sábado, 28 de junho de 2014

Kreuziger fora do Tour e o Passaporte Biológico

"Espera aí, que algo não está bem"
Roman Kreuziger não vai correr o Tour devido a irregularidades com o Passaporte Biológico, irregularidades em 2011 e 2012 que a sua equipa deu a conhecer hoje. Porque demora tanto o Passaporte Biológico e o que foi diferente no caso de Sergio Henao?

O Passaporte Biológico causa sempre muitas polémicas. Ou melhor, não causa sempre. Quando se trata de alguém que é indiferente, é facilmente aceite. Quando se trata de alguém que se conhece e gera simpatia é que causa polémica, como se viu há um ano atrás. E é normal que assim seja, porque se ninguém explica de que se trata, os adeptos também não são obrigados a saber. Uma vez que me interesso (bastante) por este tema, vou (mais uma vez) tentar explicar.

Quem leu 10 anos depois de Marco Pantani pôde acompanhar a evolução do doping e da luta anti-doping ao longo dos anos 90 e início dos anos 2000. Houve vários períodos. No  final da década de 80 a EPO sintética começou a ser comercializada e no início dos anos 90 chegou aos desportos de resistência com o objetivo de facilitar a recuperação dos desportistas. EPO aumenta a produção de glóbulos vermelhos, que são responsáveis (principalmente) por levar o oxigénio às células. Mais glóbulos vermelhos, mais oxigénio distribuído, melhor recuperação.

Com o uso generalizado de EPO, havia ciclistas que tinham um hematócrito inferior a 40% no inverno e superior a 60% nas principais provasSem que existisse um método de deteção do uso de EPO sintética, a UCI passou a suspender quem tivesse hematócrito  (% de volume de glóbulos vermelhos no sangue) superior a 50%, um valor que se considera inatingível sem recurso a substâncias dopantes. Salvo raríssimos casos de atletas que conseguiam provas que naturalmente superavam esse valor.

Ainda assim, a EPO continuou a existir no desporto. Os desportistas continuavam a usar EPO mas agora eram obrigados a controlar regularmente o seu hematócrito. Por exemplo, no penúltimo dia do Giro 1998, Marco Pantani tinha um hematócrito de 49,3%, evitando a expulsão por sete décimas (e conseguindo a vitória). Um ano depois registou 52% e foi expulso do Giro com a camisola rosa.

Apenas em 2001 a EPO foi detetada pela primeira vez no ciclismo (Bo Hamburger foi o primeiro) mas rapidamente se percebeu que o teste ainda tinha grandes falhas, pois alguns ciclistas admitiram o uso do produto em períodos em que tinham sido submetidos a controlo e este tinha resultado negativo. Além disso, continuavam a existir variações de hematócrito bastante suspeitas sem que EPO fosse detetada.

Para tal, mais tarde foi criado o Passaporte Biológico. Para este são feitos vários testes e os resultados são analisados como conjunto. Imaginemos um caso semelhante ao anteriormente falado. Um desportista tem um hematrócrito de 40% no inverno e nas provas que são o seu objetivo tem 47%, uma variação de 17,5% (47/40=1,175). Mesmo que não acuse nenhuma substância proibida, esta variação é suspeita, pois estudos clínicos estabelecem 10% como máxima variação possível obtida de forma natural. Há indivíduos que têm naturalmente valores mais elevados que outros e os 47% podem ser aceites, mas uma variação tão grande é bastante suspeita.

Não é apenas o hematócrito que é avaliado. Muitos outros parâmetros o são. Eu sei, eu sei que dou sempre os mesmos exemplos e exemplos simples, mas isto não é um Congresso de Hematologistas. É um espaço para adeptos de ciclismo como eu e é perante estes que pretendo fazer-me compreender.

Porque demora o Passaporte Biológico?

Quando existe um controlo anti-doping positivo por qualquer substância, este é comunicado ao ciclista, que pode ou não solicitar a contra-análise mas fica desde logo suspenso. Quando existem suspeitas devido ao Passaporte Biológico, é diferente.

Olhemos para o caso de Roman Kreuziger. Os seus valores suspeitos são de março de 2011 a agosto de 2011 e depois de abril de 2012 até final de maio de 2012. Ou seja, o primeiro período envolve a preparação do Giro (foi 6º) e do Tour e o segundo período envolve a preparação do Giro (venceu uma etapa na última semana e foi 15º). Em ambos os casos tratam-se dos principais objetivos da temporada e, portanto, tratam-se efetivamente de períodos importantes para o ciclista.

Depois de os analisar e considerar os valores de Kreuziger suspeitos, a UCI comunicou ao ciclista a sua desconfiança em junho de 2013. Entretanto passou um ano, algo que não surpreende. Em 2013 Sérgio Ribeiro recebeu uma suspensão por irregularidades em 2011 e 2012, Leif Hoste recebeu uma sanção por irregularidades entre 2008 e 2010 e Carlos Barredo foi notificado em 2012 por irregularidades entre... 2007 e 2011. Geralmente todos os casos de Pasaporte Biológico têm demorado muito.

O que acontece entre esse período?

Olhemos novamente ao caso de Kreuziger. Em junho de 2013 o ciclista foi chamado a defender-se. Antes disso já tinha vencido a Amstel Gold Race e sido 3º na Volta à Suíça. Depois de ser notificado pela UCI continuou a competir, foi quinto no Tour e terceiro na Clásica San Sebastián; este ano foi terceiro no Tirreno-Adriático, segundo numa etapa da Volta à Suíça e estava prestes a partir para o Tour.

Recorreu a três especialistas para analisarem os seus valores e estes "concluíram" que os valores são normais. Vimos no ano passado que quem é chamado a explicar as suas variações do Passaporte Biológico arranja sempre algum médico que "conclui" que estas são normais. E então temos duas conclusões distintas. Um painel da UCI a dizer que são irregulares e um painel pago pelo ciclista a dizer que estas são regulares. Mas será que o painel pago pelo ciclista (ou pela equipa, se for o caso) é imparcial? Não me parece, tal como um advogado em tribunal que é pago para defender o acusado, mesmo que todas as evidências digam o contrário.

Roman Kreuziger vai assim falhar o Tour. O caso é semelhante ao de Sergio Henao, mas não totalmente.

Quando Kreuziger foi notificado em junho de 2013 a explicar as suas variações, o ciclista e a equipa decidiram continuar em competição enquanto fazia a sua defesa. Quando Sergio Henao foi notificado em março de 2014 a explicar as suas variações do outono anterior, o ciclista e a equipa decidiram que o melhor era parar de competir e fazer novos testes acompanhados por especialistas para depois apresentar como defesa.

O que fizeram Kreuziger e Henao, não sei. Se ambos são inocentes ou culpados, não sei. Mas a estratégia de defesa de cada um deles foi diferentes.

Nem sempre as acusações de Passaporte Biológico deram em suspensão. Jesus Rosendo (que no ano passado correu na OFM), em 2010 tinha variações nos seus valores sanguíneos considerados suspeitos, foi chamado a justifica-los e conseguiu demonstrar que estas se deviam a uma crise hemorrágica.

Os acusados dirão sempre que são inocentes porque não há um controlo positivo. E mesmo quando há, muitos continuam a nega-lo durante anos. Mas o problema é outro. O problema do Passaporte Biológico é que, mesmo que alguém tenha agora valores irregulares, apenas os conheceremos dentro de alguns anos.

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