quarta-feira, 1 de abril de 2015

Uma Volta a Flandres sem dono

Sem Cancellara nem Boonen, o favoritismo estará mais repartido, por gente como Vanmarcke, Thomas, Stybar, Terpstra ou Kristoff.

A Volta a Flandres 2015 (próximo domingo) não contará com Fabian Cancellara nem Tom Boonen, as duas principais figuras da prova na última década. O suíço devido a duas vértebras fraturadas na última sexta-feira e o belga por uma lesão no ombro contraída no Paris-Nice falham duas das corridas em que conquistaram o seu lugar na história deste desporto: a Ronde e o Paris-Roubaix.

Desde 2001 que não se disputa uma destas provas sem a presença de, pelo menos, um deles. E desde há muito têm estado entre os principais favoritos. Primeiro Boonen, que se estreou a vencer, em ambas, em 2005. Mais tarde num favoritismo dividido com Cancellara, que apenas em 2010 venceria pela primeira ocasião a Volta a Flandres (em Roubaix tinha vencido em 2006).

As lesões são o pior do desporto e cada prova perde com as ausências. Sobretudo tratando-se de dois cabeças-de-cartaz. Mas mais do que isso, sem Cancellara e Boonen, o trono fica livre. As corridas serão diferentes.

O E3 Harelbeke e a Gent-Wevelgem são fundamentais para ver o estado de forma de cada ciclista e talvez Cancellara e Boonen nem fossem os mais fortes. Nunca saberemos. Mas mesmo que não o fossem, seriam os homens a bater na Volta a Flandres (e em Roubaix dependeria da Ronde). Sem eles, não há um homem a bater, não há uma roda a vigiar, não há uma equipa obrigada a assumir o controlo do pelotão. Será, à partida, a Volta a Flandres mais aberta dos últimos anos.


O percurso

Muros, muros e muros. A Volta a Flandres é a prova dos muros de pavé e este ano serão dezanove, mais dois do que no ano passado, com a introdução do Tiegemberg aos 87 quilómetros (antes de todos os outros) e o Berendries aos 170. A partir do sétimo muro, o Valkenberg, o percurso é igual ao de 2014, ou seja, os últimos 88 quilómetros (264 km no total).

Se quer decorar ou apontar poucos nomes de muros, apenas necessita de três, que continuam a ser a essência da prova desde que esta mudou o seu final para Oudenaarde, em 2012. São eles o mítico Koppenberg a 44 quilómetros da meta, o Oude Kwaremont (subido três vezes) e o Paterberg (duas vezes), ultrapassados pela última ocasião a 16,7 e 13,2 quilómetros da meta, muito próximos um do outro e muito próximos do final, as derradeiras dificuldades.


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Favoritos

O favoritismo, que vale o que vale, estará muito repartido. Geraint Thomas (Sky) tem vindo a exibir-se numa forma estupenda, com vitória na Volta ao Algarve, segundo lugar na etapa rainha do Paris-Nice, enorme exibição e vitória na E3 Harelbeke e terceiro na Gent-Wevelgem do domingo passado. Tem estado fortíssimo, parece capaz de ganhar a Volta a Flandres, o Paris-Roubaix e mais qualquer coisa, mas não é raro vermos algum grande favorito arredado da discussão pela vitória muito cedo. O que é válido para Thomas e para todos os outros.

Outro grande favorito é Sep Vanmarcke (LottoNL-Jumbo), para quem a maior dificuldade será fazer uma corrida... normal. Sem furos, sem problema mecânicos, sem partir pedais e sem inventar qualquer outro tipo de peripécias. O mais provável é que o vejamos a perseguir. Há sempre alguém, por algum motivo, para Vanmarcke perseguir.

Na mesma linha, de poços de força, vem Zdenek Stybar, também ele muito forte no Algarve, vencedor da Strade Bianche e segundo no E3 Harelbeke, apenas superado por Thomas. E na sua Etixx-Quick Step, órfã do pai Boonen, estão também Terpstra e Vandenbergh. Niki Terpstra vem de um segundo lugar em Wevelgem, é excelente rolador, rápido e pode fazer aqui algo semelhante ao último Paris-Roubaix, que venceu. Já Stijn Vandenbergh é difícil de imaginar a vencer. Ciclista muito forte sobre os pavés mas lento e com uma enorme desvantagem: 1.99 metros de altura. É que ele não se consegue proteger atrás de ninguém e todos se protegem atrás dele. Isto vale a rolar, a atacar ou a sprintar. A única vitória profissional que tem data de 2007, na Volta a Irlanda, e será necessário um cenário muito elaborado para que triunfe... mas certamente fará por isso ou para que vença um dos seus companheiros.

Alexander Kristoff (Katusha) é um dos homens mais rápidos do pelotão internacional e perfeitamente capaz de ultrapassar os muros com os melhores, algo que todos quererão evitar. Na semana passada foi o mais rápido segundo mais rápido do pelotão na E3 Harelbeke (4º lugar) e o mais rápido na Gent-Wevelgem (9º), ontem venceu a primeira etapa dos Três dias de De Panne e hoje a segunda. É o adversário a eliminar nos muros e no ano passado não foi fácil, terminando em quinto apenas a oito segundos do vencedor. Entre a sua guarda de honra está Luca Paolini, gregário irrepreensível mas também um plano B, como demonstrou com a vitória na Gent-Wevelgem.

Outros dois homens rápidos que ninguém quererá enfrentar num sprint são o vencedor da Milano-Sanremo John Degenkolb (Giant) e o campeão francês Arnaud Démare (FDJ). No entanto, será menos provável que estes ultrapassem as dificuldades no primeiro grupo.

Peter Sagan (Tinkoff) não parece na sua melhor forma, sobretudo pelo modo como ficou apeado perante o ataque de Thomas na E3. Completamente esgotado numa prova de 215 km, menos 50 que a Volta a Flandres. Greg Van Avermaet (BMC), segundo no ano passado, e Lars Boom (Astana) são incógnitas, já que as quedas não permitem avaliar em que condição estão. No E3 Van Avermaet caiu quando a sua equipa perseguia o trio da frente e a queda afetou o seu rendimento dois dias depois na Gent-Wevelgem. Quanto a Boom, caiu na Através de Flandres quando perseguia a solo os da frente, caiu no E3 e por isso falhou a Gent-Wevelgem. Veremos como está no próximo domingo. Quem se tem mostrado em boa forma é Daniel Oss, o colega de Van Avermaet, e Jurgen Roelandts, (Lotto) terceiro em 2013.

*****
**** Thomas, Vanmarcke e Stybar
*** Kristoff, Terpstra, Sagan e Van Avermaet
** Paolini, Roelandts, Vandenbergh, Degenkolb, Oss, Boom e Démare


Horários

A transmissão televisiva terá início às 11h30, o primeiro muro será ultrapassado por volta dessa hora, a segunda passagem pelo Oude Kwaremont às 14h10, o Koppenberg às 14h25, a última subida ao Oude Kwaremont e Paterberg às 15h00 e 15h05 e a chegada às 15h25. Tudo isto segundo as melhores previsões.

Links para assistir à prova, como sempre, na página do Facebook. Acompanhamento em direto, postas de pescada e outros disparates, como sempre, no Twitter.


Últimas dificuldades

-54.6 km: Oude Kwaremont (2,2 km a 4,2%, 11% máx)
-51.2 km: Paterberg (400m a 13,7%, 20% máx)
-44.6 km: Koppenberg (600m a 11,6%, 22% máx)
-40.5 km: Mariaborrestraat (setor de empedrado de 2 km)
-39.2 km: Steebeekdries (700m a 5,3%, 6,7% máx, sem pavé)
-36.8 km: Taaienberg (530m a 6,6%, 15,8% máx)
-26.5 km: Kruisberg (1,8 km a 5,3%, "apenas" parcialmente empedrado)
-16.7 km: Oude Kwaremont (2,2 km a 4,2%, 11% máx)
-13.2 km: Paterberg (400m a 13,7%, 20% máx)
Meta

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