domingo, 16 de março de 2014

Quando o mais forte ganha e o segundo mais forte é segundo

Assim foi o Paris-Nice. Betancur um pouco melhor que Rui Costa.
Três vitórias para o colombiano, três segundos lugares para o português
Carlos Betancur é o primeiro colombiano a vencer o Paris-Nice, impondo-se por 14 segundos a Rui Costa, que já leva seis segundos lugares neste arranque de temporada.

Richie Porte deixou o Paris-Nice ainda antes deste começar e Tejay Van Garderen foi forçado a desistir por problemas estomacais logo nos primeiros quilómetros de prova, deixando como principais candidatos ao triunfo Carlos Betancur, Rui Costa, Vincenzo Nibali e Geraint Thomas, que assim assumiu a liderança da Sky.

As três primeiras tiradas eram as mais favoráveis aos sprinters e foram vencidas por três jovens muito talentosos: Nacer Bouhanni (FDJ, 1990), Moreno Hofland (Belkin, 1991) e John Degenkolb (Giant, 1989). A partir daí iniciou-se a guerra pela classificação geral, com as batalhas de cada etapa por ganhar alguns segundos e as bonificações, num Paris-Nice que fez lembrar aquelas Voltas a Portugal que Cândido Babosa tentava ganhar nas metas volantes. Se é verdade que faltou alta montanha ou contrarrelógio, também é verdade que todos os dias se lutou pela classificação geral, com a luta pelo pódio em aberto até ao último dia.

Geraint Thomas (Sky) ganhou cinco segundos (+6 de bonificação) na quarta etapa, assumiu a amarela e já era o novo Wiggins, o novo Froome, o novo tudo. Na comunicação social e nas redes sociais o discurso era idêntico ao de janeiro do ano passado, quando venceu uma etapa semelhante no Tour Down Under. E, tal como nesse Tour Down Under, chegou à etapa mais dura (que era pouco dura) e viu a camisola saltar-lhe do corpo.

No caso foi para Carlos Betancur (Ag2r), o melhor ciclista deste Paris-Nice. Na quinta etapa o colombiano ganhou dois segundos (+ 10 de bonificação) ao grupo principal e na sexta superou nos últimos metros Rui Costa (Lampre), assumindo aí a camisola amarela, com Thomas em segundo na geral e o campeão do mundo terceiro. Somados os escassos segundos ganhos e perdidos em cada etapa, o colombiano tinha oito de vantagem sobre Thomas e dezoito sobre Rui Costa, distância que parecia irrecuperável, dado que Betancur era o mais forte em prova já com duas vitórias de etapa, contava com uma AG2R muito forte e organizada e não havia grandes dificuldades pela frente.

De qualquer forma, Rui Costa é o tipo de ciclista que em terceiro continua a olhar para os dois lugares que tem à frente. E se tinha que ir discutir bonificações, assim foi, ganhando dois segundos numa meta volante da penúltima etapa, com a sua Lampre a preparar o ataque à vitória, que lhe poderia valer mais dez de bónus. Se a AG2R esteve muito organizada, a Lampre também esteve ao nível desejado.

Tom-Jelte Slagter (Garmin), que já tinha batido Thomas num sprint a dois para a vitória no quarto dia, voltou a ser o melhor ao sexto, relegando Rui Costa para o seu quinto segundo lugar da temporada. O holandês chegou a França com apenas um dia de competição e mesmo assim levou vencidas duas etapas e, se não fosse um problema mecânico no final da quinta, quem sabe não teria sido ele o vencedor deste Paris-Nice. Apenas para que se tenha uma melhor ideia, Rui Costa e Thomas chegaram ao Paris-Nice com onze dias de competição nas pernas e Betancur com treze.

Se Slagter foi o azarado da quinta etapa, na sétima foi Thomas. O britânico caiu no início da última subida e perdeu todas as aspirações de pódio, com Rui Costa a subir ao segundo posto e, fruto das bonificações, ficar a 14 segundos de Betancur.

Na última etapa, pouco havia a fazer. Apesar da subida a Col d'Èze estar classificada como primeira categoria, eram apenas 4,3 km a 6,7% de inclinação, a 15 quilómetros da meta. E para se ter um ponto de comparação, é menos longa e menos inclinada que a subida da Pomba em que Kwiatkowski descarregou toda a concorrência para ganhar a Volta ao Algarve.

A luta pelo pódio esteve em aberto até ao final e Simon Spilak chegou a ameaçar o segundo lugar de Rui Costa, mas o português contou com a ajuda de José Serpa (um dos melhores da atualidade na categoria "ciclista com bigode"). A Movistar também assumiu a perseguição para defender o virtual terceiro posto de JJ Rojas, mas o espanhol acabou ultrapassado por Arthur Vichot (FDJ)... na etapa e na geral.

Uma queda nos últimos metros levou Rui Costa ao chão mas, porque a regra dos 3 km estava prevista no regulamento particular da prova, o campeão do mundo ficou com o mesmo tempo do grupo em que seguia.

Rui Costa fez uma corrida taticamente perfeita, do primeiro ao último dia. Claro que dois segundos lugares em etapa e outro na geral, a juntar aos três segundos do Algarve, deixam sabor amargo. Por demasiadas vezes, faltou pouco. Então o que está o Rui Costa a fazer de mal? Nada.

Neste Paris-Nice esteve muito forte físicamente e excelente taticamente, mas Carlos Betancur foi mais forte. A inteligência e excelente leitura de corrida são duas características do Rui, mas quando existe um adversário mais forte que também ele não comete erros, não há nada a fazer. Neste caso, o mais forte venceu e o segundo mais forte foi segundo, um excelente segundo lugar.

Porque não estamos a falar de uma prova qualquer. Trata-se do Paris-Nice, uma das cinco mais importantes provas de uma semana, juntamente ao Tirreno-Adriático, Volta ao País Basco, Critérium du Dauphiné e Volta à Suíça. E se 2013 foi um excelente ano para Rui Costa, a verdade é que este está a ser o seu melhor começo de temporada.

(classificação final)

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Antes de começar o Tirreno-Adriático, Bauke Mollema comentou que ia fazer o seu primeiro controlo de sangue da temporada e questiona se não seria um pouco tarde. Não, Mollema não estava a reclamar da hora.

Eu sei que não estamos habituados a isto, mas reparem bem. Bauke Mollema, ciclista profissional, acha que já deveria ter feito mais controlos sanguíneos este ano. Quer mais controlos. Para ele e para os adversários, claro.

Quando em julho e agosto aparecer alguém a reclamar porque a ADoP faz controlos e o Dr. Luís Horta é chato, lembrem-se deste caso.

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Relacionado com o anterior
Mikel Zabala, preparador físico da Movistar, diz que tão ladrão é o que rouba como o que segura o saco, e recomenda que ninguém treine com médicos e preparadores com antecedentes de dopagem.

Em Portugal, o treinador que leva mais atletas (estrada e btt, da cadetes a veteranos, competição e lazer) cumpriu suspensão de dois anos por doping. É este o "novo ciclismo" que tantas vezes se promete diferente e mais credível que o "antigo ciclismo".

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O Tirreno-Adriático, que Contador tem nas mãos, será aqui tema depois de terminar.

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