quinta-feira, 10 de abril de 2014

Paris-Roubaix: antevisão

Cancellara bateu Vanmarcke.Langeveld, Flecha e Stybar, com uma volta ainda por dar, lutavam pelo 6º lugar
Como explicar a alguém que não acompanha ciclismo que uma das provas mais planas da temporada é também uma das mais espetaculares, contrariado a ideia de que tudo se passa na montanha? Talvez o melhor seja ver o Paris-Roubaix no próximo domingo.

Percurso

Começou no dia 1 de Março com o Omloop, seguiram-se a Através de Flandres, o E3, a Gent-Wevelgem, na semana passada a Volta a Flandres e agora os ciclistas passam a fronteira para terminarem em França a época dos pavés, a fase da temporada mais acarinhada neste modesto canto da internet.

São 257 quilómetros de extensão entre Compiègne e Roubaix, dos quais 51,1 em terreno empedrado. São 28 os setores de pavé, ordenados por ordem decrescente. Os ciclistas encontram o setor 28 aos 97,5 quilómetros e o setor 1 já dentro de Roubaix, cidade de 95 mil habitantes na fronteira com a Bélgica, o que motiva uma invasão de belgas. Por ser um marco sagrado no calendário ciclista, o Paris-Roubaix recebe gente de todo o lado, mas a maior comunidade estrangeira é proveniente de Flandres, onde a Volta a Flandres obteve um share médio de 72,6% e um máximo de 85,7%, algo impensável para qualquer programa da televisão portuguesa, mesmo para uma novela ou um jogo de bola.

Os setores de pavé estão classificados entre uma e cinco estrelas, sendo uma estrela os mais fáceis e cinco estrelas os mais difíceis. Esta classificação é feita com base na extensão do setor mas também na dureza do empedrado.

É frequente os ciclistas passarem por entradas de calçada em muitas provas pelo globo e no caso de Portugal mais no Norte do que no Sul. Porém, a calçada que o pelotão encontra em Portugal, Espanha, Itália e em todas as restantes provas são estradas construídas por calceteiros que procuraram organizar a calçada com a maior perfeição possível, pensando nos tráfego automóvel (naturalmente da época em que foram construídos ou sofreram a última renovação).

No caso do Paris-Roubaix e das provas de Flandres, o empedrado que os ciclistas enfrentam são caminhos rurais, com pedras de muito maior dimensão, mais irregulares e com maior espaço entre elas. Muitos dos setores têm sofrido obras ao longo do tempo, mas essas reparações são feitas a pensar sobretudo nestas provas ("sagradas") e não no tráfego automóvel, escasso nestes caminhos - mais uma vez - rurais. A foto que se segue ilustra bem o tipo de empedrado de um setor de cinco estrelas, no caso, a floresta de Arenberg.


Ao todo, será um setor de uma estrela (o último), oito de duas, nove de três, sete de quatro estrelas e três de categoria máxima: Arenberg (a 95 km da meta), Mons-en-Pévèle (49km) e Carrefour de l'Arbre (17km). 



Diferença entre Flandres e Roubaix

A Volta a Flandres tem três fontes principais de dificuldade: a larga distância, o empedrado e a inclinação dos muros, por vezes em torno dos 20%. Já no Paris-Roubaix as três principais fontes de dificuldade para os ciclistas são a larga distância, o empedrado e os ritmos altíssimos que alguns ciclistas conseguem impor no empedrado. São corridas muito diferentes e temos os casos dos italianos Gianni Bugno ou Michele Bartoli que venceram a Volta a Flandres sem nunca chegarem perto em Roubaix. Ou Servais Knaven e Magnus Bäckstedt como casos opostos.

Se preferirmos casos da atualidade, talvez Philippe Gilbert e Thor Hushovd sejam os melhores exemplos. Gilbert tem dois terceiros lugares na Ronde e apenas ousou ir uma ver ao Paris-Roubaix (52º) e Hushovd tem dois pódios em Roubaix mas apenas por uma vez ficou nos 20 primeiros na Ronde (em mais de dez participações). A leveza que foi uma vantagem para alguns no domingo passado será uma desvantagem na prova que aí vem. Para outros, os mais pesados, aplica-se o contrário.

Não podemos também ignorar que na Ronde são "apenas" 18,4 km quilómetros de pavé e no Inferno do Norte são 51, quase o triplo. Isto significa que, se na Ronde a estrada estreita e o nervosismo foram as maiores causas de furos e acidentes, no próximo domingo há que contar com o risco associado à enorme distância que os corredores terão que ultrapassar neste piso.

Por isso mesmo, todas as equipas destacam um plantel mais numeroso para o Paris-Roubaix. Não no que toca ao ciclistas, mas no que respeita a pessoal de apoio. Sobretudo as equipas com grandes aspirações como Omega Pharma, Trek, Belkin, BMC ou Sky têm todo o pessoal disponível espalhado ao longo do percurso, em locais estratégicos, de roda no ar para o caso de um ciclista seu precisar. A Movistar correrá no domingo a Klasika Primavera, mas para todas as outras apenas existe o Paris-Roubaix.

Favoritos

Sep Vanmarcke foi o único capaz de aguentar Fabian Cancellara na última edição do Paris-Roubaix (inclusive puxando mais do que o suíço nos quilómetros finais) e saindo derrota apenas no sprint. Já este ano, nas quatro principais clássicas de pavé (Omloop, E3, Gent-Wevelgem e Ronde) o seu pior resultado foi um quinto lugar, o que demonstra bem o nível altíssimo a que tem estado o belga. E mais uma vez, na Ronde da semana passada, foi o único capaz de aguentar os ataques de Cancellara, atacando mesmo no último muro e terminando terceiro. Porque não há melhores indicadores para uma edição do Paris-Roubaix do que a edição anterior e a Volta a Flandres da semana passada, Sep Vanmarck é um dos grandes candidatos à conquista do Inferno do Norte.


Mas precisamente porque não há melhor indicador que estes dois, o favorito número 1 para domingo é - sem surpresa e de forma consensual - Fabian Cancellara, vencedor no ano passado, em 2010 e 2006, agora em busca do tetra que o igualaria com Tom Boonen e Roger De Vlaeminck. A dúvida será, uma vez mais, saber como Cancellara consegue lidar com este superfavoritismo. Fisicamente está fortíssimo, taticamente ninguém melhor do que ele, mas se todos os leões se juntam, ser o melhor dos gladiadores poderá não ser suficiente.



Outro que sai para Roubaix com grandes expectativas é Greg Van Avermaet, o quarto do ano passado e que fez uma enorme Volta a Flandres. Se em vez de Vandenbergh tivesse estado acompanhado por alguém que colaborasse, dificilmente Cancellara e Vanmarcke o teriam apanhado e o homem da BMC poderia ter saído vencedor.


E, surpresa para alguns mas não tanto para outros, Alexander Kristoff. O vencedor da Milano-Sanremo é um dos ciclistas que, em teoria, se dará melhor na planície que leva os ciclistas a Roubaix (9º em 2013) do que nos muros. E se em Flandres conseguiu aguentar as dificuldades e ainda atacar na parte final para ser quinto, em Roubaix pode aspirar a qualquer lugar do pódio, tendo o seu compatriota Thor Hushovd conseguido dois deles, mas nunca o mais alto.

O quarteto da Omega Pharma-Quick Step esteve fora da discussão da Volta a Flandres, mas volta a ser fator importante para as contas no próximo domingo. Bom, Stijn Vandenbegh até foi quarto e na última edição de Roubaix foi um dos mais resistentes, mas o gigante de quase dois metros tem uma (falta de) ponta final que o deixa em desvantagem para qualquer sprint.

Tom Boonen, um dos homens com mais calhaus legítimos ("apenas uma pessoa tem direito a levar uma pedra para casa: o vencedor"), tem estado bem durante toda a campanha de clássicas, mas ainda não deu nenhuma mostra de estar numa forma extraordinária, como deram os quatro primeiros citados. Porém, sem inclinação, talvez Boonen tenha o suficiente para aguentar as investidas adversárias. Niki Terpstra, quinto em 2012 e terceiro em 2013, atacou para o sexto lugar na semana passada e, sem ser o mais forte, é um dos candidatos a (novo) pódio. Já Zdenek Stybar tem sido o mais apagado dos quatro mas também não tinha nenhum resultado de relevo no ano passado e apenas um incidente com um adepto no Carrefour de l'Arbre o retirou da roda de Cancellara e Vanmarcke, quando o checo era o principal candidato à vitória no presumível sprint a três.

Para finalizar, alguns homens que nunca estiveram na discussão no Paris-Roubaix mas pelas suas características poderão ambicionar a tal. É o caso do bicampeão de Roubaix sub-23 Taylor Phinney, os homens rápidos John Degenkolb e Arnaud Démare, um Peter Sagan que surge aqui depois de desiludir nos dois monumentos prévios (onde já tinha sido 2º e teoricamente são os que melhor lhe assentam) e os Sky Geraint Thomas e Edvald Boasson Hagen com a sua particular tendência para se destacarem nas provas que aparecem nos resumos da temporada como o Omloop ou o E3 mas falharem nas provas que ficam para a história do ciclismo.

***** Cancellara
**** Vanmarcke, Van Avermaet e Kristoff
*** Boonen, Terpstra e Stybar
** Degenkolb, Thomas, Hagen, Sagan, Vandenbergh, Démare e Phinney

Chave-da-corrida

Uma vez mais, Fabian Cancellara e tudo o que gira em seu redor.

Devido às várias quedas, Cancellara foi forçado a encarar grande parte da Volta a Flandres sem colegas e mesmo assim venceu. Porém, atacar com 5 ou 6% de inclinação é muito diferente de atacar em plano. Num setor plano, sendo a velocidade maior, o efeito de túnel de ar protege quem vai na roda permite uma maior poupança do que quando a velocidade é menor.

Apesar da última vitória de Cancellara desamparado, convém recordar a primavera de 2011, em que os adversários se dedicaram quase em exclusivo em seguir a sua roda, esquecendo-se que havia gente para além do suíço. Em Roubaix, mesmo sendo o mais forte em prova, Cancellara nunca conseguiu descolar o então campeão do mundo Thor Hushovd, que tentava assim proteger o seu companheiro Johan Vansummerem, que viria a ganhar a prova. Cancellara apenas conseguiu soltar-se de Hushovd e companhia a menos de quatro quilómetros da meta, no alcatrão, conseguindo surpreender no milésimo ataque. Já era tarde para chegar à dianteira.

E os furos, os problemas mecânicos, as quedas e todos esses incidentes que fazem parte da história do Paris-Roubaix.

Transmissão

A transmissão do Paris-Roubaix começará no Eurosport às 12h15 e por volta do meio dia na TVI24 (falta confirmar a hora certa). O primeiro setor está previsto para o meio dia, Arenberg para a 13h40 13h15, Mons-en-Pévèle às 14h53 14h22 e Carrefour de l'Arbre 15h43 15h07. O final será às 16h11 15h32, tudo isto, de acordo com a melhor previsão horária.

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