domingo, 24 de julho de 2011

Histórias de um vencedor do Tour, Cadel Evans

Como esperado, Cadel Evans sagrou-se hoje vencedor da Volta a França 2011, a primeira vencida por um australiano, depois dos segundos lugares de 2007 e 2008. E como prometido, aqui fica o artigo que Cadel Evans merece:




Cadel Evans não é o típico vencedor da Volta a França. Nasceu a 14 de Fevereiro de 1977, em Katherine, uma localidade de seis mil habitantes no Norte da Austrália, um país com pouca (ou quase nenhuma) tradição no ciclismo até então. Ainda poucos compatriotas tinham corrido na Volta a França (curiosamente, alguns deles como membros da Selecção Mista do Luxemburgo) e o primeiro a fazê-lo após o nascimento de Evans foi Phil Anderson, o primeiro grande ciclista australiano, vencedor, primeiro não-europeu a vestir a camisola amarela (1981) e a vencer a classificação da juventude (1982) e primeiro australiano a vencer uma etapa (1982). 29 anos depois, Cadel Evans também fez história, tornando-se o primeiro australiano e o primeiro ciclista do Hemisfério Sul a vencer a Volta a França, ele que já tinha sido o primeiro australiano Campeão do Mundo de fundo (Michael Rogers conseguiu o feito em contra-relógio).

Durante a infância de Evans, o ciclismo não era na Austrália aquilo que era até ontem e muito mais longe estava daquilo que certamente será depois desta vitória. Cadel Evans também não teve a formação de outros vencedores do Tour. Começou a sua carreira no BTT e por isso é o ciclista de estrada mais amado entre os fãs da vertente de montanha. Evans sempre mostrou grande aptidão para as bicicletas, não apenas a nível nacional mas também internacional, conquistando medalhas em Mundiais de juniores e sub-23 e as Taças do Mundo de 98 e 99. A primeira delas, trouxe-o a Portugal, a Silves, de onde saiu vencedor. Por isso mesmo, Evans tem ainda mais adeptos entre os betetistas portugueses: foi ele quem venceu a mais importante prova de BTT alguma vez disputada em Portugal.

Betetista na Volvo-Cannondale, foi natural que experimentasse o ciclismo de estrada em 99, pois a marca de bicicletas norte-americana também patrocinava a Saeco, à qual Evans voltou em 2001, para se dedicar em definitivo à estrada. Desde logo teve bons resultados e até mesmo vitórias, que o levaram à gigante Mapei no ano seguinte, onde se estrearia numa prova de três semanas, o Giro d’Itália. O 14º lugar nesse Giro deixou no ar a ideia de que Evans poderia fazer algo grande, mas os dois anos seguintes, na alemã Telekom, não foram tão bons quanto esperado. Na sombra de Alexander Vinokourov, Kloden ou Ullrich durante esses dois anos, Evans apenas se estreou no Tour em 2005, na então Davitamon-Lotto, terminando no 8º lugar.

No ano seguinte, certamente teria uma palavra a dizer. Lance Armstrong tinha-se retirado e Ivan Basso, Jan Ullrich, Francisco Mancebo e Alexander Vinokourov não estariam presentes devido a uma então recente bomba chamada Operación Puerto. Dessa vez, Evans foi quarto e tornou-se ainda mais conhecido entre os adeptos da Grande Boucle.

2007 foi o ano da batalha entre a leveza de Michael Rasmussen e Alberto Contador e a pedalada pesada e sofrida de Cadel Evans e Levi Leipheimer. Começou aí a criar-se a má imagem que algumas pessoas têm de Evans. Robusto (longe do físico de Contados, dos Schleck, Samuel Sánchez, Nibali ou qualquer outro habitual homem de grandes voltas) e sem formação no ciclismo de estrada, a posição de Evans a subir estava (e está) muito longe daquilo que se pode considerar belo. A vitória foi disputada até ao último contra-relógio com Alberto Contador e no final o australiano decidiu que estaria presente na Volta a Espanha, onde foi 4º mas mordeu os calcanhares de Sastre e Samuel Sánchez (pelo 2º lugar) até ao último contra-relógio. Claro que em Espanha Evans começava a ser visto como “o adversário”, “o vilão” que lutava contra os espanhóis, e os portugueses têm facilidade em apanhar as manias dos espanhóis no que ao ciclismo diz respeito. Além do mais, Evans estava contra Contador da Discovery Channel, a Discovery Channel de Sérgio Paulinho e, como todos sabem, nestas situações a Eurosport portuguesa actua como se Alberto Contador e os seus adversários estivessem num duelo do século XIX. É certo que ainda era a primeira vez que Contador disputava uma vitória tão importante, mas como já era “o melhor amigo de Paulinho”, torcer por Contador era quase uma obrigação, como se de um português se tratasse. Evans, claro, era o mau da história.

O sentimento contra Evans sentido em Espanha aumentou em 2008, quando este foi para o contra-relógio final na esperança de “roubar” a camisola amarela a… Carlos Sastre. Mais uma vez, Evans estava frente-a-frente com um espanhol e, mais uma vez, perdeu. Para piorar a imagem de Evans, a sua equipa Lotto, de tanta confiança que tinha na vitória do aussie, alugou uma discoteca em Paris e limusinas para os seus ciclistas e restante equipa técnica. O tiro saiu ao lado, já que Sastre apenas perdeu 29 segundos e segurou a liderança por mais de um minuto (no último dia, a diferença baixaria para 58s).

Os rumores sobre o seu mau feitio também não favoreciam a sua imagem e pior ficou esta quando, durante esse mesmo Tour, um jornalista lhe tocou no ombro magoado e Evans reagiu da forma que o vídeo seguinte.


2009 foi um ano de mudança de atitude para Evans. Segundo no Dauphiné Libéré de 2007 e 2008 (que então ainda tinha “Libéré” no nome), em 2009 foi vítima de uma aliança entre Alberto Contador e Alejandro Valverde. Contador (que no ano anterior tinha vencido Giro e Vuelta e já era considerado o maior voltista do mundo) estava longe da sua melhor forma e sem capacidade para ganhar a prova. Então decidiu ajudar Valverde, como se fossem colegas de equipa, Evans atacou constantemente, como nunca antes tinha feito, mas Contador fechava sempre o espaço para Valverde. Não atacava. Limitava-se a fechar o espaço que o australiano abria para o murciano. Estava em excelente forma em Junho e quebrou na última semana de Tour, terminando no 30º lugar (29º com a desclassificação de Astarloza), a 45 minutos de Contador.

Evans continuava com a mesma ambição, a mesma vontade de ganhar, e agora já tinha demonstrado que também ele era capaz de atacar. Decidiu ir à Vuelta, onde foi terceiro, vítima de um furo que o retirou da luta pela vitória. A 27 de Setembro, em Mendrisio (Suíça) teve aquele que foi o melhor momento da sua carreira até ontem, tornando-se campeão mundial de estrada, isolado.

Todos sabiam que se queixava da falta de ajuda na alta montanha do Tour e por isso a Lotto recrutou Popovych em 2008. Mas o ucraniano nunca mais foi o mesmo desde a Primavera de 2008, quando o seu compatriota, colega de Discovery Channel e Lotto e amigo Volodymyr Bileka foi suspenso por doping. Até ganhou uns quilos, como mostra esta fotografia. Em 2010 Evans teria uma melhor equipa para o ajudar, com Francis De Greef, Daniel Moreno e principalmente Jurgen Van Den Broeck, mas o título de campeão mundial aumentou a lista de interessados em Evans e o australiano decidiu pagar a cláusula de rescisão de um milhão de euros e rumar à BMC (que muito provavelmente pagou a cláusula de rescisão), onde teria menos apoio nas etapas de montanha mas um contrato mais vantajoso.

Em 2010, mudou o seu calendário. Começou na sua Austrália natal (ainda que no Sul), no Tour Down Under onde foi 6º, estreou-se no Tirreno-Adriático (3º), esteve no Critérium Internacional (6º) e em Abril atacou um dos quatro objectivos da temporada (número excessivamente grande para o que é habitual): as clássicas das Ardenas. A Flèche Wallonne e a Liège-Bastogne-Liège foram um objectivo para Evans em 2005, quando chegou à belga Lotto, voltaram-no a ser em 2008, 2009 e 2010, ano em que conseguiu a primeira vitória numa delas, na FW, à frente de Joaquin Rodríguez e Alberto Contador. Com 33 anos, cada vez havia menos tempo para Evans vencer uma grande volta e por isso decidiu ir ao Giro de 2010. De lá saiu com uma vitória em etapa mas adiado o seu sonho de vencer uma prova de três semanas, ficando-se pelo quinto lugar. No Tour, chegou a vestir a camisola amarela depois da primeira chegada em alto, mas na seguinte dificuldade perdeu a liderança devido à fractura de cotovelo que o afectava. Perdida mais uma oportunidade de vencer uma grande volta, no final dessa etapa, à porta do autocarro da equipa, as lágrimas correram-lhe nos olhos (vídeo seguinte). Nesse Tour deixou de ser o inimigo de Contador, o inimigo dos espanhóis e o inimigo de Paulo Martins na Eurosport Portuguesa. Andy Schleck, segundo em 2009 e 2010 atrás de Contador, ficou com o papel de vilão que pertencia a Evans. Por isso, ainda este Tour mal tinha começado, já se dizia na Eurosport que o mais novo dos Schleck não ficaria no pódio, mais tiro no pé dado dentro daquela cabine. Por isso, a vitória de Evans foi “um mal menor”. O ciclismo é um desporto diferente. Não é como no futebol, em que dois rivais se encontram, um sai vencedor, outro sai derrotado e os adeptos de ambos trocam acusações durante todo o ano. Os verdadeiros amantes do ciclismo, não querem ultras. Os verdadeiros amantes do ciclismo, não torcem contra ninguém, mas sim a favor dos seus favoritos. Fanatismos como os do futebol, dispensam-se.


O último objectivo de 2010 para Evans passava pelo Campeonato Mundial, por ser ele o campeão em título e por ser na sua Austrália, mas o percurso não era o ideal para as suas características e ficou-se pelo 17º posto, no grupo da frente.

Este ano, decidiu saltar o Giro e focar-se no Tour, já que a presença de Alberto Contador não era certa. A começar o ano, venceu o Tirreno-Adriático mas não pôde estar nas Clássicas das Ardenas por lesão. Esteve então na Volta à Romandia, em que venceu, e no Critérium do Dauphiné, onde foi segundo. Este Tour foi o primeiro que correu sem Aldo Sassi, o seu preparador físico de sempre que faleceu no final de 2010, após uma longa batalha contra um cancro no cérebro.

Sobre a vitória nesta Volta a França, já disse quase tudo o que havia para dizer. Entrou a todo o gás e terminou ainda mais forte, no melhor momento da sua carreira. Não teve a melhor equipa do mundo, mas foi o mais inteligente. Se olharmos para os irmãos Schleck, existem vários erros a apontar. Ficamos com a ideia de que poderiam ter atacado em Plateau de Beille para abrir vantagem para Contador e Andy perdeu muito tempo a descer para Gap. Evans não cometeu erros. Na etapa com chegada ao Galibier, a sua equipa deveria ter reduzido a vantagem de Andy Schleck mais cedo, mas depois Evans compensou e minimizou as perdas. Continua com uma postura pouco elegante sobre a bicicleta mas, em todos os outros aspectos, melhorou bastante desde 2007 e já tem o seu nome na lista de vencedores do Tour de France. No final da etapa de ontem, dedicou a vitória a Aldo Sassi, que acreditou nele desde 2001 e já cá não está para ver o êxito do seu pupilo. Não deixa de ser curioso que Evans, incapaz de vencer enquanto Sassi o acompanhou, o consiga agora, mas isso é o que menos importa.

*****
Em Paris, não houve surpresas. Cavendish venceu pelo terceiro ano consecutivo e já leva 20 vitórias em quatro anos. Mais uma vez, não foi o mais rápido, mas a sua equipa deixou-o em excelente posição e André Greipel (o mais rápido nos metros finais) não conseguiu ultrapassa-lo antes da meta. Com isto, já é o sexto com mais vitórias de etapa na história da prova, a duas de Lance Armstrong e André Darrigade, cinco de André Leducq, 8 de Bernhard Hinault e 14 de Eddy Merck. Chegará lá?

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