quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mundiais: 3 elites portugueses, 0 sub-23. ZERO!

Em 2012, não haverá sub-23 portugueses, nem no pódio...
... nem em competição
15 de Agosto é o dia a que fecham as contas para o apuramento de vagas para os Campeonatos do Mundo de ciclismo. Se fechassem no sábado, Portugal teria conseguido 9 vagas para a prova de elites mas acabou por ser ultrapassado pela França e apenas levará 3, número que já era espectável. Nos sub-23, por sua vez, Portugal não conseguiu qualquer vaga. NENHUMA! O presidente da Federação, como já sabem, acha que a prática da modalidade em Portugal está de boa saúde.


Antes de mais, é necessário perceber como funciona a qualificação para os Campeonatos do Mundo. Para os elites, há 3 formas de qualificação:
- pelo World Tour: as 10 nações melhor qualificadas podem levar 9 corredores;
- pelos rankings Continentais: no caso da Europa, as 6 primeiras nações (excluindo as qualificadas pelo WT) podem levar 6 corredores e as 10 seguintes podem levar 3;
- novamente pelo World Tour: nações com um ciclista nos 100 primeiros do WT ou três na classificação total, podem levar 3 corredores para os Mundiais, nações com 2 corredor pontuados no WT podem levar 2 e com 1 pontuado podem levar 1.

Para os sub-23, apenas contam os pontos conquistados por corredores sub-23 em corridas continentais, apurando da seguinte forma:
- No caso da Europa, as 15 primeiras nações podem levar 5 ciclistas, as 5 seguintes (16º-20º) podem levar 4 e as 6 seguintes (21º-26º) podem levar 3;
- As 5 primeiras selecções da Taça das Nações ganham uma vaga extra;
- Uma selecção pontuada na Taça das Nações que não se tenham qualificado doutra forma, consegue uma vaga para os Mundiais.

Quem quiser, pode encontrar os regulamentos (em inglês) de elites aqui e os sub-23 aqui.

O caso dos Elites


A Volta a Portugal é a prova em que os portugueses costumam arrecadar mais pontos e, sendo esta atrasada para a segunda metade de Agosto devido aos Jogos Olímpicos, era espectável que conseguissem 3 vagas pelo 2º critério de qualificação anteriormente mencionado, não mais do que isso. Porém, as boas prestações no World Tour de Rui Costa (Volta à Romandia 75 pontos, Suíça 106 pts e Tour 8 pts) e Tiago Machado (Tour Down Under 72 pts e Polónia 20 pts) quase davam uma surpresa, já que no sábado passado Portugal ainda ocupava o 10º lugar no World Tour baixando para 11º com o Eneco Tour e por aí ficando, o que não garante qualquer lugar de qualificação.

Depois da quase-surpresa World Tour, aparece a desilusão Continental. Na última actualização da classificação das nações (25 de Julho), Portugal era apenas 23º, 17º exceptuando os países qualificados pelo WT, e desde então os pontos conseguidos foram mínimos e insuficientes para melhorar essa posição. Com a Volta a Portugal depois do dia 15 de Agosto (o que não critico, devido aos Jogos Olímpicos) e sem que se consiga pontos na Volta ao Algarve (ciclistas WT como Rui Costa e Tiago Machado, não contam), a Volta ao Alentejo, o Troféu Joaquim Agostinho, as viagens ao estrangeiro por parte de equipas portuguesas, os portugueses que correm por equipas estrangeiras e os Campeonatos Nacionais são as únicas possibilidades de somar pontos para Portugal.

Na Volta ao Alentejo e no Troféu Joaquim Agostinho, foram perdido alguns pontos, mas nada de extraordinário nem alarmante. A falta de pontos conquistados por Portugal, vem, em parte, da falta de pontos gerados dentro do país, consequência da crise, principalmente depois do GP Costa Azul desaparecer. Porém, não deixa de ser curioso que Portugal fique atrás... da Grécia. O maior problema para o futuro, é que quanto piores forem as classificações de Portugal enquanto nação, menos pontos são atribuídos para o Campeonato Nacional do ano seguinte. A maior esperança para o próximo ano passa por a Volta a Portugal regressar à sua data original, no início de Agosto, e pelo acreditar que Manuel Cardoso, André Cardoso, Hernâni Brôco, Fábio Silvestre, Jóni Brandão e mais algum português que se junte a uma equipa estrangeira aumentarão a quantidade de pontos amealhados. Posto isto, Portugal tem condições para em 2013 se qualificar pela Classificação Continental, já que este ano apenas se qualificou pela presença de um corredor no 100 primeiros do WT, no caso até dois, Rui Costa (13º) e Tiago Machado (46º).

O chocante caso dos sub-23


Se o caso dos elites é compreensível, pelos muitos motivos anteriormente citados, o dos sub-23 parece-me chocante. Portugal sem presença sub-23 nos Campeonatos do Mundo?!

Portugal não conseguiu qualificar-se nos 26 primeiros lugares da Europa e não conseguiu um ponto que fosse na Taça das Nações. Poderia ser por questões financeiras, que impedissem a nossa selecção de estar presente, mas não. Portugal esteve presente em 4 das 6 provas possíveis (falhou Volta a Flandres sub-23 e uma prova por etapas no Canadá, onde a presença seria mais cara) e nessas ficou atrás de países como África do Sul, Cazaquistão,   Letónia, República da Irlanda, Suécia e Ucrânia, já para não referir que, ao serviço da Equipa Mista UCI, Argélia, Argentina e Eritreia conseguiram somar pontos, algo que Portugal não. Culpa de quem?

Em etapas, apenas os 3 primeiros somam pontos, e compreendo que Portugal não consiga colocar ninguém nos 3 primeiros das 5 etapas disputadas ou nos 8 primeiros do Campeonato da Europa (Fábio Silvestre foi 10º). O que tenho mais dificuldades em compreender é que não se coloque ninguém nos 15 primeiros das duas clássicas em que participaram nem ninguém nos 20 primeiros da única prova por etapas em que estiveram. Caramba! Quem é que faz as convocatórias? Quem é que dá as tácticas? Ok, é o mesmo senhor que não convoca o Sérgio Ribeiro para o Campeonato do Mundo.

Mesmo que queiram vender o contrário, o seleccionador José Poeira não teve mérito na medalha de prata do Paulinho em Atenas. Não teve. Durante grande parte da prova o Sérgio andou na parte de trás no pelotão, com o Nuno Ribeiro, a tentar levar para a frente o Cândido Barbosa, que acabaria por desistir. E foi preciso que o Cândido abdicasse para que o Sérgio pudesse fazer a sua corrida e pudesse chegar à prata, porque sabia qual a roda a seguir e porque teve pernas para o fazer. Se tivesse tido liberdade desde início, será que não tinha chegada ao ouro?


É é também o seleccionador que na Ciclismo a Fundo de Fevereiro disse "a participação da selecção nacional na Volta concede a possibilidade a alguns ciclistas jovens de mostrarem o seu valor, não só aos responsáveis de equipas portuguesas, mas também de formações estrangeiras", mas depois faz a convocatória que ontem comentei.



Um seleccionador minimamente competente, sabendo as regras de qualificação para o Mundial (e para a Volta a França do Futuro), teria que montar uma estratégia para meter um corredor nos lugares pontuáveis. Na clássica Côte Picarde, três dos seis seleccionados desistiram e a desculpa dada foram quedas e furos. Na clássica ZLM, apenas um corredor terminou, a 3 minutos dos 20 fugitivos, e no final a desculpa do seleccionador foi que no pelotão ninguém quis perseguir. Digo eu: claro que não, porque mais uma vez Portugal era dos poucos países que não tinha metido ninguém em fuga, tal como é hábito na última década.


A maior demonstração de falta de competência aconteceu na Toscana-Terra de Ciclismo, prova de cinco etapas em que quatro delas eram acidentadas, e onde no ano passado Amaro Antunes venceu uma etapa e foi 9º na geral. À partida, as palavras eram de confiança. "É uma corrida muito dura, boa para as características dos nossos corredores. Vamos tentar fazer o melhor, o que significa lutar pelos primeiros lugares. No ano passado, o Amaro Antunes ficou nos dez primeiros e ganhou uma etapa. Estamos cá para fazer igual ou melhor". No final, desilusão. A selecção era composta por Amaro Antunes, Luís Afonso, Fábio Silvestre, Pedro Paulinho, Rafael Reis e Ricardo Ferreira. O Pedro é um excelente sprinter e contra-relogista, com um bom futuro em perspectiva, mas não se adaptava a esta prova, tal como o Rafael e o Ricardo, de apenas 19 anos. O Pedro desistiu na 2ª etapa, o Rafael e o Ricardo desistiram no último dia, já estando muito atrasados, e o Amaro perdeu nesse dia as hipóteses de terminar nos 20 primeiros. O Fábio e o Luís Afonso já as tinham perdido.



No Campeonato da Europa, desistiram 4 dos 7 corredores. Posto isto, será que o seleccionador tem feito as melhores escolhas? Está à altura do cargo? As respostas parecem-me claras.



Por outro lado, não é de estranhar que, fora da selecção, os portugueses sub-23 não conquistem pontos, pois só existem 3 no pelotão "profissional": Amaro Antunes, Valter Pereira (Carmim-Prio) e Daniel Freitas (Efapel-Glassdrive). O que faz a federação para incentivar as equipas nacionais a apostarem nos jovens? Diz que a selecção da Volta é para sub-23 e elites de 1º e 2º ano mas convoca "jovens" de 26, 27 e 30 anos. Assim vamos nós. Tenho pena pelo caminho que o ciclismo português está a tomar. Desde este espaço de opinião, tento contribuir com críticas construtivas, e mesmo que não possam estar no próximo Mundial, espero ainda ver o Fábio Silvestre, o Amaro Antunes, o Pedro Paulinho ou outro destes jovens nos melhores palcos internacionais.



Correcção: Apesar de só ter conquistado direito a 3, Portugal levará 4 elites. Isto porque Eslováquia e Suíça ocuparam posições que dariam lugar a 9 vagas mas não cumpriram todos os requisitos (mínimo de ciclistas a pontuar no World Tour). Assim sendo, Eslováquia e Suíça ficam limitadas a 6 ciclistas e Portugal ganha uma vaga adicional, mas não por mérito próprio, não retirando sentido a nada do que foi escrito inicialmente.

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