terça-feira, 4 de agosto de 2015

A Volta a Portugal em agosto, a categoria e as equipas

Muito se tem falado da manifesta falta de qualidade do pelotão desta Volta a Portugal, reduzido a apenas 114 corredores à falta de 4 etapas, e sendo o melhor corredor estrangeiro de equipas estrangeiras apenas 18º classificado.

De há alguns anos a esta parte, venho aqui dizendo que a Volta a Portugal, como é, não tem qualquer interesse para as equipas de primeira ou segunda linha internacional. As equipas World Tour estão obrigadas a disputar todas as grandes provas e entre julho e agosto têm Tour, San Sebastian, Polónia, Eneco Tour e Vuelta. Tanto estas como as equipas de segunda linha (além das provas World Tour em que eventualmente participem), estão moralmente obrigadas a correr as provas do seu país. Sendo estes dois meses recheados de competição pela Europa, torna-se impraticável que uma equipa continental profissional destine metade dos seus recursos para Portugal por 13 dias (10 etapas+1 prólogo+1 dia de descanso+apresentação). E as World Tour, apesar de terem um plantel e um staff vais numeroso, têm um calendário também ele mais avolumado.

A primeira questão que se pode colocar é quanto à categoria da prova, sendo atualmente a Volta a Portugal de terceira categoria (categoria .1, atrás das provas World Tour e das provas .HC). Valeria a pena subir a categoria da Volta a Portugal para a tornar mais interessante? Não creio que para uma equipa World Tour seja relevante vencer uma prova estrangeira .HC apenas pela categoria em si, como o Tour de Langkawi, as Voltas ao Luxemburgo, Áustria, Dinamarca ou Burgos. As equipas World Tour e as melhores continentais profissionais focam-se em ser competitivas nas principais provas do mundo e nas provas que interessam aos seus patrocinadores. Independentemente de se tratar de .HC ou .1, a Volta a Portugal, Burgos, Dinamarca ou outra destas é irrelevante para os principais patrocinadores franceses, italianos, belgas, holandeses ou alemães.

Claro que a Volta a Burgos é vista de forma diferente para as equipas espanholas, como o Giro del Trentino é visto de forma diferente para as equipas italianas. Mas para esta análise, apenas interessa observar do ponto de vista das equipas estrangeiras. E para as equipas estrangeiras, estas provas de 2ª e 3ª categoria apenas servem para encher calendário ou para preparação. Acontece que em julho/agosto não faz falta preencher calendário e 11 dias de competição (mais 2) dão demasiado para se considerar preparação, ainda para mais com temperaturas constantemente altíssimas.

A segunda questão prende-se a uma possível mudança de data e até a redução do número de dias para atrair melhores equipas estrangeiras. Também já aqui o disse, que se a Volta quisesse realmente atrair melhores equipas, teria que passar por aí. Mas tal não me parece a melhor solução.

A temporada nacional termina na Volta a Portugal e se a Volta se disputasse na primavera, a temporada portuguesa terminaria aí, por mais que a Federação Portuguesa de Ciclismo quisesse introduzir provas posteriores à Volta. O ponto alto da temporada seria em abril ou maio e aí morreria o interesse, porque ninguém iria salvar a temporada na Volta ao Alentejo ou no Troféu Joaquim Agostinho, mesmo que estes fossem transmitidos em direto (o que seria um rombo nas audiências). De um ponto de vista histórico, nenhuma outra corrida se compara com a Volta a Portugal.

Neste campo, tenho que elogiar a postura do diretor da organização, Joaquim Gomes, que desde há algum tempo vem a afirmar publicamente que não tem interesse em convidar grandes equipas que pudessem roubar o protagonismo às nacionais. Calma, eu explico porque elogio.

É normal que a generalidade do público não esteja tão por dentro das questões políticas do ciclismo nacional e durante muito tempo utilizou-se o argumento muito típico português do "nós é que sabemos!". De algum tempo a esta parte, o discurso mudou, e agora a direção assume publicamente que não quer melhores equipas e explica as suas razões. Depois cabe a cada um pensar sobre o caso e formar as suas opiniões, tirar as suas conclusões. Podem concordar ou não, mas agora qualquer adepto pode saber as reais razões da política da Podium, e acho isto importante. Eu concordo com a política orientadora da Podium.

As equipas portugueses precisam da Volta a Portugal como do pão para a boca e o ciclismo português precisa das equipas portuguesas. Ainda que os salários de alguma comecem a atrasar em março, se as equipas desaparecerem, não se formam mais ciclistas portugueses.

Mas não seria melhor aumentar o nível para obrigar as equipas a evoluírem? O problema é que uma boa parte das equipas portuguesas são apenas "profissionais". Com aspas. As equipas World Tour têm orçamentos entre 30-10 milhões, as equipas continentais profissionais podem ter entre 8-2 milhões, as equipas continentais têm pelo menos 400/500 mil euros e algumas portuguesas têm entre 100 e 200 mil euros. Se colocarem na Volta a Portugal equipas de primeira ou segunda linha, será o suficiente para algumas formações nacionais se tornarem invisíveis ao longo das duas semanas em que têm que justificar o patrocínio.

Outra hipótese que já vi colocada passaria por tornar a Volta a Portugal World Tour. Mesmo que houvesse dinheiro para isso, seria o fim das equipas portuguesas. Deixariam de participar. Outra hipótese, seria exatamente o contrário, baixar ainda mais a categoria para que as equipas de clube (oficialmente amadoras) a pudessem disputar. Se tal acontecesse, deixariam de fazer sentido as equipas continentais (UCI) em Portugal. Todas poderiam ser de clube (nacionais) e assim reduzir o orçamento, continuando a disputar a prova principal. Por isso não concordo com a Volta a Portugal em categoria World Tour nem em categoria inferior.

Em suma, como está a Volta a Portugal, não tem interesse para as equipas estrangeiras. Mas é neste formato que a Volta a Portugal melhor serve os interesses das equipas portuguesas.

Por outro lado, e há que admiti-lo, a Volta como está perde interesse para uma grande parte do público, sobretudo quem está habituado a acompanhar todas as grandes (e médias) provas, termina o Tour e toma este choque de realidade. Não se deveria por isso encontrar um ponto de equilíbrio? Não me parece que exista.

A Volta a Portugal e o ciclismo português não se encaixam naquilo que a UCI quer para o ciclismo mundial (e europeu), e não o digo como crítica, nem como elogio. As coisas são o que são. Não existe mais nenhuma prova no ciclismo europeu (em categoria internacional) que tenha 13 dias (as equipas têm que estar cá para a apresentação) além das três grandes voltas e não existe mais nenhuma prova no calendário europeu que permita equipas de nove elementos (além das três grandes voltas). Isto são sinais claros de que a Volta é uma exceção naquilo que a UCI pretende, e se dependesse desta, a Volta teria apenas uma semana de duração e equipas de oito corredores.

Esta situação acontece pelas particularidades do ciclismo nacional. Se a Volta a Portugal se tornasse adequada àquilo que pretende a UCI, ao que poderia interessar às equipas estrangeiras, e ao nível das equipas nacionais, se a Volta se adequasse a tudo isto... ficaria desadequada para a história do ciclismo em Portugal. O ciclismo representa historicamente muito mais no desporto português e no país do aquilo que representa atualmente o ciclismo português (interno) no contexto internacional.

Para concluir. Penso que será possível melhor, será possível ter melhores equipas e uma Volta a Portugal mais interessante que esta que me parece ter destacadamente o pior pelotão dos últimos largos anos. Ainda assim, a curto prazo é de esperar que a Volta a Portugal mantenha esta orientação focada nas equipas nacionais e nos seus interesses, pelo menos até que estas ganhem algum músculo e consigam ter orçamentos dentro do que é a realidade das equipas continentais europeias.

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