sexta-feira, 7 de abril de 2017

Tom Boonen - uma Corrida no Inferno, uma carreira dos Diabos

No próximo domingo, Tom Boonen terminará carreira. Será no mesmo Velodromo que surpreendeu em 2002, quando com 21 anos subiu ao pódio pelo primeira vez. Para trás estão 126 vitórias, 7 Monumentos, 1 título mundial, muitos recordes, um legado. Uma coisa continuará a ser escrita no presente: Tom Boonen é o melhor ciclista de sempre em clássicas de paralelo.

O melhor de sempre na sua especialidade, algo que não se pode dizer com semelhante certeza de nenhum outro ciclista do presente. Mas Boonen é recordista das quatro maiores clássicas de paralelo: Volta a Flandres, Paris-Roubaix, Gent-Wevelgem e E3 Harelbeke. Apesar de alguns recordes serem divididos com outros corredores, mais ninguém consegue ser recordista de duas delas - Boonen é das 4.

Antes do Paris-Roubaix de 2002 os belgas centravam as suas esperanças em Johan Museeuw, que viria nessa edição a conquistar o seu terceiro triunfo, mas depois da cerimónia protocolar, chamado a comentar a prestação do seu compatriota, foi o próprio Leão de Flandres que atirou: "o novo Museeuw nasceu". E não seria necessário muito tempo para que o mais jovem conseguisse o seu lugar próprio.



Os dois foram colegas em 2003 e 2004, quando Johan Museeuw decidiu que faria a última campanha de clássicas, centrando-se na Volta a Flandres e Paris-Roubaix e terminando três dias depois em Antuérpia, no Scheldeprijs. Na antevisão do Inferno do Norte, em poucas frases Boonen espelhou aquilo que seria até ao final da carreira, na forma como olhou para os seus colegas. Questionado sobre o cenário ideal, "Johan vence o seu último Paris-Roubaix. A quarta vez. Outra vez completamente sozinho, contra o vento". E ele? "Vou proteger a fuga do Johan e bater o Peter Van Petegem no Velodromo no sprint para o segundo lugar".

Roubaix não correu como previsto (Museeuw furou a cinco quilómetros da chegada), mas na última corrida do histórico flamengo o testemunho foi passado com vitória de Boonen. Depois estrear-se-ia no Tour com mais duas.




Os anos de ouro

2005 foi o seu primeiro ano de ouro - venceu Harelbeke, Volta a Flandres, Paris-Roubaix e duas etapas no Tour de France antes de uma queda levar ao abandono, vestindo a camisola verde. Em setembro, no Paseo de la Castellana conquistou o título mundial e tomou o topo do mundo.

Com 24 anos, Boonen estava no topo do mundo do ciclismo! Tinha-se tornado o mais jovem vencedor da Volta a Flandres desde Edwig Van Hooydonck em 89, o mais jovem vencedor do Paris-Roubaix desde Eddy Merckx em 68 e o mais jovem de sempre a fazer a dobradinha - marcas que se mantém até hoje. Se olharmos às seis maiores corridas de um dia - cinco Monumentos e Campeonato do Mundo - em toda a história, além de Boonen, apenas Rik Van Looy e Merckx foram capazes de vencer três no mesmo ano. Tudo isso faz parte do legado deixado.


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Apesar de se ter tornado um dos melhores sprinters do mundo, em Flandres (e inclua-se Roubaix) nunca correu como um sprinter, mas como um flandrien: atacando as dificuldades. Um dos maiores exemplos disso deu-o na Volta a Flandres de 2006. Partindo como principal favorito, homem mais rápido em prova e com a melhor equipa, foi Boonen quem abriu as hostilidades, com um ataque sobre o Koppenberg, a mais de 70 quilómetros da chegada. Os últimos trinta quilómetros correu-os sozinho com Leif Hoste, para de arco-íris conquistar uma das vitórias mais icónicas do seu percurso.

Em 2006 Boonen alcançaria um total de 21 vitórias e vários dias de amarelo no Tour. Em 2007 foram 11, duas delas no Tour, onde levou até Paris a camisola verde que fora obrigado a abandonar dois anos antes.



E os anos loucos: Monaco, Lamborghinis, cocaína e Roubaix

O arranque e a primavera de 2008 e 2009 foram bastante semelhantes para Boonen: vitórias para ganhar ritmo e moral no Qatar em fevereiro, imaculada marcação aos adversários para duas vitórias de Stijn Devolder na Volta a Flandres, dois triunfos no Paris-Roubaix em abril e positivos por cocaína em maio.

Tom Boonen tinha crescido tanto que se tornou demasiado, demasiado até para si.

Antes dos 25 anos tinha uma linha de roupa, um champanhe em sua homenagem, era procurado para entrevistas na Playboy, tema recorrente nas revistas femininas e inclusive convidado para pousar numa revista gay, analisado ao detalhe na televisão, rosto de várias marcas e convidado para desfiles de moda. Para escapar ao assédio que se fazia sentir na Bélgica (e pela carga fiscal) mudou-se para o Mónaco e em várias ocasiões os seus luxuosos Lamborghinis foram apanhados em excesso de velocidade, sendo duas vezes inibido de conduzir no espaço de três meses em 2008 (álcool e velocidade).

Apesar de não ser proibida fora de competição e por isso não dar lugar a suspensão desportiva, os casos da cocaína valeram duas guerras entre a Quick Step e a ASO, organizadora da Volta a França (e o Ministro do Desporto francês), ao ponto de em 2009 Tom Boonen não estar presente na apresentação do Tour, na quinta-feira que antecede a prova, e apenas na sexta-feira ter decisão favorável por parte do Tribunal Arbitral do Desporto, permitindo que alinhasse à revelia da organização. Esse Tour seria marcado por vários infortúnios e terminaria com o abandono por problemas intestinais.

Se, no primeiro caso, Boonen surgiu em conferência de imprensa para se desculpar pelas "notícias negativas" sem assumir o consumo, no último caso esteve disposto a aceitar todo o tipo de auxílio. "Eu preciso de ajuda". "Se vou continuar a ser um ciclista? Essa é a minha última preocupação".



E, de certa forma, ser apanhado por cocaína foi das melhores coisas que poderia ter acontecido, se não ao ciclista, ao homem Tom Boonen. Por não ser proibida fora de competição, muitos casos semelhantes (em diversos desportos) vão-se mantendo ocultos do público, permitindo que se agravem até ao extremo. Por seu lado, Boonen teve a felicidade de ter ao seu lado uma equipa e patrocinadores que decidiram não o abandonar, mas focar-se na recuperação do ser humano - esteve com acompanhamento psiquiátrico e análises regulares à urina e ao cabelo, levadas a cabo pela equipa, para garantir que se mantinha sóbrio.

Nos dois anos mais conturbados da sua carreira até então somou 22 vitórias, incluindo duas no Paris-Roubaix (em 2008 batendo Cancellara e o campeão mundial Ballan ao sprint e em 2009 chegando isolado), duas etapas na Vuelta e um titulo de campeão nacional.

2012: Tudo Boonen


Aos 31 anos, Tom Boonen ainda tinha uma primavera de ouro guardada. Foi em 2012 e (depois do habitual sucesso no Qatar) as clássicas até nem começaram da melhor forma, batido ao sprint no Omloop Het Nieuwsblad, a prova que faltava ao seu palmarés e continuaria a faltar (foi 2º atrás de Sep Vanmarcke). Mas um mês depois não daria hipóteses nos sprints que decidiram o E3 Harelbeke e a Gent-Wevelgem. Sem perder o ritmo, uma semana depois conquistou a sua terceira Volta a Flandres, num sprint a três. E, sem meias medidas, mais uma semana cumprida, lançou-se a impressionantes 56 quilómetros do final para se tornar tetra-vencedor do Paris-Roubaix. "Não estava a pensar em ganhar a corrida ou em alcançar um recorde. Pensei em lutar eu próprio, pedra por pedra, quilómetro por quilómetro". A maior exibição da sua carreira!

Mas 2012 foi um ano excecional a todos os níveis. O único, em muito tempo, em que o azar o deixou render ao melhor nível.



A malapata iniciou-se em 2010. Furou no Omloop e foi 2º em Sanremo, Harelbeke e Flandres. Depois uma queda na Califórnia deixo-o um mês fora de competição, e após o regresso na Suíça, com nova queda, teria que ser sujeito a cirurgia ao joelho esquerdo e a mais quatro meses afastado da competição. Em 2011, caiu no Scheldeprijs quatro dias antes do Paris-Roubaix. No Inferno do Norte abandonou depois de duas quedas, problemas mecânicos e trocas de bicicleta. No Tour uma queda levou ao abandono ainda na primeira semana. Na Vuelta, depois de resistir a uma lesão no escroto durante parte da prova, viria a ser forçado a abandonar por uma fratura no escafoide.

Concluída a sensacional temporada de 2012, a pré-época seguinte foi marcada por uma infeção intestinal e uma infeção no cotovelo (que poderia ter sido obrigado a amputação, segundo os médicos). Na Gent-Wevelgem caiu e abandonou. Na Volta a Flandres caiu e fraturou uma costela logo aos 19 quilómetros de prova, ficando impossibilidade de defender o seu título do ano anterior, aí e em Roubaix, onde nem alinhou. A temporada acabaria em julho devido a um furúnculo.

Em 2014, a sua companheira sofreu um aborto espontâneo dias antes da Milano-Sanremo, levando à sua ausência e ao natural abalo psicológico na altura mais importante da temporada. Em 2015, nova queda, agora no Paris-Nice, levou a deslocação do ombro, fratura do cotovelo e nova ausência das clássicas. Para fechar o ano, em outubro uma queda na Volta a Abu Dhabi levaria a fratura de um osso temporal com as primeiras previsões médicas a apontarem para uma recuperação se seis meses - seria um mês - e com perda parcial permanente da audição no seu ouvido esquerdo.



Apesar da preparação de inverno condicionada e uma queda na Volta a Flandres, Boonen conseguiu apresentar-se numa das suas melhores versões no Paris-Roubaix, respondendo aos ataques alheios e lançando os seus, entrando no velodromo na dianteira, apenas com quatro adversários na disputa pelo calhau. Perdeu para o mais inusitado - Mathew Hayman. Perdeu uma extraordinária hipótese de se tornar o primeiro penta-vencedor de Roubaix perante uma das maiores surpresas da história da prova. Mas foi um dos primeiros a parabenizar o adversários e também um dos mais calorosos.



Uma lenda do desporto.

A lenda que, antes de o ser, na antevisão do seu primeiro Tour, disse que queria ganhar etapas "porque ser segundo ou terceiro não importa", que sempre correu com a atitude de apenas o primeiro lugar interessar, para ele ou para um colega, mas que nas derrotas foi dos primeiros a parabenizar e a defender os méritos dos adversários quando questionados, como o caso de Hayman nesse Paris-Roubaix.

Porquê terminar agora, em abril, no Paris-Roubaix, porque não continuar até ao final da temporada, são questões que se colocam. Mas a melhor explicação foi dada na antevisão da edição 2004, ainda antes de todas as grandes vitórias: "Para mim é a mais importante das corridas. Quando entro nos chuveiros de Roubaix, começo a preparar a temporada seguinte". Desta vez não há temporada seguinte para preparar.

Termina no Vélodrome de Roubaix, onde por quatro vezes foi coroado o Rei da Rainha das Clássicas, senhor do Inferno do Norte. Aí serão escritas as últimas linhas da carreira de um dos melhores ciclistas da história, o maior na sua especialidade.

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