sexta-feira, 21 de março de 2014

Milano-Sanremo: percurso, favoritos e antevisão

Dois que já venceram e um que um dia a vencerá
Para a maioria das pessoas, a primavera começa quando o dia e a noite se igualam com 12 horas de duração, os dias continuam a crescer e as noites cada vez mais curtas a caminho do verão. No hemisfério norte isto acontece a 20 de março e no hemisfério sul acontece entre o dia 22 e 23 de setembro. Para os adeptos do ciclismo, a primavera começa quando os ciclistas saem de Milão a caminho de São Remo, naquele que é o primeiro monumento da temporada. A Primavera, época folheada de clássicas, vai para a estrada domingo.

Percurso

Para melhor compreender o percurso da Milano-Sanremo deste ano (o que era para ser e o que será) é necessário olhar para o passado.

Ainda que o terreno fosse plano quase na totalidade, nos primeiros anos de Milano-Sanremo uma chegada com um sprint numeroso era praticamente impossível. Melhor dito: não havia chegadas em pelotão no ciclismo daquela época. O peso das bicicletas, o equipamento e muitos outros fatores faziam com que a lei do mais forte fosse fazendo a sua seleção muito antes da reta da meta.

Nos últimos anos da década de 50 o grupo que discutia a vitória (ou os primeiros lugares) estava cada vez mais numeroso e em 1960 os organizadores incluíram no percurso a subida ao Poggio di Sanremo (3,7 km a 3,7%), já na parte final, que se juntava ao Passo del Turchino (a meio da prova). Bom, os espanhóis contam a história de outra forma. Dizem eles que a subida ao Poggio foi incluída para impedir que Miguel Poblet dominasse a prova. É que o espanhol conquistou Sanremo em 57 e 59 (com um segundo lugar pelo meio) e já levava 14 vitórias nos últimos quatro Giros (terminaria carreira com 20). Sem o Poggio, dizem, teria continuado a vencer.


Porque com imagens é mais fácil:
como era o percurso de 1982 a 2007 e como ficou depois
Sempre com o intuito de tornar a Classicissima mais dura e mais difícil para os ciclistas mais pesados, em 1982 (quando já existia uma maior diferença entre trepadores e sprinters) foi acrescentada outra subida antes do Poggio, a subida a Cipressa (5,6 km a 4,1%). E em 2008 os organizadores adicionaram a subida a Le Mànie (4,7km a 6,7%) a 90 km do final. Pela distância a que estava, a subida não era decisiva mas ajudava a causar desgaste.

Para 2014 estava anunciado a subida a Pompeiana, entre a Cipressa e o Poggio, sendo assim três colinas nos últimos quarenta quilómetros, praticamente sem descanso entre elas (ver imagem seguinte). O final ficaria mais duro e a subida a Le Mànie deixaria de ser necessário, até porque era algo perigoso, e foi retirada. Os sprinters puros cortaram a Milano-Sanremo do seu programa e muitos outros ciclistas começaram a sonhar com a vitória neste Monumento, mas a prova é organizada pela RCS Sport, especialista em montar e desmontar percursos. Já estávamos em fevereiro quando a subida a Pompeiana foi retirada dos planos devido ao mau estado das estradas, estando agora prevista para 2015.
Percurso que estava previsto para 2014
Sem Le Mànie e sem Pompeiana, serão três as subidas no percurso: Passo del Turchino ao km 140, Cipressa a 22 km e Poggio a 6 km do final, na Marginal Italo Calvino, onde a prova termina desde 2008. Não será "o percurso tradicional", porque a Milano-Sanremo sempre sofreu alterações, mas será algo mais tradicional do que estava previsto com Pompeiana. E será o percurso mais acessível dos últimos anos. Sanremo é e deve continuar a ser uma prova em que os sprinters possam acreditar na vitória.
Percurso da Milano-Sanremo 2014

Favoritos

Peter Sagan (Cannondale) é o favorito número 1. O eslovaco foi quarto em 2012 e segundo no ano passado, batido apenas por Gerald Ciolek. Certamente haverá ataques nas últimas, mas Sagan tem o necessário para aguentar qualquer roda na Cipressa e no Poggio e para bater os resistentes ao sprint.

De entre os homens que tentarão endurecer a corrida nas subidas, Fabian Cancellara (Trek) é quem mais se destaca. O suíço venceu a prova em 2008, foi segundo em 2011 e 2012 e terceiro em 2013. Os seus dois grandes objetivos da temporada estão em Flandres e Roubaix, mas não deixará de lutar por um segundo triunfo em Sanremo. No contrarrelógio final do Tirreno-Adriático mostrou-se em crescente de forma, apenas superado por Malori.

Um dos homens que bateu Cancellara nos últimos anos foi Simon Gerrans (Orica), vencedor em 2012 e um dos candidatos ao triunfo no próximo domingo. Desde que trocou a Sky pela GreenEdge, Gerrans está um ciclista melhor, venceu em janeiro o Tour Down Under e ninguém duvida que, na sua melhor forma, poderá voltar a vencer a Classicissima.

A Omega Pharma-Quick Step não poderá contar com Tom Boonen, que prefere passar estes dias junto da mulher que sofreu um aborto involuntário. Mas a formação belga conta com Mark Cavendish e Michal Kwiatkowski. Cav terá saído muito motivado da vitória de etapa que a sua equipa lhe ofereceu no Tirreno-Adriático e já venceu em Sanremo num percurso mais duro, em 2009. Kwiatkowski teve um dia péssimo no último fim de semana, mas está em grande forma, como mostrou no último dia, em que apenas o superaram homens que se tinham poupado durante os dias anteriores.

A outra grande equipa belga, Lotto-Belisol, conta André Greipel em grande forma e ainda as alternativas Jürgen Roelandts e Tony Gallopin. Com Philippe Gilbert a mostrar-se melhor do que no período homólogo de 2013 (para darmos um toque de economês ao ciclismo), Greg Van Avermaet, Taylor Phinney e Thor Hushovd, a BMC tem várias alternativas para jogar... ou um caso complicado de lidar.

A FDJ vai para Itália com a legítima esperança de ver Arnaud Démare a lutar pela vitória mas depois do Paris-Nice não podemos excluir Arthur Vichot, homem menos rápido mas mais completo. Nacer Bouhanni ficará de fora, contra a sua vontade.

Menos versáteis, a Giant deposita todas as suas esperanças numa chegada ao sprint para John Degenkolb e a MTN em Gerald Ciolek, o surpreendente vencedor do ano passado.

Entre os homens que podem jogar a sua carta entre a Cipressa e o Poggio, está Vincenzo Nibali, Tom-Jelte Slagter, Diego Ulissi e Filippo Pozzato (vencedor em 2006). Em caso de sprint, a Lampre tem ainda Sacha Modolo (4º em 2010, com 22 anos) e a Katusha Alexander Kristoff.

São muitos homens, mas esta é a Milano-Sanremo e basta olhar para a edição do ano passado vencida por Ciolek para perceber o quão imprevisível pode ser. Em princípio este ano não haverá neve, o percurso não será encurtado, mas nunca se sabe em que subida (ou descida) se fará a seleção. Ou se será chegada ao sprint.

***** Sagan
**** Cancellara, Cavendish, Gerrans e Kwiatkowski
*** Greipel, Gilbert, Démare, e Degenkolb
** Modolo, Kristoff, Ciolek, Gallopin, Van Avermaet, Phinney, Ulissi, Pozzato, Vichot, Nibali e Slagter


Chave-da-corrida

O Poggio di Sanremo e o vento.

Nas últimas 15 edições, 9 acabaram ao sprint, com o grupo mais ou menos numeroso, mas ao sprint, e em 5 outras a movimentação decisiva deu-se na subida ou na descida do Poggio di Sanremo. Na outra, em 2011, a prova foi decidia na descida de Le Mànie, onde se deu uma grande queda e o pelotão ficou muito reduzido para os últimos 90 quilómetros. Todas as estatísticas têm a sua margem de erro.

E porque importa o vento? Porque os últimos três quilómetros são praticamente quase todos eles na mesma direção e se o vento estiver forte e desfavorável reduz bastante as possibilidades de alguém isolado (ou num grupo reduzido) contrariar o pelotão.


Transmissão

A partir das 13h00 em direto no Eurosport 1, com final agendado entre as 15h50 e 16h30. Se optarem por utilizar as gravações automáticas, tenham atenção porque na programação do canal a prova termina às 16h00. Por uma questão de segurança, gravem também o jogo de futebol que está agendado para começar às 16h00.

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Sergio Henao registou valores sanguíneos que levaram a que a equipa o suspendesse provisoriamente. Por oito semanas.

Diz a equipa que os valores registados podem ter como origem a variação de altitude, pelo que o ciclista será analisado por "especialistas independentes".

Com a escassa informação (e toda ele vaga) que há sobre o assunto, parece-me que Henao terá tido uma grande variação nos valores sanguíneos. Quem leu a trilogia de artigos que assinalaram os dez anos desde a morte de Marco Pantani, deverá lembrar-se que as variações são consideradas normais dentro de certos limites e no caso do hematócrito é aceitável uma variação até 10%. Aliás, um dos propósitos desses três artigos também era dar a conhecer um pouco mais sobre a evolução do doping e do anti-doping ao longo da década de 90 e início do novo século, sempre com o primeiro alguns passos à frente do segundo.

No caso de Henao, poderá ter tido uma variação maior do que é considerado normal. Não sei, digo eu. De referir que estas variações não era puníveis antes, mas deste que existe Passaporte Biológico são.

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O filho de Andrei Kivilev pede ao diretor do Tour que declare o pai como vencedor da edição de 2001.

Lembram-se de uma fuga de 35 minutos que deu alguns dias de amarelo a François Simon? Kivilev ia nessa fuga e terminou esse Tour em quarto, atrás de Armstrong, Ullrich e Beloki. Faleceu após uma queda no Paris-Nice 2003, quando o filho tinha seis meses.

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Marta Domínguez, ex-campeã europeia de 5000m e mundial de 3000m obstáculos foi absolvida pela Real Federação Espanhola de Atletismo, mas a IAAF deverá recorrer ao TAS. Marta Domínguez foi detida em 2010 devido à Operação Galgo (onde estava metido o treinador de Francis Obikwelu), o caso foi arquivado, e no ano passado a IAAF (equivalente à UCI do atletismo) mandou a RFEA abrir inquérito devido a irregularidades com o passaporte biológico em 2009.

A ex-atleta é senadora desde 2011. Madrid (e Espanha) era candidata a sede dos Jogos Olímpicos de 2012, 2016 e 2020, tendo sido derrotada nas três ocasiões. Em setembro passado, quando foi decidido que Tóquio seria a sede os Jogos de 2020, os membros do Comité Olímpico Internacional não quiseram deixar passar a oportunidade para questionar os representantes da candidatura espanhola sobre a sua (débil) política anti-doping e a Operação Puerto. Está tudo ligado.

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