sábado, 15 de setembro de 2012

Volta ao Algarve, porquê sempre em risco?

Sky "engraçou" com o Algarve. Wiggins, Porte e Boasson Hagen
Uma vez mais, surge na Comunicação Social o alerta de que a Volta ao Algarve está em risco. É verdade, a Volta ao Algarve está mesmo em risco para o próximo ano, como esteve para este e como estava nos anteriores, podendo mesmo não se realizar em 2013 ou ter que mudar significativamente o seu formato. A situação é delicada e merece ser analisada. Afinal, porque está a Volta ao Algarve em constante risco?

As palavras


Rogério Teixeira, presidente da Associação de Ciclismo do Algarve (ACA), um dos grandes responsáveis por a Volta ao Algarve ser o que tem sido nos últimos anos (há mais responsáveis e o Rogério faz questão de o realçar publicamente), enviou uma carta aberta e prestou depois declarações à Agência Lusa. Naturalmente essas declarações foram enviadas para os vários órgãos de comunicação social clientes da Lusa (é para isso que são clientes), que se limitaram a fazer copy-past. Por isso, o que pode ser lido no site do Record, é o mesmo que n'O Jogo, RTP, Sapo, etc, etc. Só n'A Bola não é igual porque apenas publicaram uma parte do artigo da Lusa.

O problema apresentado por Rogério Teixeira é o mesmo dos últimos anos: a Volta ao Algarve está em dívida porque outras instituições estão em dívida para com a Volta ao Algarve.
"Penso que se não conseguirmos ultrapassar este impasse, que é o facto de não recebermos o dinheiro das autarquias, e se não conseguirmos pagar o que devemos, dificilmente nos podemos lançar para outra loucura que é organização a Volta ao Algarve". 
"O próprio contrato-programa assinado entre a Federação e o Estado, cuja verba pretendemos utilizar para pagar à RTP a produção do directo das etapas da Volta ao Algarve 2012, também ainda não foi liquidado. Assim sendo, é impossível fazer face aos encargos".
São declarações do próprio Rogério Teixeira, com o qual sou totalmente solidário, tal como sou para com os outros dirigentes da ACA que trabalham para levar a Volta ao Algarve para a frente, a Prova de Abertura, o Circuito do Restaurante Alpendre, a Volta ao Município de Loulé e outras provas, que eram ainda mais antes da crise levar ao final da Volta ao Sotavento Algarvio e mais recentemente ao final da Volta ao Concelho de Albufeira.

O diagnóstico


Vou tentar explicar muito basicamente alguns conceitos de contabilidade, prometendo ser breve e claro, mas se houver dúvidas, coloquem-nas através de comentários e eu responderei.

"Receita" e "recebimento" são coisas distintas, tal como o são "despesa" e "pagamento". As receitas geram activos (direitos) e as despesas geram passivo (obrigações), mas essas obrigações só podem ser cumpridas se existir dinheiro (vivo, em conta, etc) e é aí que está o problema.

Todos os anos, a ACA assina contractos com alguns municípios do Algarve comprometendo-se a organizar uma partida ou chegada nos mesmos, com a contrapartida de um determinado valor monetário. Ao assinar o contrato, a ACA (e a Volta ao Algarve) garante receitas, mas os recebimentos só costumam chegar com vários meses (ou anos) de atraso. Ou seja, mesmo que o orçamento da Volta ao Algarve gere receitas suficientes para cobrir as despesas, está dependente dos recebimentos para fazer os pagamentos.

No final de 2011, Portimão era o município português que mais demorava a pagar, com 899 dias de prazo médio de pagamentos (PMP), com Faro em sexto lugar e 642 dias. Ou seja, 2 anos, 5 meses e 16 dias em Portimão e 1 ano, 9 meses e 3 dias em Faro, sendo ainda de realçar que durante 2011 a situação se deteriorou muito, sendo expectável que em 2012 tenha continuado a piorar (ou estagnado).

"Média" significa que existem valores abaixo e valores a cima, ou seja, pagamentos que são feitos pelas Câmaras Municipais mais rapidamente e outros de forma mais morosa, mas olhando a estes valores médios, podemos concluir que a chegada do contra-relógio da edição 2012 só será paga no início de Agosto de 2014 e que pela partida da 2ª etapa a ACA terá que esperar até Novembro de 2013. Olhando aos restantes municípios que receberam partidas ou chegadas da Volta ao Algarve 2012, Loulé (duas partidas e uma chegada), tinha no final de 2011 um PMP de 260 dias, Lagoa (uma partida e uma chegada) 245 dias, Albufeira (uma chegada) 238 dias, Tavira (uma chegada), 144 dias e Castro Marim (uma partida) 43 dias. É de realçar que as duas partidas no concelho de Loulé foram no Hotel Dunas Douradas e na Marina de Vilamoura, acreditando eu que uma parte significativa do valor acordado seria de responsabilidade de empresas privadas (só assim faz sentido).

Wiggins começou a temporada no Algarve
Mas olhando novamente para estes valores (que são médios, realço), sete meses após o final da Volta ao Algarve 2012, ainda há muito dinheiro para receber relativo a 2012, algum de 2011 e até de anos anteriores, pois houve municípios que deixaram de receber a prova exactamente devido ao não cumprimento dos contractos estabelecidos. Sem receber, a ACA não pode pagar prémios, policiamento (principalmente policiamento) nem cumprir com outros compromissos.

Esta situação não é caso isolado da Volta ao Algarve, e por exemplo a Volta a Portugal costuma demorar mais de um ano a pagar os prémios dos ciclistas. Porém, o Algarve tem apenas 16 municípios para receber partidas e chegadas, enquanto Portugal tem 308. A PAD tem muito mais por onde escolher e pode escapar aos piores pagadores, faltando agora saber o que fará com Mondim de Basto, que decidiu e tornou público que não iria pagar a chegada à Senhora da Graça deste ano. Já a ACA, de entre os 16 municípios algarvios, pode automaticamente excluir alguns deles, que não recebem partidas nem chegadas desde há muitos anos a esta parte (alguns com dívidas muito antigas, como referi).

A situação relativa a 2012 é ainda pior porque até o Estado está em dívida. Ou seja, a Associação de Ciclismo do Algarve está à espera que o Estado pague uma dívida para depois poder pagar a sua dívida à RTP... que pertence ao Estado.

Nos últimos anos a ACA tem conseguido levar a Volta ao Algarve para a estrada porque, com o aproximar da prova, consegue recuperar parte do que lhe é devido. Não tanto quanto seria desejável mas pelo menos o suficiente para a prova avançar. Porém, segundo sei, um dos principais credores da ACA é a GNR e se as dívidas à GNR não forem saldadas, a prova poderá não existir em 2013, pois sem policiamento não há Volta ao Algarve.

Soluções


Recordo que a partir de 2013 e Governo comparticipará o pagamento do policiamento das provas desportivas praticadas na via pública, o que será uma importante ajuda para os organizadores de provas de ciclismo em Portugal e, claro, para o próprio ciclismo português. O diploma que definirá as condições desta comparticipação ainda não foi publicado em Diário de República e portanto ainda não é conhecido, mas, se for algo com sentido (e acredito profundamente que será) os organizadores notarão uma clara melhoria. Desta forma, a ACA conseguirá reduzir as suas despesas para a Volta ao Algarve 2013, mas o problema não fica resolvido.

O ideal seria que todas as dívidas à ACA fossem pagas. Assim, autarquias, Estado e outros devedores pagavam o que tinham a pagar de anos anteriores e a ACA ganhava liquidez para saldar o seu passivo, o que é fácil de explicar mas muito difícil de executar. Perante a impossibilidade de isso se tornar realidade, então que pelo menos a ACA consiga recuperar o suficiente para levar para a estrada a Algarvia 2013, como tem acontecido nos últimos anos.

Tony Martin venceu em 2011 e voltou em 2012
como campeão mundial de crono
Outra solução passa por aumentar as receitas provenientes de patrocinadores privados, criando novos produtos que possam ser vendidos, para além das partidas e chegadas geralmente vendidas a autarquias. Há muito por explorar nesse sentido e é algo que compreendo, ou não fosse o martketing a minha área de estudos. Infelizmente, é difícil para organizações amadoras conseguirem explorar todo o potencial das suas provas, por muito boa vontade que tenham (e a ACA tem) e foi para isso que a ACA se associou à SC Sports e à RM Premium Events nos últimos anos. Também infelizmente, não foi suficiente e a prova continua em situação delicada.

Não conseguindo explorar todo o potencial da prova no actual modelo (5 dias de grandes equipas e grandes figuras) para aumentar as receitas, o caminho terá que passar por baixar a prova de escalão ou reduzir um dia de competição. Baixar a prova de escalão resultaria na redução de custos mas afastaria todas as grandes equipas, retirando o interesse que a prova tem agora; enquanto a redução de um dia diminuiria a dependência das autarquias e assim seria possível escapar aos municípios que mais tardam em pagar, mas também poderia afastar algumas equipas de topo. Em ambos os casos, as consequências a longo prazo poderiam ser muito negativas, pois seria difícil voltar a conquistar o lugar que a Volta ao Algarve tem actualmente.

Volto a dizer, esses caminhos de redução da despesa tão drasticamente apenas serão necessários se a Volta ao Algarve não conseguir aumentar as suas receitas, nomeadamente através de privados. Durante os últimos anos, a SC Sports e a RM Premium Events trouxeram novos patrocinadores para a prova... mas parece que não o suficiente.

Os próximos meses serão importantíssimos para o futuro da Volta ao Algarve, até porque devem estar para breve eleições na Associação de Ciclismo do Algarve.

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