quinta-feira, 7 de abril de 2016

Dentro da Volta a Flandres

Havia anos que ver a Volta a Flandres ao vivo era o meu objetivo. O que eu queria mesmo, mesmo, fazer relacionado com ciclismo era isto, estar ali.

No museu da Volta a Flandres, na sua loja, vi uma t-shirt que dizia algo como "Eu estava no ciclismo antes disto estar na moda" (parece-me ser a melhor tradução para I was into Cycling before it was cool) e eu nunca gostei deste tipo de coisas porque acho que quando gostamos de algo, quando defendemos algo, o mais importante é chamar mais gente. Não interessa quem chegou primeiro. Mas, por mais contraditório que seja, pensei que eu queria estar ali, na Volta a Flandres, na Ronde, havia muito tempo, antes de ser cool.

A Volta a Flandes é diferente. Eu não vou dizer que é melhor, porque não acho que haja uma prova melhor que as outras. Estão todas aí, cada uma com as suas particularidades. Mas a Ronde é especial.

É especial no percurso, nas oscilações entre os muros de pedra escalados e as retas entre eles que se fazem tão longas e tão desprotegidas.

É especial na forma como se desenrola, porque se pode decidir em qualquer muro, porque 10 segundos podem resistir por dezenas de quilómetros, porque cinco segundos podem ser eternos, porque quando a inclinação é máxima fica a nu quem é o mais forte, seja no Paterberg ou no Kapelmuur, .

É especial no público, nas pessoas. Em tradução literal Ronde van Vlaandere é a Volta de Flandres e cada um faz questão de mostrar que aquela é a sua prova, que aquele dia é dia de festa, uma festa com muitos convidados de todo o lado e todos bem recebidos.

É especial na comunicação social. Não pensem que a Volta a Flandres é para Flandres o mesmo que a Volta a Portugal para os portugueses, ou o Tour de France para os franceses. A Volta a Flandres é o Campeonato do Mundo de Futebol. Concentrado num só dia.

O jornal generalista Het Nieuwsblad lançou um especial de 32 páginas sobre a história da prova... com uma semana de antecedência. Durante toda a semana, a Semana Santa do ciclismo para Flandres, foram publicando doze páginas diárias sobre ciclismo (doze!) e durante todo o ano têm mais de meia dúzia de pessoas a escrever sobre ciclismo. Todos os dias da semana que antecede a prova, há entrevistas, há reportagens, há artigos de opinião, porque uma equipa não ganha, porque o outro ganha. Todos os dias da Semana Santa há alguma estrela em conferência de imprensa, ou há alguém a reconhecer o percurso. A televisão pública vai dando repetições de edições anteriores, promove o último embate Boonen-Cancellara e tem especiais agendados para toda a semana. Conseguem imaginar o ambiente que se cria? A expectativa, a pressão.

É difícil de explicar, se não impossível, e não tenho qualquer ilusão de ser eu a conseguir fazê-lo. Nem entender, muito menos explicar. Mas não digam a alguém que cresceu neste ambiente, neste contexto, que a Ronde ou o Paris-Roubaix não chegam. Se vos disserem que apenas as grandes voltas interessam e as clássicas são apenas clássicas, procurem colocar-se neste contexto. Não o digam a um belga.

Porque quando perguntam a um jovem belga qual o seu objetivo da carreira, vai falar-vos de uma das clássicas belgas. Quando perguntam a um flamengo pelas suas referências, muito provavelmente a resposta será Boonen. Quando perguntavam a Boonen a resposta era Museeuw. E quando perguntavam a Museeuw seria algum dos leões de Flandres que antes escalaram os muros da região. Eles querem ser eles, não outros, e a imprensa que agora procura o "novo Boonen" é a mesma que num dia de abril de 2002 apontou-lhe o dedo no pódio de Roubaix e afirmou que era o "novo Museeuw".

Uma parte desta história, das 100 edições da Volta a Flandres, está no Centrum Ronde van Vlaanderen, o museu da prova, em Oudenaarde, onde esta termina desde 2012. É um museu para se perder quem gosta de ciclismo e para viajar para outros tempos através dos vídeos, fotografias e artigos históricos expostos, bicicletas, acessórios e carros clássicos como o da Molteni de Eddy Merckx exposto logo à entrada ou o da Flandria de Rik Van Looy e Freddy Maertens.

O restaurante (com o vinho do Porto do menu "em honra de Joaquim Agostinho") é outra preciosidade e a loja do museu deve ser a melhor loja do mundo para quem gosta de ciclismo, seja adepto como eu, ou ciclista como o Dylan Van Baarle e o Kristoffer Skjerping (Cannondale) que andavam lá perdidos sem saber o que comprar. Era quarta-feira e dia de reconhecimento para muitas equipas.

Era também dia para Johan Museeuw e Eric Vanderaerden fazerem a antevisão da prova no restaurante do Centrum, quatro Voltas a Flandres e outras tantas Paris-Roubaix numa mesa redonda, no dia antes tinham sido Adrie Van der Poel e Edwig Van Hooydonck e no seguinte seriam Eric Leman e Frans Verbeeck, numa iniciativa promovida pelo Het Nieuwsblad. Todos os jornais flamengos dão enorme importância ao ciclismo, mas o Het Nieuwsblad é parceiro oficial da Ronde e a sua presença destaca-se.

Dos seus jornalistas tive a oportunidade de no ano passado conhecer o Bram Vandecapelle, que pertence ao estilo enciclopédia, falando de ciclismo de cabeça, sem internet, sem bloco de notas. Liga a televisão, está o Sporza a emitir a edição de 1989, e logo diz que Van Hooydonck vai vencer, onde vai atacar, o que já fez até ali, que vai voltar a vencer, que vai chorar como uma criança no pódio, quem vai no grupo e o que vão fazer ao longo da carreira os demais membros do grupo. Aquela é edição do seu ano de nascimento. Domingo seria a centésima edição.

Parece que toda a Flandres está voltada para o mesmo. A estação de Gent está cheia de pessoas que vão para Brugge ver a partida, já na sexta-feira me tinha cruzado com grupos que iam correr a prova de amadores no sábado e na segunda-feira voltaria a encontrar as estações de comboio e o aeroporto cheios de bicicletas empacotadas.

Os ciclistas são apresentados num palco que começou a ser montado desde a manhã de quinta-feira, logo cedo. Quando estive ali na quinta-feira, no centro duma das cidades mais bonitas que já vi, tudo estava calmo. No domingo os ciclistas são apresentados diante de uma multidão e só se vê lá, ao longe, algo.

As equipas estão instaladas noutra praça e os ciclistas percorrem seiscentos metros, barreiras dos dois lados, e gente, e gente, e gente. Bandeiras de Flandres, bonés do Het Nieuwsblad. Alguns passam isolados, outros integrados nas suas equipas, uns demasiados concentrados, de cara fechada, outros mais animados, interagem com a multidão. Cada um tem o seu jeito. De repente, Markel Irizar muda a trajetória, vem passar junto ao gradeamento, cumprimenta uma criança com o equipamento da Trek.

Lá ao fundo, de vez em quando, levam-se as vozes e os gritos de incentivo. Vem estrela. É Tiesj Benoot, é Tom Boonen e a sua Etixx, é Van Avermaet, o arco-íris Peter Sagan, Sep Vanmarcke, ´é Fabian Cancellara. Partem os ciclistas e rapidamente as ruas ficam vazias.

A organização está empenhada em ter os muros cheios de público mas sem carros nas imediações e para isso disponibiliza autocarros desde os parques de estacionamento de Oudenaarde, Ronse e Ruien30 minutos depois, chegamos às traseiras do Oude Kwaremont, onde está um festival montado. Música, comida, cerveja, muita cerveja e animação.

Quando cheguei os ciclistas estavam quase a passar, mal deu tempo de encontrar um buraco junto às barreiras e foi no primeiro que fiquei. Passaram os fugitivos, passou o pelotão e eu estava, ali, a ver a Volta a Flandres. Depois abriram a estrada para que o público pudesse subir e descer sobre o empedrado. Senti-me no meu parque de diversões.

Faltavam duas horas para que a corrida voltasse ao Oude Kwaremont e o público concentrou-se junto dos ecrãs gigantes, das roulotes de fritos e sobretudo de cerveja. Há mais cerveja na Volta a Flandres do que em qualquer Semana Académica em dia de Quim Barreiros.

Primeiro passam a prova feminina, e eu à procura do melhor lugar, mais a cima ou mais a baixo, de um lado ou de outro. De preferência que desse para fotografar e filmar para vos mostrar mas, desculpem, sobretudo um lugar que desse para ver.

O aproximar dos helicópteros avisa-nos que os ciclistas se aproximam mas não sabemos como. Van Avermaet está fora, Benoot também e pouco mais se sabe. É possível ouvir o som que vem dos ecrãs mas eu só percebo os nomes e quem está por perto também não consegue perceber a situação de corrida. Vêm os fugitivos, depois Stijn Vandenbergh e os favoritos todos juntos. Na última passagem já vem Peter Sagan e Sep Vanmarcke na frente, Fabian Cancellara a tentar fechar o espaço, mas parece difícil.

Já diante de um televisor confirmei a impossibilidade de alguém se aproximar de Sagan e vi como os belgas se desiludiram quando Vanmarcke quebrou no Paterberg. Era a última esperança belga, mas entre os estrangeiros havia muitos fãs do eslovaco, que rolava sublime. Ninguém tirava os olhos do ecrã, gritavam porque a vantagem subia um segundo, gritavam porque descia um segundo, porque a distância diminuía, porque a cerveja acabava. Quando Sagan cortou a linha de meta para vencer o seu primeiro monumentos, todos o aplaudiram nos televisores e nos ecrãs gigantes.

A festa continuou para alguns, acredito que até ao acabar da cerveja. Os autocarros voltaram a encher-se rumo a Oudernaarde, Ronse e Ruien. Em Oudenaarde o comboio encheu-se como não tinha visto (e nem voltaria a ver) nos dez dias que estive na Bélgica e Oudenaarde ficou vazia. Estive na cidade em dois dias e não imagino como será sem a Volta a Flandres. A Volta a Flandres, essa, é mesmo especial.

Abaixo deixo-vos algumas fotografias e o vídeo pode ser visto aqui. As minhas aventuras por aí extra-ciclismo podem acompanha-las em www.ruideviagem.com.























































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