segunda-feira, 20 de junho de 2011

Porque quer a UCI penalizar (mais) quem já foi condenado?

Primeiro foi a notícia de que a Federação Italiana proibiria os ciclistas que já estiveram suspensos por doping de correr os Campeonatos Nacionais, já a partir dos Campeonatos da semana que aí vem. Depois comunicaram que, além disso, esses ciclistas também não poderão correr pela selecção nacional, o que significa que não voltarão a correr Campeonatos do Mundo. E esta semana foi a vez da UCI tomar medidas: quem for suspenso por dois anos ou mais, não poderá ser director desportivo nem pertencer ao staff de nenhuma equipa.

São medidas duras, há quem se posicione contra elas e por isso se diga do lado dos ciclistas. Toda a gente sabe que me ponho sempre do lado dos ciclistas, mas sou a favor destas medidas (com uma ligeira alteração), que são realmente duras, mas a situação que o ciclismo mundial vive não é para menos. Ora vejamos:

A verdade sobre as alterações

Uma forma de manipular a informação das pessoas, é, em vez de lhes dizer as coisas como elas são, dizer como queremos que oiçam. O Jornal Ciclismo lançou este tema de uma forma altamente tendenciosa. Chama-lhe “regra de conveniência” mas não explica porque lhe considera uma regra de conveniência. Convém a quem?
Aliás, nem informa os seus leitores dignamente da alteração como ela é. Logo no primeiro parágrafo deixei o link para o comunicado da UCI (parágrafos 6, 7 e 8), mas para quem não o abriu ou não entendeu o que lá está, aqui ficam três pontos importantes:
1.    Esta medida apenas é aplicada em violações cometidas a partir de 1 de Julho de 2011 e, portanto, não é válida para quem se dopou até agora.
2.    Quem apenas tenha cometido uma violação e tenha sido suspenso por menos de dois anos, poderá ocupar qualquer cargo cinco anos após a infracção. Ou seja, quem foi suspenso com atenuantes e não voltou a “errar”, poderá ocupar qualquer cargo.
3.    Esta medida não sai nesta altura apenas porque sim. Saiu esta semana porque foi esta semana que o Conselho Directivo da UCI esteve reunido.
Já sobre a alteração da Federação Italiano de Ciclismo, convém saber que não decidiram isto um mês antes dos Campeonatos… decidiram em 2008.


Mas porquê?

Há coisas que todos sabemos sobre a luta anti-doping e o doping em si. A primeira delas, é que é uma hipocrisia de todo o tamanho, existente nos desportos pobres e simulada nos desportos ricos, onde desportistas valem milhões e as suas aquisições são financiadas por bancos. Outra coisa que todos sabemos é que o doping tem afastado muitos patrocinadores do ciclismo.
Uma das formas de parar de “assustar” patrocinadores devido ao doping, seria acabar com os controlos ou manipular quem fosse preciso manipular para que todos dessem negativo, como acontece no futebol ou na NBA. De vez em quando lá se deixava um ou outro acusarem positivo para manter as aparências mas encobria-se os restantes. Como isso não é possível, o ciclismo tem que deixar bem claro que não quer por perto que desrespeite os seus regulamentos. Eu não ponho aqui em causa se o doping deve ser permitido ou liberalizado mas, se é proibido, então tem que ser punido quem o usa. E é isso que já acontece: quem é apanhado no anti-doping, é suspenso. Mas não chega. Pelo que temos visto, não chega.
Confesso que é difícil acreditar num desporto em que alguém leva uma suspensão de dois anos e poucos meses depois está no staff de uma equipa de formação. Mas o que se passa aqui?! Estando a nossa modalidade debaixo de suspeita como está, como vamos convencer alguém de que estamos a ir pelo bom caminho e queremos cortar o mal pela raiz, se deixarmos que ciclistas suspensos segurem pela mão os jovens ciclistas, aqueles que são o futuro? Eu, que adoro ciclismo, quando vejo estas situações tenho dificuldades em acreditar que queremos realmente mudar alguma coisa… como é que pudemos convencer alguém a gostar e confiar na modalidade?
Enquanto assim for, é difícil atrair novos patrocinadores. Um patrocinador pode convidar um director desportivo com a ficha mais limpa do mundo e pedir-lhe que reúna 12 ou 13 ciclistas que nunca tiveram problemas deste tipo nem moraram em cidades com farmácia, mas não dá para confiar no meio envolvente. Alguém é capaz de colocar um filho numa escola, sabendo que a casa ao lado funciona como sala de chuto?
E antes que me perguntem por Bjarne Riis ou Rolf Aldag (que em 2007 admitiram ter-se dopando durante as suas carreiras de ciclistas e agora são directores desportivos da Saxo Bank e da HTC), esclareço já que preferia que não estivessem mais no ciclismo, mas os seus casos são diferentes, pois nunca estiveram suspensos e apenas sabemos que se doparam porque os mesmos admitiram, de vontade própria. Contundo, repito: eu preferia que não estivessem no ciclismo.
Aliás, este novo artigo no regulamento da UCI não trata todos por igual e, aqueles que apenas acusaram uma vez e suspensões relativamente curtas, não estarão impossibilitados de dirigir equipas, excepção com a qual concordo. Pode ser que assim, aqueles que realmente foram influenciados para se doparem (pelos seus directores ou quem quer que seja) colaborem com as autoridades para terem atenuantes às suas penas e ficaram abaixo dos dois anos de suspensão.
Não estou a pedir que se suspenda vitaliciamente aqueles que um dia foram apanhados no anti-doping, mas antes de olharmos para os ciclistas individualmente, é urgente olharmos para a saúde do ciclismo no seu geral, pois só haverá ciclistas profissionais enquanto existir ciclismo profissional.

E porquê proibir que corram os Campeonatos Nacionais?

Filippo Simeoni foi campeão italiano
anos depois de ter confessado
o uso de EPO
Para começar, quero deixar bem claro que não vou sugerir que todas as federações nacionais deveriam fazer o mesmo que a federação italiana e proibir os ex-suspensos de correm os Campeonatos Nacionais. Mas entendo perfeitamente e respeito esta decisão, seja por parte da federação italiana, seja por parte de qualquer outra federação que a tome.
A camisola de campeão nacional (ou mundial) tem um significado enorme, como todos o entenderão, e é um símbolo para o ciclismo de qualquer país, tal como a bandeira ou o hino para qualquer nação. Deixa-la no corpo de quem tem o passado manchado não contribui em nada para que a modalidade reconquiste a confiança de ninguém. É verdade que qualquer pessoa erra e deverá ter direito a uma segunda oportunidade, mas essa segunda oportunidade já é dada quando se volta a dar uma licença que permite correr em todas as provas… menos a representar o seu país. É uma medida excessiva? Não a defendo com a mesma convicção que defendo a medida da UCI, mas como já disse, entendo perfeitamente, respeito e aceito. A única modificação que eu faria, seria, tal como a UCI, abrir uma excepção para aqueles que tiveram suspensões inferiores a 2 anos (ou a ano e meio), e deixar esses correrem os Campeonatos Nacionais. De resto, por mim, estas alterações ficam como estão.
Olhemos para o Giro del Trentino de 2010, vencido por Vinokourov, com Riccò 2º, Scarponi 4º e Basso 5º. Todos tinham o direito de correr, mas ver 4 nos 5 primeiros é, no mínimo, medonho.

Não espero que todos concordem comigo, muito menos num tema tão delicado, mas esta é a minha opinião. Podem todos votar ali no lado direito, se são contra ou a favor destas alterações, e quem quiser poderá explicar a sua opinião através dos comentários.

*****
Temas mais alegres: parabéns ao Nelson Oliveira, que foi quarto no contra-relógio final da Volta à Suíça, apenas batido por Cancellara, Klöden e Leipheimer, três grandes especialistas. A análise da Volta à Suíça fica para outro dia, porque este artigo já vai grande.

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