domingo, 23 de setembro de 2012

Gilbert campeão mundial nas "7h para salvar a temporada"

"Tenho sete horas para salvar a minha temporada", dizia Philippe Gilbert antes destes Mundiais. Ele, grande dominador de 2011 e contratado a peso de ouro pela BMC, fez uma temporada muito abaixo das (elevadas) expectativas... até há um mês atrás, quando conseguiu a primeira vitória de 2012. Hoje salvou a temporada com uma brilhante vitória que marcará a sua carreira: o seu primeiro título mundial. Rui Costa foi 11º, o melhor resultado de sempre de um português.

Corrida muito atacada desde início, como é habitual nos Campeonatos do Mundo, mas desta vez não foram apenas ciclistas pouco conhecidos e de países pouco influentes a marcarem presença nas primeiras movimentações. Espanha, Itália e França estiveram activas desde o início com Lastras, Cataldo e Coppel num grupo de onze corredores, que passaria a 29 ainda antes do km 200. Nesse grande grupo destacavam-se Contador, Flecha, Voeckler, Marcato, Ulissi, Nocentini, Leukemans, Meersman, Tiernan-Locke, Albasini, Gesink, Fuglsang e Michael Matthews. No total, 17 nacionalidades na frente mas nada de portugueses, como é hábito desde que me lembro. Nada de preocupante porque o grupo foi alcançado a duas voltas do fim, depois de Voeckler muito barafustar com todos ("não gostam de mim por inveja", diz ele).

Por essa altura já estes Mundiais tinham um ligeiro cheiro a desilusão para quem os esperava duros (como eu). Havia ataques no Cauberg, o pelotão ficava em fila indiana mas depois ninguém se entendia e o pelotão voltava a engrossar, esperando-se que apenas a última subida marcasse a corrida. A Bélgica agia como bloco e tentava controlar o pelotão para que Gilbert aí fizesse a diferença.

Entraram 48 corredores na frente para a última volta, incluindo sprinters como John Degenkolb, Tom Boonen, Edvald Boasson Hagen, Allan Davis e Oscar Freire, o que ameaçava muita gente, incluindo o português Rui Costa, que passava sempre o Cauberg nas primeiras posições. Também lá seguia André Cardoso, que realizava um excelente trabalho de apoio a Rui Costa, enquanto Bruno Pires tinha ficado para trás devido a uma queda massiva na sétima volta e Sérgio Paulinho tinha cedido à nona (e penúltima) passagem pelo Cauberg.

Os italianos, mostrando um companheirismo que me surpreendeu, tentaram endurecer o ritmo da corrida nos últimos quilómetros para preparar o ataque de Nibali, incluindo com alguns ciclistas pouco possantes que não conseguiam impor ritmos elevados na descida de acesso ao Cauberg mas deram tudo o que tinham. O ataque de Nibali foi lançando e no contra-ataque Gilbert disparou para a vitória, sendo Kolobnev, Boasson Hagen e Valverde os que estiveram mais próximos mas ninguém conseguiu chegar ao belga. Boasson Hagen levou a prata e Alejandro Valverde o bronze, outra medalha para somar às pratas de 2003 e 2005 e ao bronze de 2006.

Rui Costa foi 11º, conquistando o melhor lugar de um português na história dos Campeonatos do Mundo. Confirmou que era um homem para top-10, talvez até para medalhas ou quem sabe o título. Andou toda a corrida bem colocado, excepto na entrada para a última subida e, não fosse isso, talvez tivesse conquistado ainda um melhor resultado. Não deu, mas pode sair de cabeça levantada. André Cardoso foi 30º a 17 segundos de Gilbert. Mais do que isso, salienta-se a grande ajuda dada ao seu companheiro. É nas horas decisivas que se vê quem são os grandes gregários e o André, que habitualmente tem liberdade nas suas equipas, hoje foi um grande equipier na nossa selecção. Sérgio Paulinho foi 71º a 2.21 minutos e Bruno Pires acabou por desistir no final da oitava volta devido à tal queda e ao atraso que daí resultou (resultaram muitas desistências dessa queda, não por danos físicos mas por ficarem muito atrasados).

Boasson Hagen e Valverde acompanharam Gilbert no pódio
A Bélgica é a grande vencedora, a Noruega volta a conquistar uma medalha depois do título de Thor Hushovd em 2010 e a Espanha leva uma medalha conquistada sem grande apoio colectivo. Como era de esperar, os espanhóis foram cada um por si. Os alemães podem sair satisfeitos com o 4º lugar de Degenkolb, os holandeses com o 5º lugar de Boom (apesar de estarem em casa, não tinham ninguém com responsabilidade de mais) e os grandes derrotados são os italianos, para os quais o melhor classificado foi Oscar Gatto na 13ª posição. Mesmo para os espanhóis, o 3º lugar de Valverde está longe de ser uma vitória, porque quando se alinha com Valverde, Rodríguez, Contador, Daniel Moreno, Freire e Samuel Sánchez, espera-se a vitória. Claro que nem todos estavam na melhor forma... e por isso não deviam lá ir. Mas nuestros hermanos que se preocupem com isso.

A BMC volta a ter a camisola arco-íris, depois de Cadel Evans em 2010 (título conquistado em 2009). No seu plantel têm os vencedores de 4 Mundiais de fundo em elites: Alessandro Ballan (2008, então na Lampre), Cadel Evans (2009, então na Silence-Lotto), Thor Hushovd (2010, então na Cervélo) e agora Gilbert, este sim conquistado por um ciclista da equipa.

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Quanto à prova de juniores, vencida pelo esloveno Matej Mohoric, Francisco Valinho foi 67º a 12 segundos, Ruben Guerreiro 115º a 2.59 e Luís Gomes 120º a 7.15. É difícil esperar melhor, quando cada vez há menos provas em Portugal e especialmente provas longas. E é difícil organizar mais provas com a crise que se vive. Esperemos que 2013 seja o inverter da situação, com o Estado a comparticipar os custos de policiamento.

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