terça-feira, 7 de julho de 2015

Os campeões assumem-se!

Gosto muito de ciclismo em geral, mas gosto especialmente dos grandes campeões, os que não se escondem, assumem as responsabilidades, criam oportunidades. Por isso, ainda que os leitores habituais do Carro Vassoura não possam acompanhar, foi um especial prazer poder comentar uma vitória como a que Tony Martin conquistou hoje.

A "Etapa dos Pavés" deste Tour fez menos estragos do que a sua antecessora, por algo que aqui já havia sido alertado - as condições climatéricas assumiram uma enorme importância no desfecho daquele dia em que Nibali ganhou dois minutos aos mais diretos adversários. O italiano demonstrou em 2014 um à-vontade sobre as pedras superior aos seus principais oponentes, mas para que as diferenças se repetissem era necessário que a climatologia estivesse novamente adversa. Apesar das ameaças, não foi o caso e prova disso era o pó no ar. De outra forma, teríamos visto um inferno semelhante ao ano passado e serve como exemplo a queda que afetou Daniel Martin (sempre ele), ainda em asfalto, mas molhado. Felizmente foi pouco o asfalto húmido.

Astana e Tinkoff mostraram-se totalmente focadas na geral, tornando o dia dos pavés como apenas "mais um" dos 21 que fazem a classificação final do Tour. Por isso Lars Boom e Peter Sagan se colocaram de forma tão declarada e desde tão cedo ao serviço dos chefes-de-fila, Nibali e Contador. Não houve um bloco que se destacasse dos demais, mas nunca faltou quem mostrasse interesse em impor um ritmo muito elevado.

A Sky esteve muito bem na aproximação aos pavés, mas quando entraram nos seis últimos (e decisivos) setores, Chris Froome esteve mais desapoiado que Nibali e Contador, mas também Purito. Havia corredores da Sky no grupo mas mais distantes do camisola amarela, sempre muito bem, sempre entre os primeiros.

Vincenzo Nibali, à semelhança do que fez há um ano, não esteve para se defender mas sim para atacar. Assumiu a sua responsabilidade, mais uma vez, e isto torna-se repetitivo. Não é circunstancial. Nibali assume as suas responsabilidades porque é assim que vê o ciclismo, de forma muito agressiva, tomando o touro pelos cornos. Chris Froome teve a mesma atitude. O à-vontade nos pavés do italiano é superior, mas Froome também não se escondeu e isso viu-se sobretudo na parte final, num grupo muito reduzido, em que estava também Geraint Thomas mas o camisola amarela não deixou que fosse o seu companheiro a fazer o trabalho todo. Os grandes líderes, os grandes campeões, sabem que chega uma altura em eles mesmo que têm que assumir as suas responsabilidade. E Froome, pese a sua falta de elegância sobre a bicicleta, pese apenas tão tarde ter descoberto que havia um trepador que lhe podia safar do despedimento, hoje portou-se como um dos grandes.

Contador resistiu, Valverde também. Mas sobretudo Nairo Quintana e Joaquim Rodríguez. Foi especialmente curioso ver a luta de Quintana para resistir na roda de quem tem quase mais um palmo do que ele. Já safou o contrarrelógio individual e os pavés, duas das jornadas em teoria mais adversas para o trepador, o mais puro dos quatro grandes aspirantes à amarela. E na parte final da etapa Valverde mostrou o que têm dito à comunicação social, procurando Quintana no grupo para o proteger. Tejay Van Garderen está lá, sempre. São 4+1.

O herói do dia foi Tony Martin. Enorme, fantástico! Não posso dizer sobre ele nada que nunca tenha dito. Esgotei os elogios há muito, como para Cancellara, Boonen, Gallopin ou Greipel, homens extremamente agressivos, que nunca baixam os braços. Quando furou, Martin manteve a tranquilidade e teve a equipa do seu lado. Até Mark Cavendish já antes tinha trabalhado para os seus companheiros, como há dois dias Martin trabalhou para Cav. Chegado ao grupo e ultrapassado o último setor (Martin tinha que chegar antes desse setor), tinha hipóteses mínimas de chegar à camisola amarela. Mas para essas mínimas hipóteses apenas havia um caminho: atacar antes que os outros se organizassem. Era difícil, era um contra muitos, mas se Martin queria chegar à amarela, tinha que ser assim. Atacou.

A Giant ficou em situação idêntica ao Paris-Roubaix 2014, a perseguir um Quick Step que se escapou depois dos pavés. John Degenkolb repetiu o segundo posto desse Paris-Roubaix atrás de Terpstra (em 2015 foi primeiro). Tony Martin venceu, mereceu! Não apenas pelo que fez hoje ou nos últimos dias. Pelo que tem feito continuamente ao longo dos anos, pela garra que tem colocado nas provas em que participa e o sacrifício que oferece aos seus companheiros. A etapa prometia muito, foi emocionante e teve um desfecho ao mesmo nível! Com Tony Martin no pódio, de amarelo, com cara de criança em terra de doces!

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O prémio da combatividade costumava ser entregue a alguém que se destacava fuga do dia. Atualmente é atribuído em função da popularidade de cada ciclista para agradar o patrocinador. Jan Barta merecia na primeira etapa em linha, Pierrig Quéméneur hoje. Foram para Kwiatkowski e Nibali, respetivamente.

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