terça-feira, 26 de julho de 2011

Volta a França de 0 a 10

Com a Volta a Portugal a aproximar-se, está na hora de terminamos as conversas sobre a Volta a França. Vamos então fazer o típico exercício de dar pontuações aos seus principais intervenientes, desde os vencedores Cadel Evans e Mark Cavendish às desilusões como Ivan Basso, Alessandro Petacchi, Saxo Bank ou Radioshack.

Antes de continuarmos, fica a promessa: aqui ninguém é classificado como “lixo”.

10

Nota 10, nota máxima, para Cadel Evans e Mark Cavendish. Tour perfeito para os dois. Cadel Evans foi o grande vencedor e sobre ele já se disse o que havia para dizer (principalmente aqui). Cavendish é de outra luta, a dos sprints, da qual saiu como o grande vencedor. Sem a sua equipa não teria vencido as cinco etapas, mas se as equipas existem no ciclismo é para fazer uso delas e o britânico venceu cinco etapas, às quais soma a camisola verde, o primeiro grande objectivo do ano. O segundo será disputado em Setembro: o Campeonato do Mundo.

9

9 valores para Andy Schleck, Thor Hushovd e Thomas Voeckler. Andy Schleck falhou o seu objective de vencer o Tour, mas esteve na frente em todas as etapas de montanha, terminou em segundo e venceu a etapa do Galibier. Dentro de uns anos, estaremos a recordar aquele dia. “Lembraste quando o Schleck atacou no Izoard? Aquilo é que era ciclismo” recordaremos, como o ataque de Marco Pantani em 98 quando tinha 3 minutos de atraso para Jan Ullrich. Na etapa que terminava em Les Deux Alpes, o italiano atacou sem resposta logo no Galibier. Eram outros tempos, em que a EPO não era detectada e Pantani abusava dela. Terminou com 6 minutos de avanço sobre a maioria dos seus rivais e Ullrich chegaria com quase 9 minutos de atraso.

Thor Hushovd foi camisola amarela durante 7 dias mas mais recordadas serão as suas vitórias em etapas. O ataque a subir para o Col d’Aubisque, depois a descida, a perseguição a Roy para vencer nesse dia, ou a subida para o Col de Manse e o duelo com Boasson Hagen em Gap. Um Tour a roçar a perfeição para o campeão do mundo, ao qual apenas falta vencer a Paris-Roubaix.

E Thomas Voeckler, claro, que não venceu etapas como em 2009 e 2010 mas esteve com a camisola amarela durante 10 dias, incluindo os dias de Pirenéus e Alpes, e terminou no quarto lugar da geral. A evolução do francês é, no mínimo, muito, muito mesmo, surpreendente. Com excepção do 18º lugar em 2004 (então com uma fuga que lhe deu 12.30 minutos), o seu melhor lugar alcançado no Tour era o 66º de 2007. Este ano foi 4º e apenas necessitou de uma fuga de quatro minutos. Já se sabe que a camisola amarela dá muito força e esta foi uma camisola amarela de toda a equipa, pois todos os Europcar estiveram na melhor forma das suas carreiras. Não foi só Voeckler e Pierre Rolland. Assim que ficou para trás na subida para o Galibier, na etapa de sexta-feira, Voeckler teve rapidamente quatro colegas a ajuda-lo e, claro, Rolland lá na frente. Faltou Christophe Kern, que já tinha brilhado (e vencido uma chegada ao alto) no Dauphiné Libéré. A isto vamos chamar “evolução colectiva”. Se continuar, para o ano a Europcar vai lutar pela vitória no Tour, com Voeckler, Rolland, Kern, Gautier, Charteau… quem sabe? (ironicamente falando, claro)

8

8 valores para merecem Samuel Sánchez, Boasson Hagen, Gilbert, Frank Schleck, Rolland e Alberto Contador. Pierre Rolland foi a grande surpresa, vencendo no Alpe d’Huez, vencendo a camisola branca e, sobretudo, estado sempre lá na frente nas etapas de montanha. Ainda não vi referenciado em sítio nenhum, mas nas etapas de montanha Rolland foi 3.16 minutos melhor que Voeckler. Philippe Gilbert cumpriu. O seu grande objectivo era vencer a primeira etapa para envergar a camisola amarela e, se depois fosse possível vencer mais etapas, melhor. O belga cumpriu o seu objectivo, liderou a classificação da montanha nos três primeiros dias, a dos pontos durante 7 (terminou em 3º) mas faltou-lhe sorte: foi segundo no dia em que Rui Costa chegou fugido e no dia da fuga de Voeckler e Luis León Sánchez.

Edvald Boasson Hagen superou as expectativas. O objectivo passava por uma vitória de etapa, o que conseguiu logo ao sexto dia, mas não baixou os braços nem se limitou a esperar pelas chegadas em pelotão. Foi ambicioso, escapou na 16ª etapa mas ficou-se pelo segundo lugar e no dia seguinte voltou a ir para a fuga do dia, não temendo os Alpes e saindo de lá com a vitória. O ciclismo não é só um desporto de força, é também de ambição, de querer ir mais longe e de quem cria oportunidades.

Samuel Sánchez cumpriu o objectivo de vencer uma etapa, não conseguiu terminar nos três primeiros da geral mas a classificação da montanha levou-o ao pódio de Paris. Um grande Tour para ele. A queda do primeiro dia afastou-o dos primeiros postos mas deu liberdade para vencer em Luz Ardiden e ser segundo em Plateau de Beille. A chegada a Galibier eliminou-lhe as hipóteses de chegar ao pódio pela geral, mas deu-lhe nova liberdade para no dia seguinte fugir e ser segundo no Alpe d’Huez, vencendo a classificação da montanha.

Frank Schleck não cumpriu o objectivo de vencer o Tour, mas esteve muito bem. No Alpe d’Huez pareceu faltar-lhe força, a força que fez com que em Luz Ardiden fosse o melhor dos homens da geral e no Galibier subisse com aparente facilidade na roda de Evans, que perseguia o seu irmão. Terceiro na geral, melhorou os seus quintos lugares de 2008 e 2009, mas já tem 31 anos e talvez seja boa ideia dedicar-se a um Giro ou uma Vuelta, se é que quer vencer uma volta de três semanas.

Alberto Contador não cumpriu o seu objectivo de vitória, tão-pouco esteve no pódio ou venceu uma etapa mas nas minhas avaliações não contam apenas os resultados. O espanhol mostrou uma enorme determinação, atacou logo na primeira semana na chegada ao Mûr-de-Bretagne, depois no Col de Manse, na descida para Gap, na Côte de Pramartino, na descida para Pinerolo e na última etapa de montanha. No início do ano ele e o seu director desportivo chegaram a colocar a tripla Giro-Tour-Vuelta como um objectivo para o futuro e talvez tenham percebido que é uma meta demasiado ambiciosa. Tour e Vuelta no mesmo ano talvez seja possível, mas no ciclismo actual será muito difícil alguém vencer Giro e Tour consecutivamente e muito mais difícil será vencer as três. Nesta Volta a França, as pernas falharam-lhe, mas a atitude esteve lá.

7

7 para Damiano Cunego, que teve uma prestação muito regular e terminou no sétimo lugar, ele que não entrava no top-10 de uma grande volta desde o 5º lugar no Giro 2007. 7 também para José Joaquin Rojas, que andou com a camisola verde durante quatro dias, terminou seis etapas entre os 5 primeiros e deu luta a Mark Cavendish pela camisola verde até muito perto do final. Foi muito regular mas faltou a vitória em etapa. 7 para Jelle Vanendert, uma das boas surpresas da prova, esteve em grande nível nos Pirenéus e envergou a camisola dos pontos vermelhos durante cinco etapas. Fica a expectativa quanto ao que poderá fazer no futuro, com maior liberdade desde o início (pois este ano o seu objectivo passava por trabalhar para Gilbert e Jurgen Van Den Broeck). 7 para Jérémy Roy, que esteve em fuga em 6 das 19 etapas em linhas, conquistando por isso o prémio da combatividade no fina. Outro 7 para a Garmin pela vitória colectiva, as quatro vitórias em etapa e os dias de camisola amarela de Thor Hushovd. E o último 7 é para Kim Andersen, o director desportivo da Leopard-Trek. Tal como já defendi várias vezes, as estratégias mais eficazes do ciclismo são simples e foi assim que Kim Andersen jogou. Os Schlecks cometeram erros, mas tacticamente a Leopard esteve perfeita.

6,5

6,5 porque não estiveram ao nível dos anteriormente mencionados, mas 6 seria pouco para Danielson, Peraud e Taaramae. Tom Danielson, um estreante no Tour mas com larga experiencia nas principais provas do ciclismo mundial, conseguiu o seu objectivo de terminar entre os dez melhores (9º), foi regular e por isso merece claramente nota positiva. Jean-Christophe Peraud, outro estreante no Tour e este apenas com uma prova de três semanas disputada (a Vuelta 2010), também cumpriu e foi 10º. A última vez que dois franceses ficaram no top-10 tinha sido em 2006, na altura com Cyril Dessel e Christophe Moreau. Rein Taaramae também ficou às portas do top-10, foi 12º a 1’18’’ de Peraud e a 46’’ da camisola branca de Rolland.

Os portugueses

Classificar os ciclistas portugueses na mesma escala que os restantes é difícil, pois nós olhamos para os nossos de forma diferente. Mas a prestação de Rui Costa foi excelente, pela vitória em Super Besse e pela atitude combativa e ambiciosa demonstrada durante toda a prova. Já a de Sérgio Paulinho, não. Em 2007 Alberto Contador individualmente e a Discovery Channel colectivamente venceram e por isso toda a equipa teve balanço positivo. Em 2009 igual cenário mas na Astana. Em 2010 o Tour de Paulinho foi excelente, com a vitória em Gap e mais uma presença no pódio final pela vitória colectiva da Radioshack. Mas este ano não houve nenhum Radioshack nos primeiros da geral, nenhum esteve perto de vencer uma etapa, não venceram colectivamente e o português nem se destacou em fugas. É verdade que ainda andou alguns quilómetros fugido em Paris, mas fugir em Paris é como sair à rua para ver se a chuva molha.

Os bravos

O discurso que “chegar a Paris já é muito bom” não me diz nada. São profissionais e por isso têm a obrigação de terminar as provas em que entram, a menos que uma lesão os obrigue a desistir. Contudo, há ciclistas que merecem a minha admiração apenas por terminarem este Tour, como Andrey Amador e Johnny Hoogerland. Devido a uma queda, logo na primeira etapa Andrey Amador teve que ir ao hospital e o objectivo da equipa no segundo dia era que ele e Beñat Intxausti se aguentassem juntos dos seus colegas. O tornozelo de Amador estava como mostra a foto ao lado, mas o costa-riquenho manteve-se em prova. Sendo o primeiro ciclista da Costa Rica a correr o Tour, queria também ele ser o primeiro a terminar e logo na primeira participação. Conseguiu e foi um dos colegas de fuga de Boasson Hagen quando o norueguês venceu em Pinerolo.

A história de Johnny Hoogerland já todos conhecem. Com 33 pontos no corpo, não baixou os braços e escapou-se várias vezes ao pelotão à procura da sua sorte, a que lhe faltou quando um condutor o atirou ao arame farpado.

Notas negativas

Como disse no início, aqui ninguém é classificado como lixo, mas neste Tour (como em todas as provas) houve desilusões. Ivan Basso teve uma queda feia em Maio, que poderia ter atrasado a sua preparação, mas o italiano até entrou bem no Tour. Porém, foi decaindo e mostrou falta de capacidade para aguentar as três semanas ao nível que os seus objectivos exigiam e falta de explosão. Para 2012 poderá pensar em Giro e Vuelta mas pódio no Tour parece impossível.

Alessandro Petacchi, outro italiano que desiludiu. Camisola verde em 2010, chegou ao Tour com queixas de problemas de saúde, mas até foi 2º na sétima etapa. Teve também um terceiro lugar mas é muito pouco para um ciclista com o seu palmarés.

Voltando aos homens da geral, Martin e Karpets. Tony Martin até venceu o contra-relógio de Grenoble mas o seu principal objectivo passava pelo top-10 da geral e ficou-se pelo 44º lugar. Vladimir Karpets porque estava diante da sua última oportunidade como líder numa grande volta e foi apenas 28º.

Por fim, notas negativas para duas equipas. A Radioshack e a Saxo Bank. A Radioshack foi uma sombra do esperado. É certo que Brajkovic, Horner e Kloden desistiram por lesão e até podemos admitir que Leipheimer ficou afectado pela queda que sofreu, mas então e os outros? Nada! Leipheimer e Zubeldia andaram bem alguns dias mas nunca ousaram fugir para melhorar as suas classificações, de Paulinho já falei, Irizar e Muravyev estiveram em fuga um dia cada mas mesmo assim é muito pouco para uma equipa com tantas responsabilidades. Os líderes lesionaram-se? Ok, os outros que se mexessem! Por esta altura já Bruyneel deve estar a pensar numa renovação da equipa, que deverá ter como pedras base os jovens Brajkovic, Tiago Machado, Matthew Busche e Ben Hermans (disso falaremos em maior pormenor noutra altura).

A Saxo Bank merece nota negativa porque não foi nada, à excepção de Contador. Levaram 8 ciclistas a pensar no madrileno mas, quando ele precisou, raras foram as vezes em que teve um colega por perto e, quando teve, não conseguiram ajudar o mínimo exigido.

*****
Com a Volta a Portugal á porta, no domingo passado disputou-se a última prova da Taça de Portugal, vencida por Sérgio Ribeiro em elites e Luís Afonso em sub-23. Sérgio Ribeiro, que poderá ser um dos ciclistas em maior evidência na Volta, foi segundo da última prova, encabeçando um quarteto que terminou a quase dois minutos do ioiô João Cabreira. Ioiô porque rapidamente vai à frente, vai atrás e volta à frente. Campeão Nacional a 26 de Junho, andou na carroça do Troféu Joaquim Agostinho (7 a 10 de Julho) até desistir e no domingo voltou a ganhar.

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