quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

10 anos depois de Marco Pantani: parte II

Tour 1997: Richard Virenque e Marco Pantani
Devido ao acidente da Milano-Torino no final do ano anterior, 1996 foi um ano de recuperação para Marco Pantani e os poucos dias de competição disputados foram-no em provas menores.

Neste ano ganhavam força as suspeitas de que a EPO tinha chegado ao pelotão. No final da década de 80 a EPO sintética entrou no mercado farmacêutico e no início da década de 90 algumas equipas começaram a ter um desempenho suspeitosamente superior às suas adversárias. Um dos casos mais gritantes deu-se quando a Gewiss-Ballan arrasou a Flèche-Wallone 1994, preenchendo o pódio com Moreno Argentin, Giorgio FurlanEvgeni Berzin (video aqui). Mais tarde seriam publicados as incríveis variações de hematócrito dos ciclistas da Gewiss e descobrir-se-ia os métodos do seu médico, Michele Ferrari. Estava a iniciar-se a geração do "todos tomavam".

1996 marcou também um ano de mudança para Pantani. Depois de mais de dez anos de patrocínio, a Carrera deixava o ciclismo e os seus ciclistas separaram-se entre a Asics e a Mercatone Uno. Claudio Chiappucci e o diretor desportivo Davide Boifava foram para a recém-formada Asics, enquanto Marco Pantani seguiu para a Mercatone Uno com o seu diretor desportivo Giuseppe Martinelli (atualmente em funções na Astana). A Mercatone Uno já tinha tido equipa mas retirou-se no final de 1995. Durante 96 os seus proprietários colocaram a hipótese de regressar no ano seguinte sob uma condição: Marco Pantani tinha que ser o líder.

Foi na Mercatone Uno que Pantani viveu o pico da sua carreira (e depois o drama). Tinham passado três anos desde o pódio no Tour e o Giro não tinha corrido nada bem, sendo forçado a desistir por uma queda ainda na primeira semana. Mas o Pirata estava no caminho certo para regressar à sua melhor forma e foi terceiro na Volta a França de 97, vencendo duas etapas, uma delas novamente no Alpe d'Huez (video aqui). O público via um que Pantani voava nas montanhas, mas dificilmente imaginaria o que se passava nos bastidores, com Pantani mas também com os seus rivais Jan Ullrich, Bjarne Riis, Richard Virenque e muitos outros.
Tour 1997, chegada ao Alpe d'Huez: Marco Pantani a caminho da vitória
Com a confiança de novo em alta, sem dúvidas de que tinha ultrapassado a queda de Turim, no ano seguinte cumpriria dois grandes objetivos da sua carreira: Giro e Tour. O vencedor das duas edições anteriores da Vuelta Alex Zülle seria o principal dominador das duas primeiras semanas do Giro. Pantani tinha vencido na véspera, mas um contrarrelógio de 40 km favorecia Zülle, que já tinha vencido o prólogo, uma etapa de montanha e era líder. Nesse contrarrelógio dobrou Pantani, ganhou-lhe quase três minutos e meio e estava com quatro minutos de avanço sobre o italiano, ainda com Pavel Tonkov pelo meio. Pantani queixava-se que era um Giro pouco montanhoso, que as etapas mais duras já estavam ultrapassadas e que um Giro assim nunca seria para ele. No entanto, ainda estava para vir uma monumental quebra do seu rival helvético, Pantani ainda ganharia uma etapa, voaria no contrarrelógio do penúltimo dia e venceria aquele Giro d'Itália 1998. No crono anterior perdera dois minutos para Tonkov, mas naquele (34 km) foi terceiro, ganhando alguns segundos ao russo.

Devido ao Mundial de futebol (disputado em França), nesse ano o Tour começaria uma semana mais tarde, o que dava a Pantani mais tempo para preparar a prova francesa, a qual venceria. Mas o Tour 1998, mais do que de Pantani, seria o Tour do Caso Festina. E o Caso Festina envolveria mais do que a Festina.

A prova começaria em Dublin, na República da Irlanda. Três dias antes, na fronteira entre a Bélgica e a França, as autoridades encontraram uma autêntica farmácia numa carro da Festina. Hormona de crescimento, anfetaminas e muitos outros produtos viajavam naquele carro. EPO também, claro. A notícia apenas se tornaria pública três dias depois, no prólogo do Tour. Olhando hoje para trás, pode pensar-se que as equipas tomaram precauções, mas não foi o que aconteceu. O sentimento de impunidade era enorme no pelotão e ninguém previu o que estava para vir. Poucos dias depois, no segundo dia da prova em França, as autoridades fizeram uma rusga ao hotel da Festina. Depois de um dia de interrogatório, o médico da equipa e o diretor desportivo confessaram a dopagem organizada na equipa, que no dia seguinte seria excluída da prova. Assim saiam pela porta pequena, entre eles, Zülle, Laurent Dufaux (pódio nas duas Vueltas anteriores) e Richard Virenque (2º no ano anterior), este último em lágrimas.

Com este escândalo, as autoridades francesas "lembraram-se" que em março tinham encontrado uma farmácia móvel num veiculo da equipa TVM. O Caso Festina fez com que o Caso TVM, até então desconhecido do grande público, fosse reaberto. Nem com a expulsão da Festina a TVM se tinha "protegido" e no dia de descanso (que era apenas um) uma rusga encontrou produtos proibidos no hotel da formação holandesa. Os inquéritos continuaram durante dias e a meio da última semana houve uma nova rusga ao hotel da TVM, com os seus ciclistas a serem levados para recolha de amostras de sangue, o que causou enorme revolta no pelotão. Eram colegas de profissão, mas também de práticas, e nesse dia os ciclistas recusaram-se a competir. Não houve vencedor da etapa. Os ciclistas da TVM desistiriam dias depois. Laurent Jalabert foi um dos líderes dos protestos e a sua ONCE abandonou a prova, com a Banesto, a Kelme, a Vitalico Seguros e a italiana Riso Scotti.
Tour 1998: ciclistas em protesto contra as rusgas anti-doping
Quanto à competição desportiva, Pantani chegaria ao final da primeira semana com cinco minutos de atraso em relação a Jan Ullrich, que aos 24 anos já tinha vencido uma Volta a França e sido segundo noutra. Fruto de um prólogo e um contrarrelógio quase com sessenta quilómetros de extensão, o alemão estava na liderança.

Como de costume, Pantani assumiu um discurso de lamentações, queixando-se da falta de montanha. Venceu em Plateau de Beille e em Les Deux Alpes (vídeo aqui), onde rebentou a corrida. À partida para essa tirada estava a três minutos de Ullrich e, considerando que ainda faltava um crono, teria que ganhar seis a sete minutos, o que era impensável. Bom, impensável mas não impossível. Pantani aceitou o desafio, atacou no Galibier e ganhou nove minutos a Ullrich(!). No contrarrelógio final Ullrich venceu, Pantani (surpreendentemente) foi terceiro e vencia assim a Volta a França com mais de três minutos de avanço sobre Ullrich.

Trepava como ninguém. Parecia imbatível. Capaz de tudo. Subir ao pódio de Paris no início de agosto daquele ano seria o ponto mais alto da sua carreira.
Tour 1998: Jan Ullrich, Marco Pantani (vencedor) e Bobby Julich


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