sábado, 14 de dezembro de 2013

Como Heras coloca em causa a credibilidade do Laboratório de Madrid

Roberto Heras reclama um milhão de euros de indemnização à Real Federação Espanhola de Ciclismo e ao Consejo Superior de Deportes, que é o equivalente ao Ministério do Desporto espanhol. E porque é o caso relevante? Porque coloca em causa a credibilidade do Laboratório de Madrid e da luta anti-doping, uma vez que de lá já saíram muitos positivos e não só de espanhóis. Também portugueses foram suspensos por amostras. analisadas em Madrid.

(ao assunto de Alejandro Marque logo iremos)

Roberto Heras marcou uma geração. No Tour não foi além do 5º lugar, mas na Vuelta obteve quatro vitórias (2000, 03, 04 e 05) e mais dois pódios, sendo a vitória de 2005 posteriormente retirada. Vivia-se o período de ouro da EPO e das transfusões. A Operação Puerto apenas surgiria em 2006 e as confissões da Telekom em 2007. A EPO já era suficientemente desenvolvida para o seu uso fazer efeito durante um bom período de tempo mas apenas era detetada se o controlo fosse realizado poucos dias depois do atleta fazer uso. Controlos fora de competição eram escassos e o passaporte biológico não existia. A deteção de EPO continua a ser evitada com relativa facilidade nos dias de hoje, mas naqueles tempos era bastante fácil abusar do seu uso durante os períodos fora de competição e moderar o uso durante a competição, combinando com corticoides e outras substâncias, como explicaria muito mais tarde Lance Armstrong.

Só era apanhado quem se descuidava. E o descuido poderia ser a utilização de uma dose superior ao indicado ou uma transfusão com sangue de outra pessoa, fosse por descuido ou por desespero. Tyler Hamilton e Santi Pérez tinham-se descuidado em 2004. Roberto Heras em 2005.

Hamilton fez um excelente Tour em 2003, sendo 4º na geral e vencendo uma etapa com a clavícula fraturada, foi para o Tour seguinte com enormes expetativas mas a prova correu mal. Para os Jogos Olímpicos fez uma transfusão com sangue de outra pessoa (por desespero ou por erro de Eufemiano Fuentes) e foi apanhado na sua vitória na prova de contrarrelógio. Porém, por um erro processual, não foi possível fazer contra-análise e como tal não lhe foi retirada a medalha de ouro. Semanas depois teria outro positivo por transfusão na Vuelta e anos mais tarde confessaria o uso generalizado de práticas proibidas, mas a medalha de ouro não foi retirada porque, sem contra-análise, não era possível confirmar o positivo dos Jogos Olímpicos. A amostra A continuava positiva, mas carecia de confirmação. Os resultados da Vuelta sim foram confirmados por contra-análise e foi suspenso dois anos.

Nessa Vuelta 2004 brilharia Santi Pérez, um bom trepador que se tornou excecional naquela Vuelta para vencer três etapas (incluindo um contrarrelógio) e ser segundo na geral. Também ele tinha feito transfusão homóloga (com sangue de outra pessoa) mas apenas seria apanhado depois da Vuelta, não lhe sendo anulados os resultados anteriores. Hamilton e Pérez não foram apanhados por ultrapassar a linha entre o legal e o ilegal mas por ultrapassar a linha entre o indetetável e o detetável. Repare-se os casos de Armstrong, Ullrich, Pantani, Riis, Jalabert e tantos outros que estavam para lá da linha da legalidade mas antes da linha do detetável, um espaço enorme onde havia espaço para muita gente. Heras saiu desse espaço na Vuelta 2005.

Em busca da sua quarta vitória na Vuelta (e terceira consecutiva), assumiu a liderança ainda na primeira semana mas esta foi tomada por Denis Menchov num contrarrelógio e o russo parecia indestrutível nas etapas de montanha que se seguiram. Havia um contrarrelógio no penúltimo dia onde Menchov levaria teórica vantagem (não confirmada na prática), pelo que a chegada a Pajares na 15ª etapa era a derradeira hipótese para o espanhol conquistar a Vuelta. Heras e os seus colegas Joseba Beloki, Vicioso, Giampaolo Caruso, Marcos Serrano e Scarponi dinamitaram a corrida e Heras ganhou mais de cinco minutos a Menchov. Mais tarde sairia a notícia do seu positivo por EPO. Heras tinha abusado da dose.

Olhando agora para trás, não restam dúvidas sobre a culpabilidade de Heras. Pela época em que correu, pelas equipas passadas (Kelme e US Postal), pela equipa que representava na altura (Liberty Seguros) e pela implicação na Operação Puerto. Aliás, terá sido Heras a pedir a Manolo Saiz para que a equipa voltasse a trabalhar com Fuentes e o seu postivo (juntamente às declarações de Manzano) terá sido um dos principais motivos para a Guardia Civil arrancar com aquilo que se tornaria a OP.

Heras cumpriu suspensão de dois anos e não mais voltou a ser profissional. Quando terminou a sua suspensão vivia-se um período crítico (sobretudo) pela Operação Puerto e não encontrou uma equipa que o aceitasse de volta. Em 2011 reclamou irregularidades no seu processo. Não é a primeira vez que desportistas estão nesta situação, mas Heras optou por não recorrer ao Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) mas sim a um tribunal civil. Isto é, não estava em causa se tinha ou não recorrido a doping. O que estava em causa era se o processo teria cumprido todas as normas. No final de 2012 o Tribunal Supremo de Justiça de Castilla e León declarou que não, anulando a decisão desportiva da sua suspensão. Com a decisão desportiva anulada, não há suspensão nem perda de resultados de Heras, fazendo com que este seja o vencedor da Vuelta 2005, mesmo tendo acusado positivo por EPO. Denis Menchov não tinha reclamado em 2005 e não reclamou em 2011 nem 2012 porque pertence à geração da lei do silêncio

E agora Heras reclama um indemnização de um milhão de euros pelos danos causados. E pode ser que ganhe algo porque, se o processo teve falhas, a suspensão de Heras não deveria ter acontecido e este reclama pelo dinheiro que perdeu nos anos que não correu.

Pelo laboratório de Madrid passaram muitas análises de desportistas portugueses e de equipas portuguesas. Há alguns meses, um português a cumprir suspensão apoiava-se no caso de Heras para questionar nas redes sociais um controlo positivo seu. Quando lhe questionei sobre o facto de, na altura, ter confessado o recurso a EPO respondeu-me que sim, que tinha usado e que tinha confessado, mas que não acreditava que o positivo fosse seu. Afinal, se sabe que outros faziam o mesmo e não foram apanhados, porque haveria de acreditar que ele tinha sido? Este é o espírito que se vive nos meandros. 

O caso de Heras vem mostrar que no ciclismo todos são inocentes. Mesmo que haja prova em contrário, mesmo que sejam julgados e condenados a contrário e, em parte, mesmo que haja confissão em contrário. Haverá sempre quem acredite na inocência. Sim, também já quis que Armstrong fosse inocente quando não o era. Mas persistir no erro é burrice.

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Alejandro Marque não é tema para já, porque por enquanto apenas há uma fuga de informação sacada pelo El Pais e a versão do ciclista, faltando o mais importante: a RFEC e a UCI. É por aí que vai passar a decisão. Em qualquer caso, muito poderá ser dito, mas não agora.

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O Carro Vassoura tem uma nova plataforma de comentários. A partir de agora é possível comentar utilizando a conta do Facebook ou do Twitter.

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Conta-nos o jornalista Teixeira Correia sobre o estado de saúde do também jornalista Manuel José Madeira. Não poderia deixar de contribuir, de partilhar a informação e de prestar uma pequena homenagem.

O Madeira foi o jornalista de ciclismo d'A Bola e editor até que, por motivos de saúde, deixou a profissão. Continuou contudo a escrever no Veloluso, um blog que deixou marca na comunicação do ciclismo português.

Conheci o Madeira antes da Volta ao Algarve 2007, numa conferência de imprensa do Alessandro Petacchi em que eu estava pelo site Algarve Desporto (entretanto desaparecido) e ele como amante da modalidade, então já de baixa médica. Eu tinha 16 anos de vida, ele tinha aproximadamente os mesmos como jornalista de ciclismo, nos quais acompanhou todas as provas nacionais e algumas estrangeiras como a Vuelta. Achou que eu deveria ter acreditação para a Volta ao Algarve, apresentou-me ao Rogério Teixeira e a partir daí sempre tive a porta aberta para todas as provas da Associação de Ciclismo do Algarve (o que também agradeço).

Apesar de afastado d'A Bola, no Veloluso deixou marca. Não digo que na informação, mas na comunicação. Não era (e não é) um espaço de notícias, mas sim de opinião e comentário. São nove anos de Veloluso, agora menos frequente mas com largos períodos em que escrevia mais do que uma vez por dia. Nunca teve medo de assumir as suas posições, fosse a favor de quem fosse, contra quem fosse. Teve muitos seguidores mas também criou conflitos com a federação e com a ADoP. Criou amizades e inimizades no pelotão. Esse é um risco de quem escreve o que pensa e não o que querem que escreva para agradar. Mas afinal, quem tem uma voz e a oportunidade de se fazer ouvir, deve aproveita-la para dizer o que lhe vai na alma ou o que outro alguém quer que diga?

Se não existisse o Veloluso, talvez não me tivesse interessado por gastar tanto tempo a refletir e escrever sobre ciclismo. Talvez não existisse Carro Vassoura.

Fica aqui um reconhecimento e agradecimento ao jornalista, comentador e opinador Manuel José Madeira.

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