segunda-feira, 11 de julho de 2011

Rui Costa: Desejada vitória, êxito esperado

Aí está mais uma vitória portuguesa! Depois de, no ano passado, Sérgio Paulinho quebrar o enguiço no que se refere a vitórias de corredores portugueses na maior prova de ciclismo do mundo, no sábado foi a vez do Rui Costa, num local onde Orlando Rodrigues foi 2º em 1996. Com duas vitórias em dois anos, até parecemos uma potência da modalidade.

À parte da vitória do Rui Costa, que obviamente marcou (pelo menos para nós) este fim-de-semana e marca este artigo, houve ainda um carro a atropelar fugitivos em pleno Tour e a camisola amarela mudou-se para um francês a quem pouco importa se os colegas de fuga estão na sua roda ou se são atropelados.
Em Portugal, houve o Troféu Joaquim Agostinho, última prova pró etapas, antes da Volta a Portugal.

Um dia para ficar nas nossas memórias

Quando na sexta-feira escrevi que as etapas deste fim-de-semana eram mais ao jeito de Rui Costa do que as anteriores, não estava propriamente a prognosticar uma vitória, mas este grande feito não caiu do céu nem foi uma surpresa assim tão grande. Apesar de ter apenas 24 anos, este triunfo coloca Rui Costa entre os nomes de ouro do ciclismo português, aqueles que mais conseguiram ao longo das suas carreiras, e apesar de ainda não ter demonstrado ser um exímio trepador, conjuga boas capacidade para quase todos os terrenos e por isso já tem o seu palmarés tão recheado. Digo, com extrema confiança, que esta vitória é apenas um dos muitos êxitos que o ciclista poveiro terá no seu currículo quando terminar carreira (daqui a muitos anos, esperamos nós).

Ao dizer que estas duas etapas eram mais ao jeito de Rui Costa, tinha dois cenários em mente. Uma vez que a Garmin de Thor Hushovd estava mentalizada que perderia a liderança no sábado (o que acabou por não acontecer), estes não trabalhariam na frente do pelotão, tal como não trabalhariam as equipas dos sprinters. A menos que alguém perigoso se intromete-se nas fugas do dia, apenas a Omega e a BMC assumiriam as despesas do pelotão, a primeira para tentar levar Gilbert à vitória na etapa e a segunda para tentar chegar à camisola amarela com Cadel Evans. Desta forma, seria mais fácil que uma fuga vingasse e Rui Costa (que em fuga já venceu na Volta à Suíça, por exemplo) é um ciclista que se adapta perfeitamente a estas situações: passa a média montanha extremamente bem e tem velocidade de ponta para superar muito boa gente. O outro cenário que julguei igualmente provável tinha como desfecho o sprint entre um grupo reduzido, onde Costa também poderia chegar a um bom resultado.

Fez-se a fuga com nove ciclistas, as dificuldades deixaram para trás os menos capacitados para a montanha e quem estava pior preparado, permanecendo apenas um quarteto na frente. O ideal para Rui Costa seria que permanecessem juntos até á subida final, mas a contagem de montanha anterior tinha evidenciado as diferenças de capacidade e desfez o entendimento entre os fugitivos. Quando o português arrancou e vi em Van Garderen incapacidade para anular a distância, enchi-me de certeza que a vitória estava muito bem encaminha. A cada pedalada essa certeza foi aumentado, e tornou-se numa certeza absoluta quando vi que nem Vinokourov conseguia lá chegar. Estava feito! Vitória de Rui Costa! Vitória de um português!



Curiosamente, em 1996, na chegada a Super Besse, outro português esteve em destaque: Orlando Rodrigues. Aproveitando que o seu líder Miguel Indurain já estava arredado da luta pela vitória, Orlando Rodrigues esteve na fuga certa e foi ao sprint pela vitória. Terminou em segundo lugar, atrás de Rolf Sorensen.

No sábado, a televisão francesa impediu-nos de ver toda a subida do vencedor, centrando-se no duelo de Alberto Contador e Andy Schleck. Contador tentou recuperar mais uns segundos a Andy Schleck, mas o luxemburguês esteve sempre na sua roda, sem mostrar qualquer fragilidade.

Um atropelo e uma camisola amarela pouco nobre

As marcas do arame farpado no corpo de Hoogerland
O domingo foi marcado pelas quedas, que esperamos que entrem de descanso esta segunda-feira e não mais voltem. É lamentável que tantos dos principais candidatos ao top-10 já estejam marcados fisicamente ou tenham mesmo desistido. Às desistências de Brajkovic, Wiggins, Horner, Vinokourov (e muito provável final de carreira) e Van Den Broeck, há a somar o tempo perdido por Samuel Sánchez, Levi Leipheimer, Tom Danielson, Ryder Hesjedal e Rigoberto Uran, e Robert Gesink e Alberto Contador que já perderam tempo e têm o corpo marcado. Tudo consequências de quedas.

A queda mais estúpida e mais desnecessária foi protagonizada por um carro que tentou ultrapassar os fugitivos quando não o deveria ter feito e, ao ver a estrada estreitar por uma árvore, desviou o carro na direcção dos corredores. Juan António Flecha levou com o embate do carro e Johnny Hoogerland foi contra uma vedação de arame farpado. Ambos pertenciam a uma fuga muito bem encaminhada para vingar (e vingou mesmo), alimentados pela ambição de vencer uma etapa, a mesma ambição e o mesmo sonho que havia dado força a Rui Costa naquela subida final do dia anterior. No caso de Hoogerland seria a primeira, para Flecha poderia ser a segunda mas não menos importante. Aquele condutor tirou-lhes uma grande oportunidade de vitória e limitou extremamente as suas condições físicas para o que falta deste Tour. O holandês leva agora 33 pontos no corpo e uma liderança da montanha que dificilmente conseguirá defender quando entrar nas etapas mais duras.

 

Thomas Voeckler apenas pensava na camisola amarela e por isso puxava mais do que qualquer um dos outros. Quando se apercebeu da queda, o francês abanou a cabeça e acelerou. Nenhum deles oferecia perigo para a sua virtual liderança e, mandava a lei do pelotão, que esperassem por indicações dos seus carros de apoio. Depois dos directores desportivos comunicarem que Flecha e Hoogerland não estavam em condições de reentrar, seria normal que Voeckler voltasse a puxar pelo grupo, mas ele não quis esperar. Voeckler leva a camisola amarela mas baixou na consideração do pelotão. Uma camisola amarela conquistada sem olhar a sangue alheio. Não sou o único a condenar a atitude de Voeckler, o qual já elogiei várias vezes neste blog. Sérgio Paulinho também mostrou o seu descontentamento no blog que diariamente actualiza.

Agora vêm aí duas etapas para sprinters, ainda que a de terça-feira seja algo acidentada.

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Troféu Joaquim Agostinho

Em território nacional, disputou-se o Troféu Joaquim Agostinho, última prova por etapas antes da Volta a Portugal. Com quatro etapas selectivas mas nenhuma tão dura quanto a chegada ao Alto do Montejunto que aconteceu durante tantos anos, para vencer a prova seria necessário aguentar bem as subidas mas também ter poder de arranque, pois os finais estavam em subidas curtas.

Ricardo Mestre, que já se tinha mostrado em boa forma no Campeonato Nacional de contra-relógio, venceu a primeira etapa com um ataque na primeira passagem por Sobral de Monte Agraço, fazendo valer os seus dotes de trepador. Nos restantes dias, Mestre e Tavira apenas tiveram que controlar a vantagem, sem grandes sobressaltos, e venceram a prova. Antes da Volta do ano passado, eu afirmei acreditar que, no dia em que seja líder, o algarvio poderá lutar pelo pódio. Sairia mais beneficiado se os dias decisivos estivessem no final da prova e não com este percurso, sobre o qual noutra ocasião falarei.

Com uma vitória e dois segundos lugares, Sérgio Ribeiro continua com a sua grande temporada. É o principal candidato à classificação dos pontos na Volta a Portugal e homem para vencer algumas etapas. Em fuga, Raul Alarcon (Barbot) e Enrique Salgueiro (Louletano) venceram as restantes duas etapas.

A prova contou com a selecção de Marrocos, que trouxe a Portugal seis ciclistas e terminou com apenas um, num excelente 52º lugar. Percebam o “excelente” como ironia.  

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