domingo, 6 de abril de 2014

Spartacus van Vlaanderen III

Faltam as palavras para descrever o que Fabian Cancellara tem feito. Não é vencer um Paris-Roubaix, vencer uma Volta a Flandres ou vencer ambas no mesmo ano. É estar sempre lá, anos e anos a fio, a derrotar os seus adversários. E hoje, para sair vencedor da arena, Spartacus teve que derrotar três Leões de enorme poderio físico e cheios de fome de vencer.

Talvez parte do sucesso passe por aí. Talvez, não. Uma grande parte do sucesso de Cancellara passa mesmo pelo facto de poder acalmar a sua fome. Todos ali querem ganhar, todos sonham com aquela vitória desde crianças quando viam Museeuw ou Van Petegem voar sobre os pavés, e Cancellara também. Mas tendo ganho tudo o que já ganhou, Cancellara goza de uma calma que falta aos seus adversários. Por isso, quando olhamos para as últimas edições da Volta a Flandres, do Paris-Roubaix ou até mesmo da Milano-Sanremo, vemos que o suíço não cometeu erros. É fácil falar sentado no sofá ou no banco do carro, mas tomar as decisões certas in situ, com o cansaço acumulado de seis horas de corrida e o pulso perto do máximo... aí é diferente. É preciso uma frieza e uma inteligência que acompanhe a qualidade das penas.

E talvez Cancellara nem tenha sido o mais forte fisicamente hoje.

Greg Van Avermaet fez uma corrida fabulosa. O belga da BMC já merecia vencer uma clássica de pavé pela regularidade que tem tido. A vitória no Paris-Tours de 2011 é pouco para quem tem estado sempre na frente, seja na Bélgica, França ou no Canadá.

Hoje GVA furou numa altura crítica, recolou e atacou antes do Taainberg, a 38 quilómetros da meta. Desse ataque resultou uma enorme seleção no grupo principal, que viria a permitir que saltasse novamente, apenas com Stijn Vandenbergh.

A Omega Pharma-Quick Step tem quatro excelentes ciclistas sobre o pavé. Dois deles são rápidos (Boonen e Stybar) e outro é rapidito (Terpstra), mas estavam lá atrás no grupo de Peter Sagan e Fabian Cancellara, que viu a sua equipa muito afetada pelas inúmeras quedas que marcaram a corrida pela negativa. Mas para azar da Omega Pharma, o homem que seguia na roda de Van Avermaet era o seu ciclista mais lento, um daqueles corredores que num sprint a dois é capaz de terminar terceiro. Por isso, o diretor desportivo Wilfried Peeters deu-lhe ordens para que não colaborasse.

Vandenbergh poderia ter colaborado e assim garantir, pelo menos, um lugar no pódio, mas ia demasiado justo e sem confiança para enfrentar as duas últimas dificuldades. Permaneceu na roda de um Van Avermaet inesgotável, protagonizando esta que será seguramente uma das mais impressionantes performances de 2014.

Com tantos homens da Omega Pharma na frente, Cancellara não se atreveu a atacar no Koppenberg. E posto isso, era sabido que o faria no Oude Kwaremont, penúltima dificuldade do dia. Sep Vanmarcke, com o seu magríssimo metro e noventa mas cheio de talento, foi o único que aguentou Fabian Cancellara e inclusive atacou no Paterbeg. Que ousadia!

Vanmarcke ousou atacar Cancellara no mesmo sítio onde o suíço destruiu Sagan no ano passado. Sem medo. E para atacar Cancellara naquele sítio é preciso uma enorme classe. Vanmarcke tem essa classe e ousadia que faz os grandes ciclistas e os grandes heróis das clássicas e já o tinha demonstrado no ano passado em França.

Cancellara e Vanmarcke, os mesmos dois que disputaram a vitória no Paris-Roubaix do ano passado, chegaram a Vandenbergh e depois a Van Avermaet, que deverá ter tido um déjù vu do Omloop Het Nieuwsblad perdido no primeiro dia de março para Ian Stannard. Mas no Omloop foi Stannard quem assumiu os maiores esforços e ganhou. Aqui Van Avermaet assumiu as despesas mas sem recompensa final.

Entre os quatro apenas havia uma certeza: Vandenbergh era o mais lento. Cancellara, Vanmarcke e Van Avermaet tinham legítimas aspirações à vitória, mas para isso não podiam cometer erros. Cancellara entrou no último quilómetro na frente mas sabia que ainda tinha uma oportunidade para passar para a cauda do grupo. Tinha que esperar que Vandenbergh atacasse (e este tinha que o fazer) e deixar que os outros belgas respondem primeiro. Foi o que aconteceu.

Cancellara aguentou, aguentou, e a 200 metros da meta arrancou para a vitória, seguindo de Van Avermaet e Vanmarcke. Talvez não tenha sido o mais forte, Van Avermaet e Vanmarcke também mereciam a vitória, mas venceu aquele que foi taticamente perfeito, mesmo num dia em que a sua equipa foi tão afetada pelas quedas.

Com isto, Cancellara iguala Achiel Buysse, Fiorenzo Magni, Eric Leman, Johan Museeuw e Tom Boonen com três triunfos na Ronde. Dentro de um ano, estará frente a frente com Boonen com o tetra em vista, mas antes disso, já no próximo domingo, tentará igualar o Tornado Tom e De Vlaeminck com quatro calhaus de Roubaix.

Falamos de momentos de história do ciclismo. Porque Fabian Cancellara é indiscutivelmente um dos melhores da história do ciclismo. E nós temos a oportunidade de assistir a estes momentos!

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