terça-feira, 25 de março de 2014

Cinco históricos do pavé

A época das corridas de pavé está aí em força e aproximam-se Volta a Flandres e Paris-Roubaix. Mas se estas clássicas são tão importantes nos dias de hoje, muito se deve aos grande campeões que fizeram a sua história e esta crónica recorda cinco dos maiores. São histórias de quem foi protagonista na história da Volta a Flandres e do Paris-Roubaix.

Rik Van Steenbergen (1944-1961)

Achiel Buysse tinha vencido três das últimas quatro edições, era o recordista de triunfos da Volta a Flandres e partia como principal candidato à vitória, mas um jovem de 19 anos bateu toda a concorrência na edição de 1944, Rik Van Steenbergen. Rik I, como ficaria conhecido, era demasiado jovem mas tinha conquistado o direito a correr a Ronde quando no ano anterior venceu o campeonato nacional.

Se hoje em dia basta estar numa equipa World Tour para poder disputar as melhores corridas e existem contratos com várias temporadas de duração, naquela época era bem diferente. As equipas procuravam os melhores ciclistas e estes podiam representar várias equipas ao longo do ano. Por exemplo, podiam representar uma na Bélgica, mas se essa não ia ao Tour, poderiam representar outra na Volta a França. De Van Steenbergen diz-se que, onde estivesse o dinheiro, ele também estava. Bastava que lhe dissessem onde era a prova, a que horas começava, quanto lhe iam pagar e quanto demoravam a pagar. Talvez por isso tenha participado em tão poucas grandes voltas, preferindo provas de um dia. O resultado são mais de 1600 vitórias, sobretudo na estrada (desde o Campeonato do Mundo e o Paris-Roubaix a pequenos critérios) mas também muitas nas pistas.

Em 1946 venceu pela segunda vez a Ronde e em 1948 o Paris-Roubaix, algo que alguns grandes campeões de Flandres nunca tinham feito nem fariam, como o próprio Buysse.

Uma das suas vitórias mais marcantes aconteceu no Paris-Roubaix 1952. Consigo estava Fausto Coppi, que então já tinha vencido três Giros, um Tour e o Paris-Roubaix de 1950. Além das já citadas conquistas de Van Steenbergen, o belga tinha sido campeão mundial em 1949, impondo-se num sprint a três em que Fausto Coppi se ficou pelo bronze. Van Steenbergen bateu Coppi e venceu o seu segundo Paris-Roubaix. Meses depois, numa das suas raras participações, seria segundo no Giro atrás de Fiorenzo Magni, tricampeão do Giro e da Ronde. Tempos em que era possível o mesmo ciclista vencer provas tão distintas.

Do seu incrível palmarés constam duas Voltas a Flandres, dois Paris-Roubaix, um Milano-Sanremo, duas Flèche Wallone e três títulos mundiais, um recorde que detém com Alfredo Binda, Eddy Merckx e Oscar Freire.

Desde 1991 que se realiza o GP Rik Van Steenbergen, que depois da morte do ex-ciclista em 2003 se tornou Memorial Rik Van Steenbergen. Em 2012 foi vencido por Theo Bos, em 2013 não se realizou mas este ano volta a estar no calendário da UCI, em setembro.
Rik Van Steenbergen, um dos quatro tricampeões mundiais

Rik Van Looy (1953-1970)

Copenhaga, cidade de bicicletas, recebia os seus quartos Campeonatos Mundiais em 1956 quando Rik Van Steenbergen, Rik I, alcançou o seu segundo título. Logo atrás de si ficou Van Looy, Rik II.

Em 54 disputou algumas provas com a Bianchi e com Fausto Coppi aprendeu como liderar uma equipa, o que lhe seria bastante útil quando mais tarde assumiu o comando da Faema, dirigida inicialmente por Learco Guerra, ex-vencedor do Giro e ex-campeão mundial.

Em 55 enganaram Van Looy. Convenceram-no a ir ao Giro com a promessa de que seria uma boa corrida para ele, que preferia os sprints às montanhas. Numa altura em que ainda estava a cumprir serviço militar, Van Looy não tinha a preparação necessária e desistiu na nona etapa. Voltaria em 59 para ser 4º e vencer quatro etapas. Ao longo da carreira venceu 12 no Giro, 9 no Tour e 18 na Vuelta, sendo o sexto ciclista com mais vitórias de etapas em grandes voltas.

Mas foi nas provas de um dia que se destacou. Em 58 venceu a Milão-San Remo e iniciou a caminhada para se tornar o primeiro ciclista a vencer os cinco Monumentos. A Volta a Flandres foi em 59 e 62, o Paris-Roubaix em 61, 62 e 65, a Liège-Bastogne-Liège em 61 e o Giro di Lombarida em 59. Em 60 e 61 foi campeão mundial.

Em 1967 teve a sua última oportunidade para vencer um Monumento. Pela primeira a floresta de Arenberg estava no trajeto do Paris-Roubaix, Van Looy entrou no Velódromo no grupo que comandava a corrida, composto por uma dezena de homens, e num sprint muito apertado foi segundo. Nesse grupo estava também um jovem chamado Edouard Merckx, oitavo nesse dia. Van Looy não voltaria a vencer um Monumento, mas ainda venceria novamente no Paris-Tours, a única grande clássica que o tal Edouard nunca conquistou.

Van Looy impô-se por três vezes na Gent-Wevelgem (onde é um dos cinco recordistas) e quatro no Prémios E3 de Flandres (onde apenas é superado por Tom Boonen).
Rik Van Looy, campeão do mundo em título, vence a Volta a Flandres 1962

Eddy Merckx (1965-1978)

Foi na Solo-Superia de Van Looy que em 65 se tornou ciclista profissional aquele que viria a ser o melhor de todos os tempos: Eddy Merckx. Os caminhos separam-se no ano seguinte quando Merckx se mudou para a Peugeot e assim nasceu a rivalidade. Van Looy contra Merckx, o novo contra o velho. "Se Merckx é quem manda, terá que o provar", disse Rik II em 68, depois do seu compatriota perder a Milano-Sanremo e desistir do Paris-Nice (porque Merckx era humano e também falhava).

Antes do Paris-Roubaix desse ano, Van Looy prometeu que ia causar dor nas pernas dos "miúdos", mas três furos não lhe deram oportunidade para nada. A vitória seria para Merckx, com a camisola arco-íris do seu primeiro título mundial. No ano seguinte estreou-se a vencer na Volta a Flandres mas no Paris-Roubaix foi derrotado por Walter Godefroot, belga que tinha vencido o Porto-Lisboa de 67.

Em 1970, já com um Giro e um Tour no bolso, voltou a mostrar quem mandava em Roubaix. Segundo os relatos da época, furou a 56 quilómetros da meta, reentrou na cabeça-de-corrida e venceu. Com cinco minutos de avanço sobre Roger De Vlaeminck. Era o primeiro pódio de De Vlaeminck, que também ele merece lugar próprio nesta crónica, mas é impossível falar de Merckx sem falar de De Vlaeminck e falar de De Vlaeminck sem falar de Merckx.

Cinco dias depois voltariam a encontrar-se no pódio, no caso de Liège, quando De Vlaeminck conquistou o seu primeiro Monumento e Merckx foi terceiro. E logo a seguir seria o pódio da Flèche Wallone o local de encontro, com De Vlaeminck 3º e Merckx vencedor.

Com a já mencionada exceção do Paris-Tours, Merckx conquistou tudo o que importava naquela época. Cinco Giros e outros tantos Tours, uma Vuelta, três Mundiais e um total de dezanove Monumentos. Entre eles, duas Voltas a Flandres e três Paris-Roubaix. Também dois Circuitos Het Volk (agora Het Nieuwsblad) e três Gent-Wevelgem (é outro dos recordistas).
Eddy Merckx, também ele com a camisola de campeão do mundo, arranca para a vitória no Paris-Roubaix 1968

Roger De Vlaeminck (1969-1984)

De Vlaeminck teve o azar de pertencer à geração de Merckx e de ficar na sua sombra. O melhor resultado numa grande volta foi um quarto posto no Giro e faltou-lhe um título mundial, mas no Paris-Roubaix nunca houve ninguém melhor que ele. O Monsieur Paris-Roubaix (ou o Cigano, como também era conhecido) venceu o Inferno do Norte por quatro ocasiões e noutras tantas foi segundo.

Nas catorze ocasiões em que desceu ao Inferno do Norte, apenas desistiu uma. Nas treze restantes, o pior resultado foi um sétimo posto. "Quando estás em forma, dificilmente tens um furo porque estás mais lúcido. Furei uma vez, em 1970, e nunca mais em dez anos. O outro segredo é a confiança. Eu começo sempre com a ideia que vou vencer" disse um dia.

A sua primeira conquista em Roubaix foi em 72 e a partir do ano seguinte começaria a representar a Brooklyn. Por esta altura já não era frequente os ciclistas correram por várias equipas durante a mesma temporada. Apesar do nome e do histórico equipamento inspirado na bandeira dos EUA, a Brooklyn era uma equipa italiana, patrocinada por marca de pastilhas elásticas com o mesmo nome.

Em 75 deu-se uma das suas mais emblemáticas vitórias. Entrou no Velodromo com os seus compatriotas André Dierickx, Marc Demeyer e Eddy Merckx, novamente campeão mundial. Os quatro percorreram a primeira volta a um ritmo muito baixo, evitando o lançamento do sprint. Já na última volta, Eddy Merckx arrancou, saiu da última curva na frente mas De Vlaeminck veio por fora e conseguiu bater o Canibal sobre o risco.

Em 77 tornou-se o primeiro ciclista a vencer por quatro vezer o Paris-Roubaix, mas só nesse ano conseguiu a sua primeira Volta a Flandres, tornando-se assim o terceiro da história a vencer os cinco Monumentos, depois de Van Looy e Merckx. Não deixa de ser curioso que para o melhor ciclista de sempre do Paris-Roubaix, o monumento mais difícil de conquistar tenha sido a vizinha Volta a Flandres. 

Ao longo da sua rica carreira, além das já mencionadas vitórias, obteve três na Milano-Sanremo, duas na Lombardia, dois Circuitos Het Volk, um Prémio E3 de Flandres e oito títulos mundiais de ciclocrosse, entre muitos mais sucessos. Se hoje parece comum os belgas dominarem no crosse, antes de De Vlaeminck nunca nenhum tinha sido campeão mundial.
Roger De Vlaeminck a caminho de mais uma vitória em Roubaix

Johan Museeuw (1988-2004)

Desde De Vlaeminck até ao seguinte "histórico" houve um pequeno interregno. Johan Museeuw iniciou a sua carreira profissional em 88 na ADR, onde seria colega de Greg LeMond em 89, quando o norte-americano conquistou aquela Volta a França durante quatro dias liderada por Acácio da Silva.

Ao longo da década de 90 foi um monstro das clássicas. O Leão de Flandres venceu por duas ocasiões a Taça do Mundo e foi o recordista de triunfos em provas da Taça, com onze. Também venceu Amstel Gold Race, Paris-Tours, Vattenfall Cyclassics e Campeonato de Zurique (2x), mas foi sobre pedras que se destacou, com muitas vitórias mas também muitos segundos e terceiros lugares. Na Volta a Flandres foram três vitórias num total de oito pódios e em Roubaix o mesmo número de vitórias entre seis pódios. A estas conquistas juntam-se dois Het Volk e dois Prémios E3.

Foi protagonista de alguns dos desfechos mais marcantes do Paris-Roubaix nos últimos 20 anos. Em 1996 entrou no Velódromo com os seus companheiros Gianluca Bortolami (2º) e Andrea Tafi (3º), dando à Mapei uma tripla história e deixando o quarto classificado a mais de dois minutos e meio. E em 2001 voltou a estar no pódio acompanhado por dois colegas, desta vez em segundo, atrás de Servais Knaven e seguido do então campeão mundial Romans Vainsteins, todos da Domo-Farm Frities.

Ao longo de quase toda a carreira foi fiel a Patrick Lefevere. Em 95, quando Lefevere deixou a GB-MG para a então fundada Mapei-GB, Museeuw foi com ele. Em 2001, quando Lefevere deixou a Mapei-Quick Step e rumou à Domo-Farm Frities, o Leão de Flandres esteve mais uma vez com ele. E quando a Mapei deixou o patrocínio da equipa no final de 2002, foram figuras principais da Quick Step-Davitamon, enquanto a empresa Domo Frities se juntou à Lotto.

Depois de dois graves acidentes que colocaram a sua carreira em risco, o primeiro em 98 provocado por uma queda na floresta de Arenberg que quase levou à amputação de uma perna, e o segundo no acidente de trânsito, aos 37 anos ainda tinha muito a dar à sua equipa. Uma das suas tarefas na Quick Step seria ajudar a nova estrela de Lefevere, o jovem Tom Boonen que tinha estado ao seu lado no seu último pódio de Roubaix. Museeuw venceu aos 36 anos e Boonen foi terceiro aos 21.

Museeuw escolheu retirar-se na Primavera de 2004, com uma último objetivo: igualar o recorde de quatro vitórias de Roubaix de De Vlaeminck. O veterano Johann e o jovem Tom estiveram sempre muito atentos, garantindo que a Quick Step estava presente em todas as movimentações perigosas. Mas foi Museeuw que, no setor de Carrefour de l'Arbe a 17 km da meta, lançou o ataque que deixaria consigo apenas Magnus Bäckstedt, Tristan Hoffman, Roger Hammond e Fabian Cancellara. A discussão da vitória estava limitada aos cinco, Museeuw estava perante uma oportunidade de ouro de igualar De Vlaeminck, mas um furo a sete quilómetros do final arruinou a sua corrida. Terminou no quinto lugar, de mão dada com o seu rival Peter Van Petegem, que tinha também ele furado quando Museeuw lançou o ataque decisivo. A sua última competição foi poucos dias depois, o Scheldeprijs, vencido por Tom Boonen. Estava passado o testemunho.
Johan Museeuw conquista o Paris-Roubaix 2000

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Próximas clássicas de pavé:
26/03 - Através de Flandres Dward door Vlaanderen
28/03 - Prémio E3 de Flandres E3 Prijs Vlaanderen (World Tour) - Eurosport
30/03 - Gent-Wevelgem (Wourld Tour)
06/04 - Volta a Flandres / Ronde van Vlaanderen (World Tour) - Eurosport
13/04 - Paris-Roubaix (World Tour) - Eurosport e TVI 24

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Outros artigos sobre clássicas de pavé e a sua história:
22/02/2013: Que comecem as clássicas da Primavera

27/03/2013: Histórias das cinco clássicas Monumento

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Últimos 10 Monumentos que Cancellara terminou (na Ronde 2012 desistiu por queda). Fenómeno!

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