quarta-feira, 6 de julho de 2011

Cadel Evans sai na frente!

Estão terminadas as primeiras quatro etapas do Tour, aquelas que compunham o primeiro bloco, com duas chegadas em rampa e um contra-relógio colectivo que certamente marcariam diferenças. Tal como dizia o director desportivo da Leopard após a primeira etapa, não interessa quanto tempo se tem de vantagem depois da primeira etapa, porque o que se ganha hoje por azar de outros, pode perder-se antes da montanha por azar próprio.

Sábado aumentarão as dificuldades mas, por agora, já há diferenças de tempo e Cadel Evans e Frank Schleck estão na frente entre os favoritos. A Garmin tem sido a equipa em maior destaque, com Tyler Farrar e Thor Hushovd, um campeão mundial que orgulha a modalidade. Vamos por partes:

As quedas da primeira etapa

Comecemos pelo assunto mais falado até ao momento: as quedas da primeira etapa que fizeram Alberto Contador perder mais de um minuto. Nalguns espaços pela internet, notei que havia algum “inconformismo” por ter sido aplicada a regra dos 3 km (vou chama-la assim e todos entendam ao que me refiro). Ora, quanto a essa regra, há um desconhecimento generalizado e as pessoas pensam que é válida apenas nas etapas planas. Errado! Segundo o artigo 2.6.027 da UCI (poderão ver o regulamento em português se carregarem aqui), não há descriminação de etapas, ou seja, é válida para todas as etapas em linhas. Porém, os organizadoras das provas podem, no seu regulamento particular (feito antes da prova começar), determinar que tal regra não é aplicada em algumas etapas e é isso que costuma acontecer para as chegadas em alto. Segundo o regulamento da Volta a França 2011, elaborado muito antes da prova começar, a regra dos 3 km não se aplica nas etapas 4, 8, 12, 14, 18, 19 e contra-relógios, claro. Em todas as outras etapas (incluindo a 1ª e a 9ª, que também termina numa 4º categoria), aplica-se e por isso Andy Schleck, Robert Gesink, Ivan Basso, entre outros, tiveram o mesmo tempo do grupo onde seguiam.

O que eu achei lamentável, foi o grupo de Contador e Samuel Sánchez, principalmente por estes, chegar à meta em ritmo de passeio. Não sei se por pensarem que os favoritos afectados pela outra queda também perderiam tempo ou se por outro motivo qualquer, mas quem está no Tour para ganhar tem obrigação de tentar minimizar as perdas até ao último metro, seja por falta de pernas ou por azar, seja Alberto Contador, Samuel Sánchez ou outro qualquer.

Contra-relógio por equipas

As diferenças registadas entre as primeiras classificadas do contra-relógio por equipas, foram menores do que eu esperava. Ao ter apenas 23 km, os ciclistas mais explosivos e em particular os sprinters puderam dar importantes contributos às suas equipas e os roladores e contra-relogistas mais potentes não tiveram tempo de aquecer o motor. Ao ter homens explosivos como Julien Dean, Tyler Farrar e Thor Hushovd para os primeiros quilómetros e contra-relogistas de “longo alcance” como David Millar, David Zabriskie e Christian Vandevelde, a Garmin foi a grande vencedora, ficando no ar a ideia de que a HTC (5ª a 5 segundos) poderia ter ficado com os louros se Bernhard Eisel não caísse logo no primeiro quilómetro. O meu palpite ia para a Radioshack, que ficou a dez segundos e foi o maior exemplo de que os melhores contra-relogistas não têm assim tanta influência num crono colectivo tão curto. A Leopard foi “vítima” do mesmo e, tal como a Shack, conseguiu melhorar o seu registo na parte final (mostrando a diferença entre ter e não ter Fabian Cancellara) mas foi incapaz de bater a Garmin.

A guerra dos sprinters e Thor Hushovd

A vitória de Tyler Farrar, a homenagem a Wouter Weylandt
nos dedos e a amarela de Thor Hushovd ao fundo
Ao terceiro dia iniciou-se a guerra dos sprinters, com Tyler Farrar a vencer o primeiro round. A HTC colocou toda a gente à disposição de Mark Cavendish, incluindo Tony Martin e Peter Velits, os teóricos homens para a classificação geral. Mesmo assim o seu comboio saiu curto, ficou sem combustível ainda longe da meta e a Garmin assumiu a cabeça do pelotão na parte final, levando Tyler Farrar à vitória. É de destacar e louvar o trabalho de Thor Hushovd. O campeão do mundo, com a camisola amarela no corpo, abdicou de disputar os primeiros lugares e lançou um colega de equipa. Farrar venceu, mas não era certo que o faria, tal como nunca é. Foi uma aposta e, como todas as apostas, poderia ter corrido mal, mas Hushovd aceitou colocar a equipa à frente dos seus objectivos pessoais. Não estamos a falar de um campeão do mundo por acaso ou de um camisola amarela aguadeiro como Victor Hugo Peña em 2003. Hushovd venceu a camisola verde em 2005 e 09 e no ano passado venceu uma etapa.

José Joaquin Rojas foi terceiro nessa etapa e está com a camisola verde. Não é o melhor sprinter do mundo, mas é dos melhores, passa muito bem as dificuldades, ainda tem etapas que se encaixam melhor no seu perfil do que em Cavendish ou Greipel e é um candidato a vencer esta classificação.

A chegada a Mûr-de-Bretagne

A chegada da quarta etapa, no Mûr-de-Bretagne, representava a primeira oportunidade para Alberto Contador tentar recuperar tempo. A consegui-lo, seriam poucos os segundos recuperados, mas tinha que tentar, até porque este finais estão longe de ser os mais indicados para Andy Schleck, que no ano passado perdeu 10 segundos na chegada a Mende, subida de 3 km.

Na chegada ao Mûr-de-Bretagne, Alberto Contador mostrou a combatividade de sempre e atacou a mais de um quilómetro para a meta, mas faltou-lhe a capacidade de explosão e força a que nos habituou. Foram demasiados os ciclistas que seguiram na sua roda e no sprint final o vencedor foi Cadel Evans. Cadel Evans sim, está em excelente forma, talvez demasiado forte para um Tour que ainda está no seu começo e tenho as minhas suspeitas de que não aguentará assim até ao final. Lembro-me por exemplo da sua prestação em 2009, onde começou fortíssimo e se foi abaixo na fase final. De qualquer forma, por agora está aí para animar a corrida.

Já Philippe Gilbert, mostrou o seu super-ego. Na equipa tem Jurgen Van Den Brouck, que colaborou nas suas vitórias nas Ardenas e que ontem deveria ajuda-lo a chegar à vitória. Quando VDB seguia em primeiro, com Evans em 2º e Gilbert em 3º, o australiano abriu e deixou VDB ganhar uns metros à concorrência, o que poderia ser suficiente para vencer. Gilbert, que pelos vistos não é assim tão bom colega de equipa como ciclista, arrancou para a roda de VDB com todos os outros atrás de si, anulando as hipóteses do colega vencer e acabando ele no quinto lugar. Enfim, nem todos são como Hushovd.

Quanto aos candidatos à geral, não dá para fazer grandes previsões do que acontecerá na montanha apenas com base na etapa de terça-feira (que já é ontem). Não se tiram grandes conclusões para a montanha com base num final onde Gilbert é 5º e Hushovd 6º. Numa chegada como esta, a capacidade de arranque tem uma importância muito maior do que nas etapas de alta montanha, apenas para enumerar uma diferença.

Seguem-se três etapas mais ao jeito dos sprinters, mas atenção à de quinta-feira, onde poderão existir cortes, e atenção também à etapa de hoje, onde o vento poderá fazer estragos nos quilómetros finais.


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Para os mais distraídos, informo que a RTPN está a transmitir as etapas a partir das 13h

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