domingo, 5 de abril de 2015

Terpstra foi excelente, Kristoff Monumental

Foto: The Guardian
Alexander Kristoff vinha desde o ano passado a afirmar-se como maior ameaça para este período entre a Milano-Sanremo e o Paris-Roubaix, por ser perfeitamente capaz de ultrapassar qualquer dificuldades (as colinas da Liguria, os muros de Flandres ou os setores do Norte de França) e o mais rápido dos classicomanos. E se Kristoff já representava um grande perigo pelo demonstrado na última época, ainda pior ficou depois do seu rendimento nos Três dias de De Panne desta semana, em que venceu três etapas e a classificação geral.

A mexida definitiva deu-se hoje mais cedo que nas últimas edições, com Alexander Kristoff Niki Terpstra a isolarem-se na frente no Kruisberg, a 26 quilómetros da meta, depois de uma corrida até então marcada pelo excelente controlo da Sky, dois disparates dos carros de apoio neutro e um André Greipel ao seu nível. Há muitos motivos para gostar de Greipel e um deles é que, apesar de ser um dos melhores do mundo na sua especialidade e de não ter qualquer hipótese de vitória hoje, deixou tudo na estrada em prol dos seus companheiros. É fácil perceber porque os colegas de Greipel o adoram.

Kristoff e Terpstra são os vencedores da Milano-Sanremo e do Paris-Roubaix do ano passado e não é preciso muito mais para evidenciar a qualidade destes dois ciclistas. Num sprint a dois, a vitória estava do lado do norueguês e isso sabia o seu adversário. Mas Terpstra também sabia que ainda que reduzidas, as suas hipóteses contra Kristoff eram melhores que voltar ao grupo perseguidor, ainda bem numeroso. E para a Etixx era preferível esta situação de um-contra-um do que pedir a Terpstra que se deixasse apanhar por um grupo em que o homem mais rápido da sua equipa era Stybar e como adversários, além de Kristoff, teria John Degenkolb e Peter Sagan.

O entendimento na frente foi perfeito e contou com a ajuda de Stybar lá atrás, marcando os diversos ataques que iam ocorrendo. Exceção para Greg Van Avermaet e Peter Sagan, que conseguiram fugir do grupo na última dificuldade, o Paterberg, para dar ainda mais emoção a uma prova já muito animada e quando ainda era possível chegar aos da frente.

Terpstra estava já muito desgastado nesse último muro, foi incapaz sequer de atacar Kristoff e nos últimos quilómetros limitou-se a ir na roda do oponente, que era o que tinha que fazer. A atitude de Terpstra seria criticável se não existisse um favorito tão claro em caso de sprint. Mas com o favoritismo tão desequilibrado, a Terpstra restava ir na roda e esperar que Kristoff assumisse. Pelo mesmo motivo, o favoritismo desequilibrado, a Kristoff não restava outra atitude que não fosse assumir aquele esforço para fugir aos perseguidores. Cada um fez muito bem o seu papel.

Kristoff é um desses ciclistas espetaculares, não apenas pela força física mas pela forma como corre. Dizia aqui há um mês que "em qualidade mas sobretudo pelas suas características, Alexander Kristoff lembra Tom Boonen nos seus primeiros anos - o mais rápido dos favoritos, ou um dos mais rápidos, mas que nas clássicas corre de modo muito flemish, atacando e respondendo diretamente a ataques, sem se esconder". Recorde-se que no ano passado Kristoff saiu no Paterberg no quinto posto e foi até à meta em terra de ninguém, dando tudo para chegar ao quarteto dianteiro sem sucesso, ficando por recuperar magros oitos segundos. Hoje, mais uma vez, assumiu a sua responsabilidade. Terpstra fez o que tinha que fazer. Foi excelente mas calhou-lhe em sorte o pior companheiro para levar para o risco de meta. Kristoff foi monumental.

Se na Milano-Sanremo faltou muito pouco para repetir o êxito do ano passado, hoje tudo correu de feição a Alexander Kristoff, um digníssimo vencedor para um Monumento muito bem temperado. E reforça o favoritismo para Roubaix, um estatuto com que já saia de De Panne.

Greg Van Avermaert respondeu ao belo trabalho (mais uma vez) da sua equipa com o terceiro lugar e Peter Sagan foi quarto, naquela que é até ao momento a sua melhor prestação nesta temporada de clássicas. O quinto foi Tiesj Benoot, miúdo de 21 anos recentemente cumpridos e muito prometedor. Não será de estranhar que nos próximos dias lhe comecem a chamar novo Boonen, ainda que esteja na rival Lotto.

Em notas dispersas, Geraint Thomas não foi capaz de fazer a diferença que tinha feito nas últimas clássicas. Sep Vanmarcke passou mal no Taaienberg e perdeu o contacto (há sempre alguém, por algum motivo, para Vanmarcke perseguir). Arnaud Démare, que está muito confiante para Roubaix teve um problema mecânico numa altura nada conveniente (é outro que tem que ir à bruxa). Nelson Oliveira esteve muito bem na sua estreia na Ronde.

Domingo há mais. Estamos em contagem decrescente para Roubaix.

Sem comentários:

Publicar um comentário

Share