesmos cargos e as mesmas ideias há tantos anos...

    Ricardo Silva, é isso, estão a inspirar-se no exemplo da Jeannie Longo e eu não tinha percebi ehehe

    Cumprimentos a todos ;)

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  6. Não podia concordar mais em relação á dureza dos percurso...um bom exemplo vai ser o próximo alves barbosa para os cadetes em q nos anos anteriores era uma prova extremamente dura e este ano as duas etapas vão ter um percurso bem mais acessivel...
    E desde já gostava de te felicitar e agradecer por este blog, a muito tempo que não lia opiniões e constactaçôes de factos sobre ciclismo desta qualidade

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  7. Excelente texto. De facto não fazia ideia que o orçamento das femininas tinha subido de 5000 para 15000 € :O Não vi qualquer avanço nesse campo. Provavelmente com esse aumento de 10000€ faziam melhor com os juniores que esta epoca foram completamente "espezinhados" e "maltratados" pela FPC.

    Um dia destes temos todos de fazer um golpe de estado mas é a FPC. LOOOL Velhos com as mesmas ideias de há 20 anos não queremos para a nossa modalidade... Se não forem os novos a puxar por isto, pelos velhos vamos afundar durante mais 20 anos.

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