terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Caso Contador, algum bom senso entre a hipocrisia


Ao que parece, Alberto Contador é considerado inocente pela Real Federação Espanhola de Ciclismo e poderá começar a competir. Sinceramente, mesmo defendendo este desfecho, pensei que o considerassem culpado, sem saberem muito bem porquê, apenas para dar boa imagem. Aliás, a luta anti-doping tem como objectivo manter a boa imagem do deporto. Por um lado, procura-se o doping para castigar, por outro, tenta-se que não se perca dinheiro onde ele existe. É por isso que nenhum futebolista que tem o passe avaliado em milhões de euros pode ter um controlo positivo e a consequente desvalorização, a não ser que o clube esteja interessado em despedi-lo, como fez o Chelsea ao romeno de quem o Mourinho não gostava. Nos outros casos, se vale milhões, é intocável, nem que ande em clínicas de desintoxicação e viciado em cocaína (à lá Jardel) ou tenha que abandonar o Mundial com mala ao ombro alegando… lesão no ombro. Enfim, voltemos ao caso do Contador.

O Contador acusou clembuterol na concentração de 50 pictogramas por mililitro de sangue. Chamar doping a isto, é como chamar “boazona” à Odete Santos. Tal como a Odete é mulher mas não produz o efeito de uma “boazona”, o clembuterol é proibido mas nesta concentração não faz qualquer efeito. É uma concentração tão ridícula que é impossível tomar tão pouco clembuterol.

A explicação de Contador, verdadeira ou não, é simples. Resumindo, disse que tinha comido carne contaminada, carne essa que um amigo (e sócio, organizador da V. Castela e Leão) tinha trazido de Espanha (o Tour estava nos Pirenéus) para ele e os restantes espanhóis da equipa, pois não gostavam do que a equipa ia comer no hotel. Se é verdade? Não sei. Não sei se é verdade, mas é uma hipótese mais lógica do que todas as apresentadas pelos acusadores (podem ver ele a explicar aqui).

Na passada sexta-feira, Contador esteve durante hora e meia em entrevista a um canal espanhol (parte 1 da entrevista), com a presença de um entrevistador (Pedro J. Ramírez) e alguém responsável por responder às questões científicas (Dr. José Luís de la Serna, que é também subdirector do El Mundo e responsável pela área da saúde). O entrevistador passou grande parte do tempo a atacar o Contador e todos os ciclistas (“todos se dopam, porque tu és diferente?” chegou a perguntar) e acabou por dizer que realmente não encontrava ponta por onde poder pegar e desejar boa sorte a Contador para ser inocentado.

Uma das hipóteses apresentadas, era ele ter tomado directamente a substância para melhorar o seu rendimento, o que foi desmentido, pois, se o tivesse feito, teria acusado muito (mas muito mesmo) mais, algo que o Dr. de la Serna corrobora. Uma micro dose, planeada precisamente para passar os controlos (porque estas concentrações são muito difíceis de detectar), também está fora de controlo pois, segundo o Dr. de la Serna, esta dose é tão pequena que é inconsequente para o rendimento desportivo. Então, para a concentração estar tão baixa, só haveria uma hipótese, que seria ter tomado o clembuterol anteriormente e o próprio organismo já ter eliminado parte da substância. Pois, bem, como diz o Contador, neste caso, ser líder do Tour e ir todos os dias a controlo é uma vantagem, pois nos dias antes ele não tinha acusado nada. Aqueles que não desistem da acusação por aqui dirão que foi uma transfusão. Pois, mais uma vez, fazer controlos constantes e o passaporte biológico ajudam o Contador. Se ele tivesse feito auto transfusão, haveria alterações significativas nos valores das suas análises. Ainda não é possível detectar directamente auto transfusão, mas o passaporte biológico serve precisamente para detectar variações nos valores sanguíneos que possam indicar uma transfusão, e os valores de Contador não têm qualquer variação suspeita.

Basicamente, ninguém consegue apresentar uma justificação para valores tão reduzidos, a não ser Alberto Contador. Pode ser que seja verdade, pode ser que seja mentira, mas ninguém apresenta nada mais palpável do que ele. E o que fez a RFEC? Aceitou a sua versão dos factos, declarou sem responsabilidade pela substância tomada e inocentou.

Agora a UCI e a Agência Mundial Anti-Doping (AMA) podem recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto. No entanto, um jogador alemão de ténis de mesa (pingue-pongue, no dia-a-dia), foi suspenso em Setembro do ano passado pela mesma substância (75 pictogramas contra os 50 do Contador), em Outubro a suspensão foi anulada por se considerar que tomou a substância sem responsabilidade e a AMA não recorreu. Se recorrer pelo Contador, no mínimo, parecerá perseguição.

Espero que isto acabe por aqui e, se voltar a ser tema neste blog, que seja como rodapé anexo a um tema mais interessante.

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Porque está aí mais uma época, espero voltar a escrever no blog com a frequência inicialmente pensada e utilizada nos primeiros meses. Da Prova de Abertura e da Volta ao Algarve, falarei proximamente, aproveitando para analisar o estado de coisas do ciclismo nacional e o que se passou neste defeso. Afinal de contas, este é um espaço de análise e crónica pessoal. Para notícias, há outros espaços.

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