quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Os pavés do Tour. Contra ou a favor?

Frank Schleck nos pavés do Tour 2010
A Volta a França do próximo ano, hoje apresentada, terá nove setores de pavé, num total de 15400m deste piso, tudo nos últimos 70 quilómetros da quinta etapa. Os argumentos a favor e contra não faltam.

A perceção que tenho é de que a maioria dos adeptos é favorável à inclusão dos setores de pavé no Tour ou dos caminhos de tenha no Giro. Ainda que a palavra sterrato tenha um tom mais poético e romântico (como a língua italiana em geral), não significa outra coisa se não isso mesmo: um caminho de terra.

Porque as grandes voltas (e sobretudo o Tour) devem ser o mais variadas possível, porque será uma etapa diferente, porque será uma etapa imprevisível e emocionante, ou porque será como misturar a grandeza do Tour e do Paris-Roubaix, os argumentos a favor dos pavé no Tour existem e têm a sua força. Porém, e apesar de aceitar todos estes argumentos, continuo a ser adverso estas situações.

Saberão os leitores de mais longa data que as minhas provas favoritas são precisamente o Paris-Roubaix e a Volta a Flandres (não por esta ordem), mas também o Circuito Het Nieuwsblad (Omloop) ou o Prémio E3 de Flandres. A imprevisibilidade de cada setor de pavé e os ritmos que os ciclistas conseguem impor naquele piso enquanto saltam no selim, atacando sentados, é algo que me fascina, bem como o facto de tudo ser decidido naquele dia. E este último aspeto, que julgo fazer toda a diferença, é algo que não acontece nas provas de três semanas.

Os pavês têm o seu lado negativo. É que no meio da sua imprevisibilidade e das emoções geradas, os setores de paralelo provocam aquilo que mais me revolta no ciclismo (mais do que qualquer escândalo): os furos e as quedas. Sobretudo as quedas. E é bastante diferente acontecer numa prova de um dia, ganha ou perdida naquele dia, do que numa prova por etapas, ganha ao longo de 23 dias mas perdida em qualquer um deles.

Como custa (!) ver um ciclista passar meses a preparar-se para um objetivo e depois, ainda antes de poder começar realmente na sua disputa, ver toda a preparação estragada por algo que não poderia controlar. Foi assim com Boonen este ano, foi assim com Cancellara no ano passado, foi assim com Boonen no Paris-Roubaix de 2011... enfim, não faltam exemplos.
Parte final da 5ª etapa do Tour 2014 
E não é preciso recuar muito no tempo para ter um excelente exemplo: Sep Vanmarcke. O belga da Belkin (então ainda era Blanco), caiu na Volta a Flandres e esteve fora da discussão daquele que era o seu primeiro grande objetivo da temporada. Mas a queda em Flandres não o impediu de disputar o Paris-Roubaix. E quando digo "disputar", não digo "participar". Refiro-me mesmo à disputa, à luta, pela prova. Sep Vanmarcke foi o único capaz de encostar Cancellara às cordas até final e apenas nos últimos metros o suíço se conseguiu impor. Em Roubaix não teve qualquer impacto a queda e o tempo perdido uma semana antes.

Isso não acontece no Giro nem no Tour. Já nem me refiro às mazelas "sérias" que poderão resultar de quedas, como fraturas. Refiro-me apenas a azares mais "simples". Uma "simples" queda, um furo, uma corrente que salta ou o simples azar de ficar preso atrás de uma queda, pode levar ao atraso de vários minutos. Claro que os mesmos azares podem acontecer em qualquer momento, mas não há como negar que no paralelo as hipóteses de ocorrência aumentam consideravelmente. E no Tour, além da luta pela vitória no dia, teremos que contar com todos os homens da geral e os seus gregários a batalhar por um lugar na frente do pelotão antes da entrada em cada setor.

Um azar no paralelo, não deita por terra apenas aquele dia. Pode deitar todo um Tour. Uma queda, mesmo que não tenha fraturas, tem mazelas que no dia seguinte terão que ser suportadas na estrada. Não há descanso, o que faz com que qualquer pequena mazela se torne mais significativa do que caso ocorresse numa clássica. Entre clássicas há descanso, no Tour o descanso é muito diferente.

Na última vez que houve pavé no Tour, em 2010, foram mais de treze quilómetros e apenas se registou uma queda importante nas contas para a geral: Frank Schleck, quinto classificado do ano anterior e terceiro no ano seguinte. Parece pouco, mas recuando até 2004 temos um caso muito mais severo. Dois setores, totalizando apenas 3,5 quilómetros, fizeram com que Zubeldia e Iban Mayo perdessem quase quatro minutos, eles que tinham sido quinto e sexto no ano anterior e partiam como candidatos ao pódio. O mesmo tempo perdeu Menchov (11º e melhor jovem em 2003) e Moreau e Karpets, que sem o tempo perdido pelos pavés teriam terminado no top-10.

Quadro resumo das últimas etapas com pavé no Tour
Mas o tempo perdido nos pavés não é igual ao tempo perdido em qualquer outra etapa? Sim, é. Para a classificação é, e o que interessa é a classificação real e não as classificações morais. Por isso, sim, o tempo é igual. No entanto, não posso deixar de pensar que nestas etapas não se ganham Tours, apenas se perdem.

Apesar da Volta a França ser vista como uma prova para ciclistas completos, basta olhar para os últimos vencedores (desde o ciclismo especializado) ou os últimos pódios para ser perceber que a definição de "completo", na Volta a França, não vai além da montanha e do contrarrelógio. Com mais ou menos contrarrelógio, com mais ou menos chegadas em alto, o vencedor é sempre alguém que sobe com os melhores e faz contrarrelógios ao nível dos melhores. Ou, se os quilómetros de crono não forem exagerados, alguém que se defenda, como o Andy Schleck naquelas três anos em que foi segundo.

Os homens do pavé, Cancellara, Boonen ou Hushovd certamente quererão estar presentes e lutar pela etapa, podendo mesmo fazê-lo em isolado, ou seja, ganhando tempo. Mas não são estes os homens que lutarão pela geral final. Os trepadores, os contrarrelogistas, aqueles que por norma discutiriam os lugares do pódio, terão muito mais a perder do que a ganhar. Para eles será um dia de sobrevivência. Se algum adversário ficar para trás e perder tempo, melhor para eles, mas não se espere ver Froome, Nibali ou Quintana a acelerar para ir por ali fora a ganhar tempo. As suas equipas poderão tentar provocar o erro (má colocação) dos adversários, mas para o resultado final este dia será mais marcante pelo tempo perdido de alguns do que pelo tempo ganho de outros.

Conclusão

Em suma, e porque o artigo já vai extenso, esta etapa tem os seus pontos positivos que não nego. Mas colocando na balança, vejo os pontos negativos com maior peso. Até porque este é um Tour que me parece bem desenhado (tema para outro dia).

Não existindo contrarrelógio antes do penúltimo dia, os trepadores menos capacitados para um crono plano, como Quintana ou Rodríguez, poderão manter uma disputada batalha com Froome, pelo menos, até ao contrarrelógio, ao contrário deste ano em que perderam três minutos logo a meio da prova. Porém, temo que alguns dos homens com aspirações ao top-10, ou até algum dos poucos homens capazes de fazer tremer Froome (a nove meses da prova, é o principal candidato) fique arredado da discussão por um azar nos pavés. Infelizmente, parece-me algo muito provável, mas este é um dos casos em que espero estar errado.

*****


15 comentários:

  1. Gostei de ler o artigo, no entanto não consigo concordar com a opinião.

    Pensando naquilo que não gostei do Tour o ano passado, o que me vem mais à cabeça foi a previsibilidade do resultado, desde a primeira etapa de alta montanha. O Pavé vai trazer imprevisibilidade, vai colocar mais pressão nos que são puros trepadores (como o Purito ou o Quintana), e vai dar esperança a ciclistas um pouco mais pesados e que se safam melhor na média montanha (como o Rui Costa ou o Daniel Martin). Creio que desta forma deixará o Tour mais aberto, pelo menos até ao início dos Pirinéus.

    Ninguém quer que os ciclistas caiam, mas não vejo o problema de ter um furo, ou saltar uma corrente. São coisas que fazem parte do Ciclismo, e é indiferente quer seja no Pavé, quer seja numa etapa plana.

    A imprevisibilidade no Tour é boa, e ter uma etapa de Pavé a cada 3 ou 4 anos ajuda a isso.

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  2. Na tabela apresentada deveria estar 2014 e não 2013...porque este ano não houve pavé. Cumprimentos

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    1. Tem toda a razão. Já foi corrigido. Obrigado!

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  3. Eu gosto do facto de existir pavê. Vai trazer mais emoção e os candidatos terão de dar o litro ali se não perdem tempo uns para os outros. Acho que nada se decide no pavê, mas um atraso pode fazer moça depois numa etapa de alta montanha ou no CR de penúltimo dia. Esta etapa de pavê agrada-me muito. Para Tour chato já bastou as duas últimas edições, que foi facilmente dominada pelos homens da Sky.

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  4. Cada vez que ouço falar de Pavé no Tour, faz-me recordar a Passage du Gois no tour de 1999, em que o 2º e 3º classificados da geral final perderam cerca de 7 min nesse dia...

    Alexandre Oliveira

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  5. Obrigado pelos comentários!

    João Mota Marques, se for o Rui Costa ou o Dan Martin a furarem e perderem aí as suas aspirações... a imprevisibilidade dos pavés continuará a ser positiva, mesmo para uma corrida como o Tour? É que os furos e problemas mecânicos não escolhem apenas os ciclistas leves. Nem os pesados. É aleatório.

    Alexandre Oliveira, e depois dos seis minutos perdidos nessa etapa logo ao 3º dia, o Zulle só perdeu minuto e meio no restante Tour. Assim se vê que este tipo de etapas não servem para tornar as provas mais disputadas, mas podem sim eliminar candidatos, o que tem o efeito contrário.

    Cumprimentos

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  6. Pegando no seu último comentário também posso dizer que as etapas de montanha eliminam candidatos (os não trepadores) e os CRI também eliminam candidatos (os não contra relogistas)....e as provas são bem disputadas à mesma por isso vejo com bons olhos uma etapa com pavê que de certo eliminará candidatos mas a prova continuará a ser disputada.

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    1. Estava a falar de eliminar candidatos por furos e quedas, que foi o que se passou na Passage du Gois e nos pavés de 2004 e 2010. Se quer comparar um furo ou uma queda com a falta de capacidade...

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    2. Certamente irão haver homens que irão perder tempo nesse dia por falta de capacidade e sem necessariamente terem furos ou quedas...mas cá estaremos depois para comentar.

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    3. Ah e em todas as etapas há a possibilidade dos ciclistas poderem sofrer quedas ou furos....já vimos isso em etapas de montanha e também em contrarelógios por isso....

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  7. Eu sou a favor do pavé, é espectáculo e adrenalina e é isso é bom. O Andy perdeu o Tour numa avaria mecânica a subir, depois de fazer um ataque. Recordo a etapa do pavé 2010 foi brutal. Em todas as etapas pode-se ter um furo ou uma queda. E se tiver a chover... mais espectáculo vai ser ...

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  8. De lembrar que a etapa de pavé última do tour, contador e schleck andaram num grupo da frente e o primeiro teve um furo que lhe fez perder tempo...

    Eu amo as provas no pavé, mas estou completamente dividido neste caso...

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  9. eu acho que, de 5 em 5 anos haver uns 10/15 km de pavé no tour, não faz mal a ninguém. as quedas podem acontecer em qualquer sítio, mas percebo que no pavé existe maior probabilidade.

    para lembrar-nos que no pavé o frank abandonou e o zulle perdeu uma carrada de minutos, também é preciso não esquecer que noutras etapas no inicio de cada ediçao do tour (quando o pelotão tá grande), existe sempre gente que perde tempo por quedas e furos ou avarias nos momentos errados.

    eu sou a favor desde que não seja muito frequente.

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  10. Pave quer dizer a estrada empedrada certo? acho que traz mais entusiasmo, mais suspanse, pode haver supresas e os mais fracos podem nesse dia brilhar pois sabem que tao em condiçoes iguais , como ja disseram por aqui e muito bom haver esta variedade de condiçoes para propocionar um grande espetaculo

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  11. Já há algum tempo que sigo o teu blog, e já algumas vezes adicionei os meus comentários, desta vez estou quase a concordar contigo a 100%, só não concordo quando dizes - "definição de "completo", na Volta a França, não vai além da montanha e do contrarrelógio" - mas pronto isto seria outra discussão.

    Quanto ao tema em si, como adepto do ciclismo, também sou contra o pavé, porque como disseste acrescenta um grau de imprevisibilidade, ou melhor de previsibilidade, porque acabará por ser castigador para alguém que cai, fura ou avaria. De certeza que algum dos candidatos iniciais ao TOP10 irá perder tempo ou mesmo abandonar.

    Como espectador, claro que gosto do pavé, vai ser um dia tão espectacular como a subida a um Alpe D'Huez, com vencedor imprevisível, com muita história para contar e muita coisa a acontecer ao mesmo tempo nos diversos grupos que se vão formar.

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