domingo, 12 de abril de 2015

John Degenkolb de Milão a Roubaix

Quando um ciclista ganha dois Monumentos no mesmo ano é necessariamente um fora de série e John Degenkolb é.

Os cinco Monumentos não são necessariamente as cinco mais animadas provas de cada ano, porque todas as provas (de um dia ou por etapas) têm melhores e piores edições. E tampouco é justo dizer deles que são os "agora chamados Monumentos".

Milano-Sanremo, Volta a Flandres, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e (Giro di) Lombardia são história, história do ciclismo mas também história da Europa, testemunhas de duas guerras como não deve haver uma terceira. São provas-objetivo, porque ninguém vai a Sanremo preparar nada, ninguém vai a Flandres ou Roubaix como preparação seja para o que for. Aqui todas as equipas estão com objetivos próprios para o evento, seja para vencer ou, no caso das equipas mais modestas, procurar destaque mediático.

O que fez John Degenkolb foi fantástico! Tanto que desde 1986 ninguém vencia Sanremo e um dos Monumentos de pavé no mesmo, e na altura foi Sean Kelly, um dos maiores classicomanos da história, então vencendo as mesmas duas clássicas que agora Degenkolb. Mas foi uma das edições menos temperadas que me recordo do Inferno do Norte. Curiosamente, um dos poucos que lhe acrescentou tempero foi Degenkolb. Felizmente, o maior premiado foi ele.

O sem-sabor deste Paris-Roubaix iniciou-se a 95 quilómetros da meta, em Arenberg. Muitas vezes ali se iniciou a seleção do grupo de favoritos. Grupos de vinte, trinta ciclistas, que depois poderiam ficar um pouco mais numerosos, mas era uma primeira seleção. Hoje o pelotão saiu de Arenberg enorme. O papel que noutros anos tocou a Cancellara ou Boonen, sendo os próprios a encabeçar o pelotão na Floresta, este ano não teve quem o assumisse. Em parte porque muitos dos favoritos eram homens rápidos ou porque as suas equipas confiavam em homens rápidos (Kristoff, Degenkolb, Sagan, Démare ou até Roelandts) ou porque não havia equipas tão fortes como noutras épocas recentes a Quick Step, a Saxo Bank ou a Cervélo. A Sky talvez tivesse intenção de começar a infligir dor aos seus adversários em Arenberg, mas um problema mecânico de Geraint Thomas poucos quilómetros estragou-lhe as contas.

O pelotão saiu numeroso e mais numeroso ficou devido a uma passagem de nível fechada. Alguns ciclistas passaram com a barreira a descer, outros passaram já com ela fechada e outros ficaram barricados. Quem passou a cancela decidiu esperar por quem ficou fechado, beneficiando da situação quem iam um pouco atrasado em relação ao grupo principal.

Dizem os regulamentos da UCI que é proibido transpor uma cancela fechada e, quem o fizer, é expulso da corrida, o que aconteceu em 2006. Leif Hoste, Vladimir Gusev e Peter Van Petegem perseguiam Fabian Cancellara e já nos últimos quilómetros transpuseram uma passagem de nível fechada. Depois de terminarem (Hoste venceu o sprint pelo segundo lugar, PVP 3º) foram desclassificados. A situação de hoje era bastante diferente. Em primeiro lugar porque, ao contrário do sucedido em 2006, não era possível identificar de imediato quem tinha transposto a barreira. Em segundo lugar porque, também ao contrário do que aconteceu em 2006, os ciclistas que infringiram a norma ficaram misturados no pelotão e tiveram envolvimento no desfecho da corrida, sendo impossível elimina-los à posteriori. Os comissário fizeram a única coisa que podiam: fecharam os olhos.

Com o pelotão numeroso, torna-se muito mais difícil para os melhores roladores fazer diferença. Apesar de serem 27 os setores de pavé, em muitos deles é "fácil" limitar os estragos e, quantos mais ciclistas lá estiverem para perseguir e fazer a junção após os setores, mais difícil se torna fugir. Por isso, os vários ataques que se deram nos quilómetros seguintes não chegaram sequer para ameaçar quem queria uma corrida mais controlada.

O vento jogou um papel determinante. Nas primeiras duas horas, quando os ciclistas iam em direção ao Norte, de costas, inflacionou a média da corrida. Depois, com os ciclistas a mudarem várias vezes de direção (e também o vento), apanharam vento de lado e, na parte final do Carrefour de l'Arbre, última dificuldade de pavé, encontraram mesmo vento frontal, o que dificultou os ataques.

O grupo principal saiu do Carrefour ainda demasiado numeroso e, depois de alguns ataques, começou a formar-se com Greg Van Avermaet e Yves Lampaert o grupo que viria a discutir o triunfo.

A Giant, formação muito coesa, iniciou uma excelente manobra tática ao enviar para a frente de corrida Bert De Backer, que foi 11º no ano passado mas não era visto como uma ameaça para os principais favoritos. Depois atacou John Degenkolb, para se juntar a De Backer e, beneficiando da ajuda do companheiro, chegar-se à frente. Também lá chegaram Zdenek Stybar, Lars Boom, Martin Elmiger e Jens Keukeleire. Poucos à partida esperariam ver Lampaert, Elmiger ou Keukeleire a entrar no Velódromo com hipóteses de vitória.

Muitos dos elogios feitos a Kristoff na semana passada, podem repetir-se agora para Degenkolb. Quando Van Avermaet hesitou na colaboração e Lampaert recusou-se mesmo a trabalhar, esperando pelo grupo de Stybar, Degenkolb assumiu a sua responsabilidade e puxou determinado pelo trio.

É importante lembrar que no World Tour os ciclistas correm com auriculares e todos podiam estar informados (e certamente estariam) da presença de Stybar atrás. Degenkolb não queria que a Etixx ficasse com dois na frente e Lampaert, pelo contrário, recusava-se a colaborar para que se desse essa situação. Degenkolb entrou no Velodromo na roda certa, a de Stybar, que seria lançado por Lampaert. Sem surpresa, o alemão venceu.

No ano passado, Degenkolb foi o primeiro dos outros, depois de Terpstra. Ao cortar a linha de meta, ergueu o braço em sinal de felicidades, mas queria mais. Dizia que Roubaix era um sonho, como Sanremo e Flandres. Agora, com 26 anos, além da Classicissima e do Inferno do Norte, já venceu Gent-Wevelgem, Vattenfall Cyclassics e Paris-Tours.

Zdenek Stybar foi segundo. Mais um segundo lugar para a Etixx-Quick Step, depois de Omloop, E3, Gent-Wevelgem e Volta a Flandres. À equipa de Patrick Lefevere faltou Tom Boonen, mas faltou também sorte. O terceiro foi Greg Van Avermaet, colecionar por excelência de oportunidades que, por um motivo ou outro, passam.


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