domingo, 26 de julho de 2015

É o Tour. Foi o Tour 2015. Até para o ano!

Este Tour promete, hem? Nas semanas antes do Tour, muitos comentaram comigo e com muitos comentei da elevada expectativa que havia para este Tour. Havia quatro ciclistas que tinham vencido grandes voltas recentemente e tudo indicava que estariam nas suas melhores formas. Depois, por arrasto, outra questão. Qual o melhor Tour dos últimos anos? 

Os Tours de Armstrong eram vencidos nos longuíssimos contrarrelógios ou nas primeiras montanhas (2001, 04), com exceção de 2003, mas esse ficou marcado pelo abandono de Beloki e, se é que ainda havia hipóteses (os intermédios davam a entender que não), pela queda de Ullrich no crono final. No de 2006 os principais favoritos ficaram de fora pela Operação Puerto e o vencedor veio de uma fuga de meia hora (ou da DisneyLandis, conforme o ponto de vista). A de 2007 foi muito equilibrada na montanha entre Contador e Rasmussen mas o melhor corredor em prova, e com a vitória praticamente assegurada, foi expulso pela própria equipa por ludibriar a UCI. O de 2008 até achei bom, mas ficou marcado pelas expulsões. Em 2009 Contador arrasou. Em 2010 foi um dos mais equilibrados. Em 2011, o ataque de Andy Schleck no Galibier e a reviravolta no contrarrelógio final disfarçaram uma edição de poucos ataques entre favoritos. Em 2012 melhor não dizer nada. 2013 decidido na primeira chegada em alto. Em 2014 valeu a luta... pelo segundo e terceiros lugares. É. Visto assim, as expectativas esfriavam-se um pouco.

Se antes era melhor, não creio. Como escreveu Jorge Luís Borges, que não escreveu sobre o Tour mas escreveu sobre tudo na vida, calhou-nos como a todos os homens tempos difíceis para viver.

Para mim, o melhor Tour terá sido um Tour de Flandres ou um Paris-Roubaix. Porque nas clássicas, durando apenas um dia, não há esta sensação de que tudo está decidido a meio da prova. Mas o Tour é o Tour, e ainda que a camisola amarela estivesse entregue há muito tempo, este teve os seus pontos positivos.

Se não pela geral, que pela primeira vez terminou com cinco vencedores de grandes voltas entre os cinco primeiros, então porque vale a pena? Pela paixão dos holandeses e belgas nos primeiros e dos adeptos de todo o mundo nos restantes dias. Pela forma como as equipas franceses jogam tudo durante três semanas, como as italianas fizeram em maio e infelizmente faltam espanholas na Vuelta para fazer o mesmo. Vale a pena pelas equipas pequenas que colocam diariamente alguém na frente à espera que o pelotão de descuide ou para acumular minutos da televisão. Vale a pena por um Perrig Quéméneur, um Pierre-Luc Pérrichon ou um Jan Barta que passam tantos quilómetros fugidos ao pelotão desde os primeiros dias. Vale a pena pelo poderio de André Greipel que é um Phil Heath sobre a bicicleta.

Vale a pena pela forma como as equipas de 5 milhões de orçamento tentam justificar o convite contra equipas de 30 milhões (não, não têm todas os mesmos meios). Vale a pena pela MTN-Qhubeka, que foi a melhor das convidadas, a única que conseguiu vestir uma camisola e a única que venceu uma etapa. Vale a pena por uma bandeira eritreia no pódio, mas também pelas finlandesas e uruguaias nas bermas, mesmo não havendo ciclistas destes países em prova.

Vale a pena porque no dia seguinte a Contador dizer adeus à luta pela amarela, Rafal Majka faz uma cavalgada de 50 km nos Pirenéus para a vitória de etapa. Vale a pena porque depois de tantas quases-vitórias em variadíssimas (grandes) provas, Greg Van Avermaet sobe para Rodez como um louco para chegar à mais importante vitória da sua carreiras, dias antes de ser pai. Vale a pena porque Steve Cummings tira a vitória a Romain Bardet e Thibaut Pinot com a meta à vista mas os dois franceses vão continuar à procura até conseguirem encontrar o triunfo. Vale a pena porque Peter Sagan, ainda não vencendo no seu terreno, vai em busca de melhor sorte fora da zona de conforto, nas montanhas. E se podemos brincar com a quantidade de quase-vitórias de Sagan, é porque a sua qualidade é inquestionável.

Vale a pena porque Simon Geschke, não sendo sprinter nem trepador, depois de derrotado em Gap, lança-se nos Alpes para 50 quilómetros a solo para se desfazer em lágrimas de alegria. Vale a pena porque Pinot perde mais uma hipótese de vitória, numa queda, mas não vai baixar os braços enquanto existirem oportunidades. Vale a pena porque Romain Bardet, depois de uma primeira metade de Tour distante da sua melhor condição, depois de dois terceiros lugares, vê a sua insistência finalmente recompensada . Vale a pena porque Vincenzo Nibali, sendo campeão em título mas também com Giro e Vuelta no palmarés, com a geral perdida, corre com a mesma gana dos miúdos e vai buscar uma etapa em mais uma cavalgada solitária premiada neste Tour. Vale a pena porque Alberto Contador, também com a geral perdida, ainda ataca a 70 km da meta. Vale a pena porque Thibaut Pinot, na última oportunidade, vê a sua luta e da FDJ compensada.

Vale a pena porque Robert Gesink regressa ao top-10 do Tour, cinco anos depois. Pelo menos, perdeu o pai, fraturou a perna, abandonou o Giro às portas do final por problemas de coração, foi operado ao coração, teve que abandonar a Vuelta 2014 à beira do seu final (com top-10 seguro) para acompanhar a gravidez complicada da mulher, abandonou em fevereiro no Algarve para ir novamente para junto da família (eu estava lá, vi a sua cara a sair de Vila do Bispo), caiu, caiu, caiu, caiu novamente e levantou-se. Valeu a pena.

Vale pelos que chegam a Paris mas também pelos que saem do Tour diretos para o hospital como William Bonnet, Fabian Cancellara, Tony Martin ou Ivan Basso. Mas também pelos que resistiram como Michael Matthews e Jean-Christophe Péraud, ainda que distantes da sua melhor condição. Também por muitos outros motivos dos quais já fui falando ao longo de três semanas. E de outros que seguramente me esqueci.

Se a luta pela classificação geral não foi tão interessante quanto se poderia esperar, não faltaram outros motivos para fazer valer a pena este Tour. Vale a pena por muitas razões. Vale  pena porque por todo o controlo que coloquem, haverá sempre alguém para colocar coração na corrida. Vale a pena porque é ciclismo!

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