domingo, 13 de abril de 2014

Os grandes campeões só correm para vencer

Foi um Paris-Roubaix de equilíbrio, sem grandes azares, com grandes prestações individuais e uma vitória para a melhor equipa, uma Omega Pharma-Quick Step muito azarado há um ano, apagada há uma semana e hoje vitoriosa. Tom Boonen não chegou ao penta mas foi o rosto da beleza das clássicas e Niki Terpstra o rosto da consistência e da eficácia.

A comunicação social tem um papel fundamental na construção ou na não-construção de heróis e ao longo dos últimos anos Tom Boonen sempre foi o patinho feio menosprezado e pisado pelos dois portugueses que comentam as grandes provas World Tour e até há pouco tempo eram as únicas vozes que o faziam (com exceção do Tour, onde sempre tiveram concorrência). Talvez por isso muitos portugueses nunca se deram conta de que Tom Boonen é o mais vitorioso ciclista de sempre sobre pavés e um dos melhores da última década, como Bettini, Freire, Cancellara ou Contador, ciclistas que alcançaram feitos extraordinários, não apenas de um ponto de vista atual, mas de um ponto de vista histórico. Jogam na mesma liga de Merckx, Binda, Coppi, Hinault ou De Vlaeminck, a liga dos intemporais.

Mas o ataque de Tom Boonen a mais se sessenta quilómetros da meta (mais de 60 km!) não é apenas uma questão de capacidade, é também uma questão mentalidade. Já aqui foi escrito várias vezes, Boonen nunca corre para ser segundo ou terceiro, porque os grandes campeões só correm para vencer. Mostra disso foi em 2010, quando Cancellara já estava a uma distância irrecuperável e lá atrás todos entraram em modo de poupança para o segundo lugar. Boonen foi o único que continuou a dar aos pedais para tentar vencer.

Mas hoje (como em 2010) Boonen teve o azar de estar mal acompanhado. Sobretudo Geraint Thomas. Thomas estava diante da melhor oportunidade da sua carreira de chegar ao pódio de Roubaix mas a Sky tinha como grande aposta Bradley Wiggins. A equipa britânica assumiu o comando do pelotão ainda antes de Arenberg com Thomas na frente e tanto este como Hagen deixaram sempre bem evidente que estavam a correr para o ex-vencedor do Tour. Wiggins, 9º no final, foi a grande surpresa da prova mas mesmo assim a decisão da Sky mostrou-se errada, com o líder a terminar dois lugares atrás de Thomas, que até aos últimos quilómetros correu como gregário.

Com a Omega Pharma, a BMC e a Belkin tão bem constituídas, Fabian Cancellara não ousou atacar. E se a floresta de Arenberg foi pouco ou nada seletiva, o setor de Mons-en-Pévèle não foi diferente.

Enquanto o grupo de Boonen seguia na frente com uma distância que mantinha tudo em aberto, em Pont-Thibaut à Ennevelin, a 40 quilómetros da meta, Sep Vanmarcke iniciou a série de ataques que acabaria por resultar na grande seleção de uma corrida pouco selecionada. Vanmarcke e Fabian Cancellara mostraram ser os mais fortes sobre o pavé, mas não o suficiente por se livrarem de Degenkolb, Stybar ou Lars Boom. Entre esticões, a corrida continuava com muita gente a poder aspirar aos primeiros lugares, talvez porque os furos, quedas e problemas mecânicos não assumiram grande importância. Boonen, Démare, Degenkolb, Sagan, Pozzato e Wiggins, entre outros, sofreram contratempos mas reentraram sempre sem problemas de maior e as únicas grandes vítimas foram Alexander Kristoff, que caiu e abandonou, e Greg Van Avermaet, que caiu quando a corrida se estava a lançar e ficou de fora do corte decisivo. Uma pena para uma BMC que tinha estado irrepreensível, fosse para o belga, para Taylor Phinney ou até para Thor Hushovd, muito ativo hoje.

Depois de desiludir em Sanremo e na Volta a Flandres, Peter Sagan foi outro que mostrou o que é correr para ganhar. Depois de vários problemas, eslovaco atacou a cerca de 35 quilómetros da meta.

Sagan chegou à ribalta muito jovem e muitas vezes faltou a maturidade que falta a todos nós, jovens. Mas Sagan tem mostrando uma evolução brutal do ponto de vista tático e, confiando na sua capacidade de rolador (poucas vezes falada), tentou antecipar-se a uma nova ronda de ataques de Cancellara e Vanmarcke. Percebendo que havia gente mais forte sobre as pedras, Sagan tinha que tentar algo diferente. E muitas vezes o Paris-Roubaix é vencido com um ataque entre setores.

As acelerações de Cancellara e Vanmarcke voltaram no setor de Camphin-en-Pévèle, anulando o grupo de Boonen, mas pela frente ainda resistia Peter Sagan. Foi já depois do Carrefour de l'Arbre (último setor de cinco estrelas) que se juntaram a Cancellara, Vanmarcke, Stybar e Degenkolb, um poderoso sprinter que, consciente da sua excelente oportunidade de lutar pela vitória, dava relevos sem medo, para manter a distância face ao sexteto que vinha pouco depois. Stybar era o único que não trabalhava, esperando por Boonen e Terpstra, que permitiriam à Omega Pharma fazer um jogo coletivo.

Acabariam por se juntar à cabeça de corrida Thomas, um surpreendente Wiggins, o também surpreendente Bert De Backer, Langeveld e os dois Quick Steps. Se na Volta a Flandres tinham tido quantidade mas não capacidade para lutar pelo pódio, agora sem inclinações que os derrotassem, Stybar e Terpstra tinham que jogar as suas hipóteses, pois Boonen tinha perdido demasiada energia com o seu corajoso ataque a 60 quilómetros da meta. Só acontece a quem arrisca mas nestas provas também só quem arrisca pode vencer.

Eram onze ciclistas na frente e é necessário recuar até 1963 para encontrar um grupo tão numeroso a disputar a vitória. Com um grupo tão grande e já sem pavés (a sério) pela frente, Cancellara estava derrotado, Degenkolb e Sagan esperavam pelo sprint e Niki Terpstra atacou. O holandês, quinto há dois anos, terceiro no ano passado, atacou para aquela que é a sua maior vitória da carreira até ao momento. E apesar de só cumprir 30 anos em maio, dificilmente alcançará uma vitória mais importante que esta, o ponto máximo que um classicomano como ele pode almejar. O último holandês a vencer o Paris-Roubaix tinha sido Servais Knaven em 2001, colega de Terpstra em 2009 e 2010 na Team Milram.

Poucos segundos atrás de Terpstra, De Backer e Thomas trabalhavam para os seus líderes. De Backer tinha consigo um enorme John Degenkolb que tinha vencido a Gent-Wevelgem e hoje foi segundo. Mais do que um sprinter, um classicomano que aos 25 anos também já venceu o Paris-Tours e a Vattenfall Cyclassics.

Fabian Cancellara foi terceiro, o décimo segundo pódio nos últimos doze monumentos terminados. Mas as declarações finais de Cancellara não enganavam, quando o suíço dizia que era bonito a marca dos doze pódios consecutivos mas não pode estar satisfeito porque entrou na prova para vencer e saiu apenas com o terceiro lugar. Os grandes campeões só correm para vencer.
E esta foi uma corrida de grandes campeões. Uns consagrados, como Boonen e Cancellara. Outros que estão a começar a construir uma enorme carreira, como Sagan e Degenkolb. E pelo meio venceu quem fez soube usar as suas armas. Um homem que passa bem os pavés, que é um grande rolador e que está numa excelente equipa. Hoje foi Terpstra quem mandou no Inferno!

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