quarta-feira, 25 de junho de 2014

Recordar o Tour: 2007, uma nova estrela

Viajamos a 2007 para mais um capítulo da série Recordar o Tour. E se a edição anterior tinha visto o seu começo afetado pela Operação Puerto, a de 2007 iniciava-se sem ser conhecido o detentor do título, uma vez que o caso de Floyd Landis ainda aguardava decisão final. Oscar Pereiro correu por isso com o dorsal 11, ficando o 1 por atribuir.

Era mais uma edição que favorecia os contrarrelogistas, com 117 quilómetros a percorrer entre prólogo e dois contrarrelógios, contra três chegadas em alto.

Apesar do segundo lugar (posteriormente tornado em primeiro) de Oscar Pereiro no ano anterior, o espanhol estava longe de ser um dos principais candidatos à vitória, fruto duma época até ao momento apagada. O chefe-de-fila da Caisse d’Epargne era mesmo Alejandro Valverde, segundo na Vuelta do ano anterior e que vinha, ele sim, a realizar uma temporada de excelência, não deixando qualquer dúvida sobre a sua qualidade.

Mas o principal favorito era Alexander Vinokourov (Astana), o homem que tinha batido Valverde na Vuelta e contava com o apoio duma equipa fantástica, a começar por Andreas Klöden, o Plano B dos cazaques, mas também Andrey Kashechkin, 3º na Vuelta 2006.

Ivan Basso tinha deixando a CSC e a equipa dinamarquesa seria liderada por Carlos Sastre, quarto no Tour anterior (antes da desclassificação de Landis) e na Vuelta. Mas Basso também não poderia liderar a Discovey Channel, para onde se tinha mudado, uma vez que estava suspenso em consequência da Operação Puerto. A equipa norte-americana apostava em Levi Leipheimer e Alberto Contador, que aos 24 anos tinha vencido Paris-Nice.

Cadel Evans e Denis Menchov eram outros dois grandes candidatos ao triunfo e num nível mais baixo mas podendo aspirar a uma boa classificação estava o veterano vencedor do Dauphiné Christope Moreau e o vencedor da Volta à Catalunha e da Volta à Suíça, Vladimir Karpets.

Os feitos heróicos acontecem sobretudo nas montanhas, mas desta feita o primeiro aconteceu logo na primeira etapa em linha, ainda no Reino Unido, onde teve lugar o arranque da prova. Robbie McEwen, vencedor da classificação por pontos em 2002, 2004 e 2006, caiu a 20 quilómetros da meta. Os seus colegas de Predictor-Lotto esperaram por ele e fizeram tudo o que estava ao seu alcance para o levarem de volta ao pelotão, o que conseguiram a cerca de seis quilómetros da chegada. Com várias equipas a preparar o sprint, a partir daí McEwen teve que recuperar a sua posição por conta própria. A Milram e a Quick Step lançaram o sprint para Zabel e Boonen, mas foi o australiano McEwen que veio do nada para uma vitória espetacular.

Ao quarto dia de prova foi Fabian Cancellara o herói, conseguindo uma das mais impressionantes vitórias da sua carreira. Tinha vencido o prólogo e estava de camisola amarela, com a CSC a defender diariamente a sua liderança. A terceira etapa tinha 236 quilómetros de extensão, finalmente com os ciclistas a chegarem a França depois de percorrerem estradas inglesas e belgas. Várias equipas com sprinters como a Quick Step de Boonen, a Predictor de McEwen ou a Lampre de Napolitano trabalharam para anular uma fuga de quatro homens, mas não estava nada fácil. A 1200 metros da meta ainda tinham 13 segundos de vantagem e aí deu-se a surpresa. Havia um pequeno troço de pavé, 300m, o suficiente para Cancellara se adiantar a todo o pelotão. A partir daí, eram os fugitivos a tentar aguentar a cada vez mais magra vantagem, Cancellara a tentar chegar à frente e os sprinters completamente desorganizados a tentar apanhar o comboio suíço. Vitória de Spartacus.
Vitória espetacular de Fabian Cancellara diante dos sprinters
Michael Rasmussen tinha vencido etapas e a classificação da montanha em 2005 e 2006 mas estava longe de se poder considerar um favorito. Apagado desde a edição anterior, dificilmente se poderia prever o perigo que representava no Tour 2007, a começar na oitava etapa, a primeira com chegada em alto.

Rasmussen integrou um grupo que atacou a mais de oitenta quilómetros da meta, na primeira de três contagens de primeira categoria. No cume já Rasmussen se tinha chegado à cabeça-de-corrida, onde seguia com mais cinco ciclistas. No início da subida final seguia apenas com Toni Colom e David Arroyo, com seis minutos de avanço do pelotão, agora controlado pela Astana de Vinokourov.

A camisola amarela estava em Linus Gerdemann, que tinha vencido a etapa anterior em fuga. Na altura com 24 anos, nem ele nem a sua T-Mobile estavam em condições de defender a liderança e foi a equipa cazaque que assumiu a perseguição. Já era tarde e Michael Rasmussen venceria com três minutos sobre o principal grupo de favoritos: Valverde, Evans, Moreau, Frank Schleck e Kashechkin. Contador, que teve um furo já nos últimos quilómetros, chegou um pouco depois, tal como Menchov e Sastre. Depois do trabalho dos seus colegas, Kloden e Vino perderam quatro minutos e meio, especialmente preocupantes para o cazaque, que já tinha perdido minuto e meio por uma queda na primeira semana e estava agora a cinco e meio na geral.
Michael Rasmussen a caminho da vitória de etapa e camisola amarela
No último dia de Alpes havia passagem pelo Télégraphe e Galibier, depois com longa descida para Briançon, uma etapa muito semelhante à que Vinokourov vencera em 2005. Mas desta vez a etapa foi aziaga para o cazaque, que ainda debilitado da queda da primeira semana voltou a perder tempo, quase três minutos para os favoritos. O herói do dia foi Juan Mauricio Soler, que atacou logo nos primeiros quilómetros e foi coroado com a vitória. O colombiano seria uma das grandes revelações da prova, também com o 11º lugar da geral, a classificação da montanha e o segundo lugar na juventude.

Não faltou quem atacasse na caminhada para o Galibier. Valverde, Evans e sobretudo a Discovery Channel, com Alberto Contador a mostrar-se ao mundo. Os favoritos terminaram quase todos eles no mesmo grupo mas a etapa mostrou que Michael Rasmussen não teria descanso. Além dos cem quilómetros de contrarrelógio que ainda tinha pela frente, teria que contar com muitos ataques dos seus adversários.

Os dias seguintes esperavam-se calmos, de transição até aos Pirenéus, onde haveria três etapas de alta montanha, com destaque para as chegadas a Plateau de Beille e Col d'Aubisque. E na estrada os dias foram tranquilos, com vitórias para Cédric Vasseur em fuga, Robbie Hunter ao sprint e depois Tom Boonen, a consolidar a sua camisola verde. Mas foi fora da estrada que se iniciou o capítulo mais marcante desta edição da Volta a França.

Michael Rasmussen tinha ganho três minutos na primeira chegada em alto, mas tinha iniciado essa subida com seis minutos de vantagem sobre os favoritos. Permanecia a duvida se seria capaz de se defender nos contrarrelógios e até no confronto direto nas montanhas, sobretudo depois de ver como Alberto Contador acelerava no Galibier. E Valverde, que já era um valor seguro. E Evans e Klöden, que eram mais fortes nos cronos.

Alexander Vinokourov, 19º na geral a mais de oito minutos, arrasou o contrarrelógio (acidentado) com 1'14'' de vantagem para Evans, segundo classificado. Rasmussen também foi uma revelação, registando o 11º melhor tempo e perdendo apenas 1'41'' para Evans, 1'16'' para Klöden, 37 segundos para Contador e ganhando três minutos para Valverde. Acabavam as hipóteses do murciano. Na entradas nos Pirenéus, a discussão estava entre Rasmussen, Evans (+1'00''), Contador (+2'31'') e Andreas Klöden (+2'34'').

Na véspera do contrarrelógio, a Federação Dinamarquesa de Ciclismo anunciou a expulsão de Rasmussen da seleção nacional por falhar três testes anti-doping. Os desportistas têm que notificar as suas federações e as agências anti-doping da sua localização para poderem ser sujeitos a controlos surpresas e Rasmussen era acusado de três faltas no envio da localização. O ciclista dizia que era apenas uma e chamava-lhe “erro administrativo”. A federação decidiu deixa-lo fora dos Mundiais desse ano e dos Jogos Olímpicos do ano seguinte, uma decisão tomada ainda antes do início do Tour mas que só seria tornada publicada quase um mês depois, quando o ciclista estava de maillot jaune.

Após o crono, na primeira etapa nos Pirenéus, Rasmussen contou com o forte apoio da sua equipa, principalmente por parte de Thomas Dekker, Denis Menchov e Michael Boogerd, mas a Discovery Channel entrou na segunda ronda de montanhas da mesma forma que tinha terminado a primeira, disposta a dinamitar a corrida. E Contador, por seu lado, contava com Hincapie, Popovych e Leipheimer. No meio da batalha, era ver os adversários a ceder ao ritmo de Popo.

O ucraniano fez um excelente trabalho até oito quilómetros do topo, altura em que Leipheimer acelerou. Depois Contador. Depois Rasmussen. E Contador, e novamente Rasmussen, e um e outro, camisola amarela e camisola branca. Ficava evidente que apenas o espanhol poderia destronar a Galinha, como era apelidado o seu rival, pois Klöden não tinha capacidade de aguentar os melhores na montanha, Evans também acabaria por ceder e a Leipheimer faltava a capacidade de acelerar como os seus adversários (e o seu colega). Depois de uma fantástica série de ataques entre os dois, Alberto Contador levou a melhor ao sprint.
A primeira vitória de Alberto Contador no Tour...
Os ataques continuaram no dia seguinte e depois do descanso, mas o máximo que Contador conseguiu para as contas da geral foi solidificar o seu lugar do pódio. Saiu dos Pirenéus com três minutos de atraso face a Rasmussen, uma distância irrecuperável no contrarrelógio do penúltimo dia, mas dois minutos de vantagem sobre Cadel Evans, o que permitia ter o seu segundo posto seguro.

Quem já não estava em prova era Vinokourov. Nem a Astana. No dia de descanso foi conhecido um controlo anti-doping positivo de Vinokourov por transfusão sanguínea, no controlo efetuado após o contrarrelógio, a primeira das suas duas vitórias (venceu outra etapa na véspera do dia de descanso). O presidente da ASO pediu à equipa que se retirasse da prova e assim foi. Nenhum ciclista da Astana saiu para a 16ª etapa, nem Andreas Klöden, que era quinto e estava na luta pelo pódio, nem Andrey Kashechkin, que era oitavo. Porém, era apenas o início.
...e a última vitória de Michael Rasmussen no Tour
Pouco depois de Michael Rasmussen vencer no Col d'Aubisque a última chegada em alto e de aumentar a sua vantagem sobre Contador para os referidos três minutos, foi divulgado o controlo positivo de Cristian Moreni, com a Cofidis a anunciar a sua retirada do Tour um dia depois da Astana. Moreni acusou positivo por testosterona, tal como Patrick Sinkewitz, expulso ainda na primeira metade da prova por um controlo efetuado em junho, o que fez com que as televisões germânicas deixassem de transmitir a prova. E no dia seguinte seria a vez de Rasmussen não alinhar,

As novidades sobre o Caso Rasmussen não pararam. Pelo contrário, quanto mais o dinamarquês solidificava a sua candidatura ao Tour 2007, mais interesse havia sobre as acusações da federação dinamarquesa. A vitória no Aubisque seria o final da sua participação na Volta a França de 2007, pois a Rabobank entendeu que o ciclista tinha mentido propositadamente para evitar controlos anti-doping surpresa. Oficialmente estava no México, o que julgava desencorajar a visita de brigadas anti-doping, mas na realidade estava em Itália, e assim foi expulso da prova pela própria equipa. Afinal o trabalho dos seus colegas não tinha valido de nada. As horas de Menchov, Dekker e Boogerd na cabeça do pelotão durante montanhas e mais montanhas, os três minutos de vantagem sobre o segundo classificado, não seriam suficientes para vencer o Tour. Mais tarde seria suspenso por dois anos.

A 17ª etapa ficou assim marcada pela ausência de camisola amarela. Alberto Contador assumiu-a no final do dia e com o quinto lugar no derradeiro crono selou a sua vitória, o seu primeiro Tour, aos 24 anos. Cadel Evans, que tinha ficado com a vitória no primeiro contrarrelógio após a desclassificação de Vinokourov, foi segundo na geral, apenas a 23 segundos. Levi Leipheimer, vencedor do segundo crono foi terceiro na geral a 31 segundos. Alberto Contador tinha sido superior na montanha.

Em Paris, Daniele Bennati conseguiu a sua segunda vitória, antes de levar três da Vuelta. Assim terminou o Tour 2007, um Tour de escândalos mas também do despontar de Alberto Contador.
Pódio final do Tour 2007: Cadel Evans, Alberto Contador e Levi Leipheimer
Resumo
Prólogo: Londres - Londres (CRI): Fabian Cancellara
1ª etapa: Londres - canterbury: Robbie McEwen
2ª etapa: Dunkerque - Gent: Gert Steegmans
3ª etapa: Waregem - Compiègne: Fabian Cancellara
4ª etapa: Villers-Cotterêts - Joigny: Thor Hushovd
5ª etapa: Chablis - Autun: Filippo Pozzato
6ª etapa: Semur-en-Auxois - Bourg-en-Bresse: Tom Boonen 
7ª etapa: Bourg-en-Bresse - Le Grand-Bornand: Linus Gerdemann
8ª etapa: Le Grand-Bornand - Tignes: Michael Rasmussen*
9ª etapa: Val d'Isére  Briançon: Juan Mauricio Soler
10ª etapa: Tallard - Marseille: Cédric Vasseur
11ª etapa: Marseille - Montpellier: Robert Hunter
12ª etapa: Montpellier - Castres: Tom Boonen
13ª etapa: Albi - Albi (CRI): Cadel Evans**
14ª etapa: Mazamet - Plateau de Beille: Alberto Contador
15ª etapa: Foix - Loudenvielle: Kim Kirchen**
16ª etapa: Orthez - Col d'Aubisque: Michael Rasmussen*
17ª etapa: Pau - Castelsarrasin: Daniele Bennati
18ª etapa: Cahors - Angoulême: Sandy Casar
19ª etapa: Cognac - Angoulême (CRI): Levi Leipheimer
20ª etapa: Marcoussis - Paris: Daniele Bennati

Classificação Geral: Alberto Contador

Classificação por pontos: Tom Boonen 
Classificação da montanha: Juan Mauricio Soler
Classificação da juventude: Alberto Contador
Classificação por equipas: Discovery Channel
Prémio da Combatividade: Amets Txurruka

* As vitórias de Rasmussen não foram retiradas uma vez que o seu abandondo foi uma decisão da equipa, sem controlos positivos.

** As vitórias de Alexander Vinokourov foram retiradas ainda durante a prova, quando conhecido o seu controlo positivo.

Vídeos Recomendados:
Vitória de Robbie McEwen na 1ª etapa
Vitória de Fabian Cancellara na 3ª etapa
Duelo Rasmussen-Contador em Plateau de Beille
Duelo Rasmussen-Contador no Col d'Aubisque

Outros artigos da série:

Sem comentários:

Publicar um comentário

Share