quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Crónicas do Novo Ciclismo: do regresso de Saiz e da pandilha da Tinkoff

Saiz, Heras, Hamilton, Riis. Dois foram afastados. Um está de regresso. Outro nunca saiu
A estreia de Crónicas do Novo Ciclismo teve uma reação francamente positiva, muito mais do que esperava. Por outro lado, quando há algumas semanas tive a ideia desta rubrica, não pensei que fosse tão difícil fazê-la acompanhar os mais recentes desenvolvimentos. Não sei se por falha minha, que sou demasiado lento a escrever, se porque nas últimas semanas tivemos demasiada porcaria a sair, ou se por um misto das duas.

Poucas horas depois de publicar Crónicas do Novo Ciclismo: de Vaughters e Vinokourov, a UCI divulgou o positivo de Ilya Davidenok por um esteroide anabolizante. Não seria nada de interessante, mas Davidenok, de 22 anos, é cazaque e estagiário na Astana, de onde saíram recentemente os positivos de Valentin e Maxim Iglinskiy. É um caso de enquadramento difícil. O jovem, vindo da Astana Continental, apenas tinha chegado à equipa principal algumas semanas antes do controlo positivo, pela equipa principal apenas correu a Volta a Burgos e, quando acusou, na Volta a França do Futuro estava ao serviço da sua seleção nacional. Deve este controlo positivo somar-se ao dos irmãos Iglinskiy? Se sim, então a Astana já leva três "casos isolados". Iguala assim o registo da Maia-Milaneza de 2003. Ou da Phonak em 2004. Apenas para citar dois conjuntos que tiveram excesso de controlos aparentemente sem ligação entre si e mais tarde foram desmanteladas.

O positivo de Davidenok foi registado depois da sua vitória de etapa no Tour do Futuro. Numa primeira vista pode parecer que o ciclista foi estúpido em vencer no dia em que estava dopado, como se fosse o único dia. "Sacana, porque te dopaste para ganhar? Não sabias que havia controlo para o vencedor?". Mas talvez não tenha sido o caso. Provavelmente esteve dopado toda a prova mas só acusou no dia em que venceu porque foi o único dia em que se submeteu a controlo.

Por falar em equipa envolvidas em escândalos no velho ciclismo, quem está de regresso é Manolo Saiz, ex-diretor desportivo da ONCE e da Liberty Seguros. A ONCE foi uma das formações mais poderosas durante a década de 90 e início dos anos 2000. Faltou conquistar o Tour, onde se ficaram por dois segundos lugares, um terceiro e duas vitórias na classificação coletiva, mas entre 1990 e 2005 foram conquistadas seis Vueltas, (se contabilizada a última de Heras) e mais seis lugares de pódio.

Saiz era um homem poderoso dentro do ciclismo, até maio de 2006, quando foi detido pela Guardia Civil espanhola com 60.000€ que serviriam para pagar os honorários de Eufemiano Fuentes, o ginecologista mais importante do desporto mundial (sobretudo masculino), que estava a dominar o Giro com Ivan Basso e José Enrique Gutiérrez (1º e 2º). Nesse dia saiu a público a mediática Operação Puerto, que viria a revelar como trabalhava Fuentes e como estava relacionado intimamente à equipa de Manolo Saiz, que logo foi afastado do ciclismo. Provisoriamente. Porque é tudo uma grande família, uma família com laços de sangue, sangue que se extrai, sangue que se centrifuga, sangue que se reinjeta, mas ao fim e ao cabo sangue que une, como uma família. E porque a família não se deixa para trás, Manolo Saiz regressa agora.

Será ao serviço da Cafés Baqué, uma equipa sub-23 espanhola que existe desde 1979 e que procura com Manolo Saiz subir ao escalão continental, mais de dez anos após ter um conjunto na então denominada segunda divisão do ciclismo internacional, em 2003 e 2004, e ter vencido a classificação da montanha na Vuelta nos dois anos. Os responsáveis da Baqué entenderam agora que, e quem melhor que ele?, Manolo Saiz é a pessoa indicada para dirigir uma equipa de jovem.

Quem também tinha vários ciclistas a trabalhar com Fuentes era o incontornável Bjarne Riis, também ele um homem muito dado à ciência e às experiências científicas, tanto que nos seus tempos de corredor alcançou a incrível marca de, pelo menos, 60% de hematócrito. "Pelo menos" porque, segundo o seu antigo soigneur ("massagista") Jeff D'Hondt, chegou mesmo aos 64%. De qualquer modo, muito superior ao limite de 50% que a UCI iria implementar em 1997, considerando que daí em diante só se chega dopado. Já como diretor desportivo, foi Riis quem angariou alguns importantes clientes para a carteira de Eufemiano Fuentes, ciclistas seus a quem recomendava uma visita ao ginecologista. Foram os casos dos confessos Hamilton e Basso, este último de regresso ao trabalho com Riis em 2015. Aliás, a Tinkoff-Saxo está a montar uma equipa muito interessante para a próxima temporada, interessante do ponto de vista do histórico clínico. A Riis e De Jongh, juntar-se-ão em 2015 Julich e Sean Yates.

No final de 2012 Steven De Jongh admitiu que usara EPO entre 1998 e 2000 e logo foi despedido da Sky, onde era diretor desportivo/preparador. Não ficou muito tempo desempregado, o holandês que se dopou "porque era fácil e não podia ser detetado". Na pré-época 2013-14 assumiu a preparação de alguns ciclistas, com Alberto Contador à cabeça, com a missão de recolocar o Pistolero nos eixos para o sucesso. E agora a Tinkoff-Saxo garantiu Bobby Julich e Sean Yates.

Na sua carreira de ciclista, Julich terminou o Tour apenas por uma vez entre os quinze melhores: foi 3º em 98, atrás de Pantani e Ullrich. Com EPO, claro, como viria a confessar em 2012, altura em que foi (também ele) despedido do cargo de diretor desportivo da Sky (em 2013 e 14 esteve na BMC). Já Sean Yates foi uma das principais referências de Armstrong no começo da sua carreira, na Motorola, onde foram companheiros, e mais tarde foi diretor desportivo na Discovery Channel (2005 a 07) e Astana (08-09), onde pôde trabalhar com Armstrong e Bruyneel. Apesar da relação, pertence ao grupo dos "nunca vi doping" e essa é uma característica fundamental para muitas carreiras. Ex-membros da US Postal e/ou Discovery e/ou Astana de Bruyneel que estavam lá, nos mesmos autocarros, nos mesmos hotéis, nos mesmos estágios, mas nunca viram nada de ilegal. Certo é que Yates, inglês, apesar de não ter visto nada, saiu da Sky em 2012. Neste caso, e porque publicamente nunca assumiu nada, a equipa britânica tomou a mesma posição que face a Michael Rogers. Ok, não assumes mas também não é preciso, simplesmente sais.


Algum dia, regressará o Dr. Fuentes?
Despedir alguém (e no caso até foram vários) porque se dopou no passado, não faz de nenhuma equipa limpa, mas (pelo menos) transmite uma imagem de corte com os males do passado, e foi o que fez a Sky. Por outro lado, a Tinkoff-Saxo esforça-se por abraçar todos os males do passando, formando uma digna pandilha. Aceitar um, uma segunda oportunidade, porque não? Mas quatro no mesmo staff é demasiado para ser uma mera coincidência.

Há cerca de 30 anos (1988), Eufemiano Fuentes deixou aReal Federación Española de Atletismo porque nem todos concordavam com os seus métodos de trabalho e aquilo a que chamava "preparação biológica". Antes, em 1985, o jornal El País publicou como o Dr. Eufemiano Fuentes melhorava o rendimento dos atletas sem que dessem positivo, ainda que na altura não o tratasse como um caso de dopagem em massa patrocinada pela RFEA e por dinheiro público. Durante as décadas que se seguiram, várias vezes foram levantadas suspeitas e (publicadas na imprensa) sobre o modo como o Fuentes trabalhava com vários ciclistas à margem das equipas com que foi trabalhando (ONCE, Amaya Seguros, Kelme) e como podia escolher quem ia ganhar a Vuelta. Não era um segredo. Simplesmente não se dava a devida atenção, até que em 2006 estoirou a Operação Puerto. É apenas um caso do passado, não o único, mas talvez o mais relevante para aqui, pois nele participaram Manolo Saiz e Bjarne Riis. Com estas personagens que regressam, continuam e se juntam, estão reunidas todas as condições para que os escândalos não se fiquem pelo passado. Enquanto deixarem, o velho continua a ser o novo.

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