terça-feira, 18 de março de 2014

Um Contador maior que Dois Mares

O Tirreno-Adriático começou como se esperava, com a Omega Pharma-Quick Step a vencer o contrarrelógio por equipas. Se os bicampeões da especialidade têm uma equipa soberba para qualquer crono coletivo, para este tinham a equipa perfeita, misturando sprinters como Cavendish, Renshaw e Petacchi com contrarrelogistas como Tony Martin e Kwiatkowski.

Mas se o primeiro dia seguiu o manual de instruções, o segundo foi um grande surpresa com Matteo Pelucchi (IAM Cycling) a bater Démare, Greipel e Sagan, apenas para citar alguns dos adversários de maior nomeada. Também o irlandês Sam Bennet, que venceu a Clássica de Almeria há duas semanas e pode dar que falar nos próximos anos.

Em estilo de vingança da Strade Bianche, Peter Sagan (Cannondale) venceu a terceira... diante de Kwiatkowski. O polaco assumiu a liderança, mas nos dois dias seguintes Alberto Contador (Tinkoff-Saxo) não esteve para brincadeiras, mandou arrumar os brinquedos e foi-se embora por entre as montanhas com o seu Tirreno-Adriático.

Na chegada em alto do quarto dia "apenas" venceu, com um segundo de vantagem sobre Quintana e dez sobre Kwiatkowski, que mantinha a liderança. Mas no dia seguinte atacou a mais de 30 quilómetros da meta numa montanha duríssima, alcançou os fugitivos e deixou Quintana quase a dois minutos. Quem ainda esteve mais próximo da performance de Contador foi Jean-Christophe Péraud, quinto a minuto e meio do espanhol. Pelo meio ficaram três dos integrantes da fuga do dia.

Kwiatkowski foi 38º, a seis minutos, num dia péssimo para ele. Obviamente que o recente vencedor da Algarvia vale muito mais do que isso, mas há dias para esquecer. Ou, como fazem os grandes profissionais, refletir bem sobre eles e fazer com que não se repitam.

De qualquer forma, por muito bem que Kwiatkowski estivesse naquilo dia, não havia nada a fazer contra um Alberto Contador que deu uma das maiores exibições da sua carreira. Imperial, ficou ali com o Tirreno-Adriático conquistado, o primeiro do seu palmarés, onde consta Giro, Tour, Vuelta, Paris-Nice, Volta ao País Basco e Critérium du Dauphiné.

Mark Cavendish (Omega) venceu a sexta etapa após um trabalho perfeito por parte da sua equipa, que representa uma injeção de motivação para Sanremo (próximo domingo). Adriano Malori (Movistar), que já tinha vencido o contrarrelógio de San Luis e sido segundo em Sagres, foi o melhor no crono do último dia, onde Quintana foi o melhor dos homens da geral, superando Péraud, Kreuziger e até Contador. Mas na geral, 2'05'' separaram o colombiano e o espanhol, a mesma distância que separou Quintana do 14º classificado.

Apenas para que se tenha uma melhor percepção do quão demolidora foi a performance do ciclista da Tinkoff-Saxo, olhemos para alguns números (aviso: os número podem ser chatos e a análise confusa).

No Tirreno-Adriático do ano passado, o segundo classificado (Froome) ficou mais próximo do primeiro (Nibali) do que do terceiro (Contador). Na Vuelta do ano passado o mesmo aconteceu. No Tour de Froome, 4 minutos separam 1º e 2º, e se duplicarmos a distância não chegamos ao 6º. No Giro de Nibali, 4'43'' separaram 1º e 2º e se duplicarmos não chegamos ao 8º. Olhemos para outras vitórias de Froome. Na Romandia, 54'' separaram 1º e 2º e se duplicarmos essa distância não chegamos ao 3º (por um segundo). No Dauphiné 1º e 2º eram colegas, mas o 3º ficou a 2'12'' da vitória e se duplicarmos essa distância não chegamos ao 9º (novamente por um segundo). Neste Tirreno-Adriático, 2'05'' separaram 1º e 2º e se duplicarmos essa distância chegamos ao 14º! Isto significa que o desequilibro de Contador face aos seus adversários, quando comparado com os outros casos citados, foi muito superior. Simplesmente arrasou!
Bang bang, sem adversários

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Rui Costa é atualmente o 5º classificado no World Tour. Em 2012 a primeira corrida WT de Rui Costa foi o Tirreno-Adriático, terminou em 29º, sem pontos. No ano passado optou pelo Paris-Nice, caiu ao segundo dia e desistiu, sem pontos. Em ambos os anos terminou do top-10 mas por esta altura não tinha qualquer ponto. Agora é 5º.

Como já tinha escrito no domingo, é o melhor começo de temporada da carreira do português. E apesar de não gostar de alimentar euforias, parece-me que o melhor de Rui Costa ainda está para vir.

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Há dois dias, partilhei aqui um tweet do preparador físico principal da Movistar Mikel Zabala em que este recomendava aos desportistas para não trabalharem com médicos ou preparadores com antecedentes de dopagem. Pois até parece de propósito.

Steven de Jongh, ex-ciclista que se retirou em 2009, reconheceu no final de 2012 que tinha feito uso de EPO entre 98 e 2000 por sua iniciativa. Ou seja, era ele que se fornecia a si próprio (como muitos outros, porque se encontra ao virar da esquina). Foi imediatamente despedido da Sky, onde era diretor desportivo desde a fundação da equipa em 2010, e imediatamente contratado pela Saxo-Tinkoff de Bjarnee Riis. Agora adivinhem quem é o preparador físico que tem acompanhado Contador desde a preparação invernal? Exatamente, Steven de Jongh.

Não há remédio para a credibilidade deste nosso desporto.

PS (19/03/2014, 1h30): A ligação Contador-de Jongh não é inventada nem trazida à baila pelo Carro Vassoura, mas sim pelo próprio ciclista em conferência de imprensa depois da etapa de segunda-feira, como pode ser visto, por exemplo, neste link. Depois do ciclista falar no seu trabalho com de Jongh aos jornalistas, as suas declarações foram publicadas em vários sites noticiosos, incluindo todos os "principais" internacionais dedicados ao ciclismo. Por isso mesmo, e porque a crónica já estava escrita, foi acrescendo no final como é frequente serem abordados temas mais ou menos relacionados com a crónica principal.
Para que fique bem claro que não é o Carro Vassoura a tirar estes coelhos da cartola, fica o esclarecimento.

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