sexta-feira, 27 de junho de 2014

À conversa com... Tiago Machado

Já correu em grandes palcos por todo o mundo mas é dentro de uma semana que se apresentará pela primeira no maior de todos. A uma semana de começar a Volta a França, estive à conversa com Tiago Machado. Ainda não sabe o que sentiu quando selou a vitória na Volta à Eslovénia, afrontará o Tour sem um objetivo claro e sem pressão, mas tem bem claro o que quer no curto prazo: a bandeira de Portugal ao peito. Aqui fica À conversa com Tiago Machado.

Em 2007 implementei no Ciclismo Digital um espaço de crónicas onde ciclistas profissionais escreviam semanalmente sobre os seus treinos e as provas em que iam participando. Convidei o Tiago Machado e ele aceitou de imediato.

Na altura o Facebook ainda não era o fenómeno que é hoje e não havia nenhuma rede social que facilitasse o contacto entre desportistas e adeptos como há hoje. Esta era uma boa forma de manter os seus fãs atualizados, mas fiz uma pequena “maldade” ao Tiago. O seu dia de escrever era o domingo, na altura havia muito mais provas do que hoje existem em Portugal e ele, como abono de família do Boavista, participava na grande maioria delas.

Como os smarthphones e os tablets também ainda eram escassos, terminava as provas, fazia a viagem para o Minho, chegava tarde (também havia mais provas no Algarve e a viagem era longa) e só então podia escrever a sua crónica semanal para manter os adeptos informados. Mas não falhava.

Nos últimos anos muita coisa mudou na carreira do Tiago, mas não a disponibilidade. Quando lancei o convite para participar neste espaço, “À conversa com…” aceitou prontamente. “Quando quiseres”. Mas entretanto ainda foi à Eslovénia vencer a Volta local. Outra Volta, a nossa, a Volta a Portugal, continua a ser um sonho. O título nacional também.

Aqui fica este À conversa com Tiago Machado.


"Já só pensava na amarelinha"

RQ: Depois de tantos segundos e terceiros lugares, depois de tantos top-10, o regresso às vitórias. Temos que começar por aí. O que sentiste quando subiste ao pódio para vestir de amarelo e depois quando cruzaste a meta e selaste a vitória?
TM: Nem é fácil descrever isso, como deves imaginar! Nem sei se foi alivio ou o que foi, mas o certo é que os meus olhos voltaram a brilhar como há muito já não fazia! Estava em êxtase, pois finalmente vi o meu trabalho ser compensado.

RQ: Depois dos segundos lugares em Múrcia, na Califórnia e até na etapa rainha da Volta à Eslovénia, foi algo que te passou pela cabeça no último dia ou a vontade de ganhar só dava para pensar em coisas boas?
TM: Quando ataquei muito cedo foi com o objetivo da amarela, mas se os meus adversários do momento estivessem com vantagem na classificação geral iria ter de optar pela etapa. Quando comecei a abrir espaço para o grupo perseguidor já só pensava na amarelinha e nem quis saber da etapa. Mas claro que já sinto saudades de passar a meta com os braços no ar. O meu dia irá chegar, se Deus quiser.

RQ: Há uns tempos o Cristiano Ronaldo disse que os golos eram como o ketchup. Depois do primeiro vinham com mais facilidade. As vitórias podem ser iguais?
TM: Não sei. Acho que eu sou mais dado aos segundos e terceiros lugares. Nem todos tem o talento dele. Mas claro que todos os dias que saio para a estrada penso que um dia irei ter o retorno de tanto empenho. E os meus desaires só me dão ainda mais vontade de me aplicar e sofrer até ao limite das minhas forças.

RQ: Recuando na tua carreira. Há sete anos atrás convidei-te a contar aos adeptos semanalmente no Ciclismo Digital como era a tua vida de ciclista. Tinhas 21 anos, colecionavas camisolas da juventude e o teu principal objetivo era a Volta a Portugal. Passados sete anos, prestes a estrear-te no Tour, quais as maiores diferenças que sentes em ti?
TM: Talvez menos um bocado de cabelo. Mais a sério, penso que passo um pouco melhor as subidas e embora ainda seja impulsivo julgo que já me contenho um pouco mais. E os meus objetivos agora são outros, muito embora não descarte a possibilidade de um dia ganhar a Grandíssima. O sonho comanda a vida e o que seria de mim sem os meus sonhos? Seria uma pessoa frustrada e sem objetivos na vida.

RQ: Era uma pergunta que tinha planeada mais para a frente mas faço já. Quando estavas nos escalões de formação os melhores ciclistas nacionais eram os que lutavam pela vitória na Volta. Hoje, por vários motivos, os melhores nacionais estão num patamar mais elevado. Como é ver a Volta a Portugal todos os anos na televisão?
TM: Sabendo que já fiz parte da história da nossa Volta por ter ganho a juventude por três ocasiões, custa muito vê-la na TV! Confesso que fico com "pele de galinha" só de falar da nossa prova rainha! Mas é a lei da vida, não se pode ter tudo. Queria mesmo muito poder participar mas infelizmente as equipas por onde tenho passado não têm a prova no seu programa. O ditado diz que “o bom filho a casa torna”, por isso…

RQ: E o “bom filho” foi para o estrangeiro. Tiveste quatro anos numa das maiores estruturas do ciclismo mundial, a Radioshack. O que de melhor te ofereceu e quais as melhores recordações? Alguma prova e algum colega que te tenha marcado?
TM: Não posso esquecer que foram eles que me abriram as portas do pelotão internacional, ainda para mais na equipa do Johan Bruyneel e do senhor Lance! Julgo que não haverá um único ciclista da minha formação que não tenha desejado ser colega de equipa dele. O Giro de 2011 irá ficar para sempre no meu coração, pois foi a minha estreia numa grande e com o dorsal 1 da equipa.

RQ: Antes do Campeonato Nacional de fundo do ano passado, assumiste publicamente na tua página do Facebook que estavas desiludido com as tuas prestações até então. Na segunda metade da temporada sabias que não continuarias na equipa, certamente te querias mostrar mas tinhas que trabalhar para outros colegas. Foram os piores momentos desta aventura norte-americana?
TM: Aí já não era aventura norte-americana, porque enquanto foi essa aventura o meu rendimento sempre esteve de acordo com o desejado. O ano de 2013 foi muito penoso mas quem percebe minimamente de ciclismo sabe o que se passou. Para quem não entender, eu dou uma breve explicação para que assim de futuro não seja obrigado a ouvir as barbaridades que por vezes ia ouvindo em diretos. Acham que uma equipa que apostasse em mim e quisesse o meu máximo rendimento me dava um calendário como o que me deram no ano passado?

"Quem me dera ter a nossa bandeira ao peito"

RQ: A mudança na direção da equipa foi prejudicial para ti. Tinhas propostas para rumar a outras equipas World Tour mas preferiste uma Continental Profissional, a NetApp-Endura. Foi devido ao último ano na Radioshack e à escolha de calendário que referes?
TM: Para ser sincero nem fui eu que decidi, foi o meu empresário que teve a decisão. Ele achou que seria o melhor para mim e como tenho total confiança nele nem olhei para trás. Até ao momento, e já a meio ano, posso dizer que foi uma escolha acertada pois pelo menos voltou a recuperar aquela raça que me caraterizava.

RQ: Sem dúvida que está a ser uma escolha acertada. Voltando à tua coleção de lugares de honra. São agora oito terceiros lugares, doze segundos e duas vitórias. Outros ciclistas aparecem duas ou três vezes na frente e conseguem logo vencer. Digamos que não és o ciclista mais sortudo do mundo. O que sentes que tem faltado?
TM: Nem eu sei. Sei que me farto de trabalhar, de sofrer, de batalhar e nada. Sempre ao poste ou à trave. Não acho que seja uma questão de sorte, mas sim de talento, pois os bons ganham.

RQ: Ou será que estás à espera do Tour para matar as saudades de passar a meta de braços no ano, como tu próprio disseste?
TM: Se isso acontecer nem me irei lembrar que passei estes anos todos sem o conseguir. Mas não acredito no conto de fadas. Lutei tanto para chegar a onde cheguei e sei bem o que custa ter algum sucesso.

RQ: Com que objetivo partes para o Reino Unido e o que seria para ti um bom Tour?
TM: Não posso trazer um objetivo na primeira participação no Tour. É uma corrida à parte de todas as outras e tens mesmo de a saber correr. Mas dizem que a sorte protege os mais audazes. Vou com motivação para dar o meu melhor

RQ: Certamente já olhaste para o percurso várias vezes. Qual a etapa que mais te salta à vista ou que tens mais curiosidade para fazer?
TM: Por incrível que pareça ainda não vi o percurso. Só vejo as etapas de véspera. Já sofro tanto em cima da bicicleta que não vale a pena sofrer por antecipação à conta de um percurso. 

RQ: Dizes que não podes colocar um objetivo. Mas preferes focar-te na geral, sem grandes aventuras e sem gastar energias que podem ser úteis no futuro, ou arriscar um pouco mais à procura de uma etapa?
TM: Que seja o que Deus quiser. Está tudo a correr tão bem até ao momento nesta época… por isso o que vier por acréscimo será sempre muito bem-vindo.

RQ: Para finalizar. Olhando para o futuro, sem uma data definida, qual o maior sonho que ainda tens enquanto ciclista?
TM: Quem me dera ter a nossa bandeira ao peito, não peço mais nada! Ficava bem satisfeito!



Em meu nome, agradeço mais uma vez ao Tiago pela disponibilidade. E, claro, boa sorte para os próximos desafios.

Fotos: NetApp-Endura e Siol.net

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