quarta-feira, 23 de julho de 2014

Entre eles faz-se um bom Tour

E um fica fora do pódio
O triunfo está desde muito cedo entregue a Vincenzo Nibali, mas esta tem sido uma Volta a França com história, e com histórias dentro de cada etapa.

Alguém que tenha andado desconectado do mundo durante as últimas duas semanas e meia e veja agora o top-10 do Tour pode pensar que se trata de um engano e até ficar desiludido. Froome, Contador e Rui Costa, já não estão os três ciclistas que despertam maiores atenções por parte dos adeptos portugueses, cada um pelos seus motivos.

Apesar de ser um valor seguro e um dos melhores ciclistas da última década, Alejandro Valverde está pela primeira vez na luta pelo pódio, Pinot e Péraud tinham como melhor resultados 10º e 9º e estão a lutar pelo pódio, Bardet tinha 15º na sua única presença prévia e também Ten Dam e Leopold Konig estão bem encaminhados para o top-10. Dentro dos dez primeiros da classificação geral atual, sete estão em condições de fazer a sua melhor prestação no Tour e, vendo desta forma, parece faltar muita gente. Mais do que realmente falta.

Van Garderen e Mollema são ciclistas já com provas dadas e que estão no top-10, mas há mais. Kwiatkowski, Fuglsang, Scarponi, Van Den Broeck, Joaquim Rodríguez, Porte, Nieve, Frank Schleck ou Chris Horner são alguns dos ciclistas também eles com provas dadas e que estão fora do top-10, o que confere maior credibilidade e mérito a quem lá está do que à primeira vista pode parecer.

Vincenzo Nibali está numa liga apenas sua, já com três vitórias de etapa e com vontade de colecionar mais. No domingo terá as três grandes voltas no currículo e 55 dias na liderança delas, um número bastante interessante (não contabilizando etapas canceladas nem a desclassificação de Contador no Giro 2011).

Mesmo com a vitória assegurada, Nibali certamente quererá vencer a etapa de amanhã, como quis a de hoje, porque quer mostrar que além de superar todos os que estão em prova também seria capaz de vencer Contador e Froome. Quer que nos livros a sua superioridade fique mais vincada que a ausência dos adversários.

Oleg Tinkoff tem uma enorme confiança de que Contador venceria este Tour, algo que demonstrou desde início. E quando Nibali venceu em Chamrousse, o russo disse que naquele dia Contador teria tirado a amarela ao italiano, o que significava recuperar quase três minutos.

Tinkoff sabe bem o quanto pagou para preparar este Tour e garantir que não se repetiria o falhanço de 2013. Bastava ver como está a andar a Tinkoff. Rafal Majka, que uma semana antes do Tour dizia não querer correr porque estava cansado e era perigoso para a sua saúde, tem agora duas vitórias de etapa, um segundo lugar e a camisola da montanha. Desde a desistência de Contador a Tinkoff-Saxo tem três vitórias de etapa, um segundo lugar e felizmente a outra etapa não era de montanha, porque se fosse talvez calhasse mais uma vitória para eles. E seria demasiado.

Mesmo sem preparação de Majka, estão com uma força coletiva que relembra a Sky de 2012, a US Postal ou a Telekom de 1996. Dela fazia parte Bjarne Riis e foi quando conquistou a sua alcunha, Mr. 60%, em consideração ao ketchup que lhe corria nas veias.

Tejay van Garderen e Romain Bardet foram os grandes derrotados na luta pelo pódio no dia de ontem e para Alejandro Valverde, que continua em segundo, restam quatro adversários. Nibali (que tem lugar assegurado), Pinot, Péraud e o seu trágico destino, o maior adversário da sua carreira. Porque se é verdade que o espanhol nunca demonstrou ser muito inteligente e várias vezes saiu derrotado por erros táticos (como ter toda a equipa no pelotão, decidir ir ao carro levar o casaco e ficar cortado na descida), também é verdade que muitas vezes perdeu para o azar com quedas e furos em horários demasiado inconvenientes. Em Campeonatos do Mundo tem cinco pódios e zero títulos, o que também é significativo. A seu favor tem uma grande perseverança, que se pode ver pela forma como tem enfrentado os momentos menos bons ao longo da prova, também com uma equipa que, sem ser soberba, tem estado muito bem.

Thibaut Pinot, Jean-Christophe Péraud e Romain Bardet têm sido um espetáculo dentro deste Tour. Já todos tiveram dias melhores e piores, já todos atacaram e já todos tentaram limitar as perdas, mostrando-se falíveis, como qualquer ser humano deve ser. A forma como encaram a corrida é mais importante do que os nomes e estes três têm encarado esta Volta a França como uma oportunidade única de conquistar algo fantástico. Tal como nós, não sabem como vão estar no dia seguinte nem no contrarrelógio e por isso não se poupam. Se têm energia, atacam. Mesmo Péraud, teoricamente o melhor contrarrelogista, não espera pelo crono de sábado.

Infelizmente, o dia mau de Tejay Van Garderen deixou-o afastado da luta pelo pódio. Seria mais um para baralhar estas contas.

Os franceses supracitados não são os únicos a disputar este Tour com especial combatividade. Temos tido um vasto lote de ciclistas constantemente a lutar por vitória de etapa, como De Marchi, Serpa, Gautier, Kiryienka ou Elmiger, apenas para citar alguns. Temos tido uma intensa luta pela classificação da montanha entre Majka e Rodríguez. E temos tido muitos homens que ambicionam o top-10 e atacam de longe, sem medos. A fuga do dia de hoje tinha Mollema, Van Den Broeck, Rolland, Frank Schleck, que demonstram este espírito, ontem (e outras vezes) personificado em Kwiatkowski.

De um modo geral, estou a gostar bastante deste Tour, que caminha para o final mas ainda tem uma etapa de alta montanha. Apenas com 145 quilómetros mas duríssima, a de amanhã, com passagem pelo Tourmalet e final em Hautacam, ambas de especial categoria.

Para muitos, o final do Tour marca o início do final do verão. E é hora de aproveitar os últimos dias de "calor". 

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No Velódromo da Anadia, o junior Ivo Oliveira sagrou-se hoje campeão europeu de perseguição individual. Um feito fantástico para ele que já tinha conquistado o bronze nos Mundiais do ano passado na Corrida por Pontos. Há talento. Parabéns!

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