quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Nairo Quintana e Mikel Landa, o desafio da Movistar

Alejandro Valverde cedeu há algum tempo o estatuto de líder da "sua" Movistar a Nairo Quintana, a coabitação entre ambos tem sido pacífica e os resultados têm, de um modo geral, sido positivos. Mas a entrada de Mikel Landa veio baralhar as contas e pode desestabilizar por completo a equação.

À parte da enorme qualidade e do equipamento que vestirão a partir de janeiro, é muito o que distingue Mikel Landa de Nairo Quintana. Porém, esta não é uma questão de gerações, e do novo a tentar ganhar o lugar perante o velho, enredo que noutras ocasiões e noutras equipas o ciclismo proporcionou, com Fausto Coppi e Gino Bartali ou Bernard Hinault e Greg Lemond à cabeça.

A ilusão de que Landa é o futuro e Quintana pertence ao passado vem, pelo menos parte dela, da forma como os dois se impuseram no ciclismo, o espanhol com demora, o colombiano com uma enorme "facilidade". Chegado à Movistar em 2012, Nairo Quintana começou a vencer logo no início de março, obteve o primeiro triunfo World Tour no Dauphiné do mesmo ano, aos 23 de idade já estava no pódio do Tour e aos 24 a ganhar o Giro d'Italia. Terminou a terceira temporada com 19 vitórias já no currículo, contra 2 de Landa até então, em quatro épocas de WT para o espanhol em virtude de se ter estreado um ano antes. (para tornar este exercício mais justo, apenas são analisadas as suas carreiras depois da chegada ao World Tour, ignorando os anos de Quintana em equipas colombianas e de Landa na Orbea.)
A criticada passividade de Nairo Quintana é, também ela, muito exagerada, como demonstra a sua etapa vencida este ano no Giro d'Italia, as duas vitórias no Tirreno-Adriático com ataques arrasadores no Terminillo ou a postura no Giro d'Italia 2014 e na Vuelta a España 2016. Quando se viu em vantagem perante os rivais diretos, assumiu a responsabilidade e lançou-se ao trabalho, enquanto os adversários em cada uma das ocasiões, já em perigosa desvantagem, esconderam-se nas rodas de quem tinham por perto. Não é um ciclista de atacar para fazer figura, para ficar bem no poster ou para a nota artística. Mas também ninguém lhe pode acusar de poupar e chupar-roda durante as subidas para atacar a 300m da meta ou lutar pelas bonificações do terceiro lugar.

Já a irreverência de Mikel Landa é bem real, mas não tão produtiva quanto pode parecer, lá está, no poster. No Giro d'Italia 2015, quando de forma surpreendente se mostrou como um dos melhores trepadores do mundo, pautou a sua prestação por uma elogiável entrega ao seu líder, Fabio Aru. Afinal, seja o ciclismo um desporto individual disputado em equipa ou um desporto coletivo virado para a classificação individual, as equipas existem e são elas que pagam os salários. Mas, após algum tempo para assimilar o seu novo estatuto (e talvez com muitos bitaites dados na sua entourage), apareceu na Vuelta diferente, colocando os seus objetivos sobre os da equipa e ignorando as ordens do diretor desportivo até ganhar uma etapa.

O próprio mote de #FreeLanda, à parte de piadas, serve apenas para dividir a equipa, e por isso as piadas deviam limitar-se a quem as pode fazer. Entende-se que Filippo Pozzato incentive e cultive a sua imagem de playboy e baladeiro: já não tem interesses competitivo e nem o próprio leva a sério a sua carreira. Menos se entende que Mikel Landa, pretendente à maglia rosa ou ao maillot jeune, use as redes sociais para dar força a uma situação que apenas o pode prejudicar perante os colegas e/ou prejudicar o conjunto. Não é por acaso que Chris Froome de pronto apareceu a dizer que o seu ex-colega merecia uma oportunidade. Agora que o problema já não é seu nem da Sky, outros que lidem com ele.
Mikel Landa merece efetivamente o seu espaço e a sua oportunidade de lutar pelo Giro d'Italia ou o Tour de France. Mas pode ter escolhido a equipa errada para o fazer. Porque mais merece Nairo Quintana.

E desta vez não se pode queixar de ser surpreendido, tal como, de resto, já não se podia na Sky. Quando foi para a Sky sabia que lá estava Chris Froome e qual o estatuto do britânico, quando foi para a Movistar sabia da presença e do estatuto de Quintana. Por isso, mais do que reclamar uma oportunidade, está na hora de assumir as consequências das suas escolhas. Tal como Eusebio Unzué. Depois das ordens ignoradas na Astana e na Sky, não se pode queixar de surpresa quando (e se) Landa volta a fazê-lo.
Landa tem um 3º lugar no Giro e um 4º lugar no Tour. Quintana vem de ser apenas 12º no Tour. Mas que a falta de memória não afete a avaliação da sua qualidade. Nos últimos cinco anos Quintana participou em mais 8 grandes voltas, terminou 7 delas, 6 das quais no pódio, incluindo as vitórias no Giro e na Vuelta. No ativo, apenas Froome e Vincenzo Nibali têm melhor currículo em grandes voltas.

Até ao momento Quintana tem um palmarés muito superior a ao de Landa, que nunca sequer venceu uma prova World Tour. E até em 2017, que parece um ano de afirmação para Landa e um annus horribilis para Quintana, o sul-americano foi melhor. Quintana venceu mais, no geral e no particular, mais classificações gerais, mais etapas, mais provas World Tour.

E isso não são "apenas resultados". Resultados é o que interessa. Do futuro, veremos o que lhes reserva, mas para já estão do lado de Quintana. Porque muito poucos desportos se decidem por nota artística, e o ciclismo não é um deles.

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