terça-feira, 29 de abril de 2014

Até onde podemos falar?

Onde pensas que vais? (foto Peloton Magazine)
Ao longo de quase quatro anos de Carro Vassoura, tenho tentado abordar alguns temas menos frequentes e mostrar um pouco do ciclismo que não passa na TV nem nos jornais. Todas as modalidades têm o seu lado oculto, mas das outras não conheço e desta tento mostrar um pouco do que conheço, admitindo que é isso mesmo, apenas um pouco. Mesmo assim, dentro do pouco que sei, muito fica por dizer. Afinal, até onde podemos falar?

Omertà refere-se à lei do silêncio e já dela aqui falei. Quando alguém entra para a máfia faz o voto de silêncio e admite que qualquer problema que tenha deve ficar longe das autoridades e ser resolvido dentro da própria "família". O ciclismo também tem a sua própria família e a sua própria omertà. No pelotão internacional foi bastante evidente até à Operação Puerto, em que ninguém acusava ninguém de nada e quando surgia um positivo o ciclista apanhado podia contar com a defesa dos seus colegas de profissão. Mesmo quando se tratava de um vencedor, o segundo classificado não reclamava a vitória nem mostrava qualquer indignação, pois sabia que o próximo podia ser ele. A omertà impunha o silêncio, mesmo quando alguém era apanhado.

Isso começou a mudar na primavera de 2007. Depois da Operação Puerto (ainda em 2006) e de vários ex-ciclistas da Telekom assumiram o consumo de EPO nos anos em que Riis e Ullrich venceram o Tour, o ciclismo foi marginalizado na Alemanha. Os canais de televisão públicos abandonaram o Tour de France, um país que tinha T-Mobile, Gerolsteiner e Milram ficou sem equipas de primeira categoria e a Volta à Alemanha não se realiza desde 2008. Por tudo isso a geração de Tony Martin, Degenkolb, Kittel e Greipel percebeu que era necessário marcar a diferença e atacar de forma muito clara o doping. Também vários ciclistas franceses já lançaram as suas críticas a ciclistas apanhados e inclusive a ciclistas não-apanhados. Aquando do positivo de Di Luca no último Giro, Anthony Roux foi claro "depois de Di Luca, esperemos por Santambrogio, Garzelli e outros ladrões". Ainda há um longo caminho a percorrer, mas são os primeiros passos. Há poucos anos atrás, isto era impensável.

Em Portugal, ainda é e basta ver a onda de solidariedade que se formou nos últimos casos de doping. A única exceção que vi (pode ter havido mais mas apenas vi esta) foi do Nuno Sabido, antigo ciclista e selecionador nacional, atual preparador físico e comentador desportivo.

Isto vai contra a lei do silêncio que impera no ciclismo. Este modesto blog já foi o suficiente para dois presidentes e um diretor desportivo me pedirem para retirar conteúdo sobre as suas equipas do Carro Vassoura, e o dito diretor desportivo ameaçou mesmo que a acabava com o blog. Todos admitiram que era verdade o que estava escrito mas incomodava e devia ser retirado. Um dia falarei disso, estejam descansados (ou não estejam, dependente do caso), mas imaginem quando é alguém do ciclismo a mexer na colmeia e agitar as vespas. É de louvar.

Tudo isto serve apenas como introdução, até porque o motivo desta crónica também teve origem no Twitter. Depois de uma conversa a várias vozes sobre os problemas e a falta de escrúpulos existente no ciclismo nacional, um leitor do blog teve um comentário pertinente:

É uma pergunta pertinente porque ao longo destes anos em que escrevo sobre ciclismo (sobretudo nos últimos quase quatro anos de Carro Vassoura), muitas vezes me senti de mãos atadas, impossibilitado de contar o que gostaria de vos dizer e o que é necessário para fazer entender uma boa parte do que escrevo.

Respondendo à pergunta, sim, percebo que nem sempre é claro o que aqui é escrito, mas até onde podemos falar? Vou contar duas situações que penso servirem na perfeição para explicar onde quero chegar.

Situação 1. Há alguns anos, uma equipa chegou a acordo com alguns ciclistas. Eram ciclistas de bom valor para o pelotão nacional, a crise ainda não era tão forte como agora e é de acreditar que teriam outras propostas, mas escolheram aquela equipa porque era a melhor oferta que tinham. As contratações foram anunciadas na comunicação social e tudo estava certo. No dia de assinarem contrato, o diretor desportivo diz-lhes que terá que cortar o salário em 30% e aquela que era a melhor proposta deixa do ser. No entanto, com o mercado já fechado, não há mais volta a dar e os ciclistas têm que aceitar. Além disso, não podem manifestar-se publicamente, pois têm toda a temporada pela frente, um contrato por cumprir e não querem criar mau ambiente dentro da equipa. Foram enganados e ficam de mãos atadas.

É justo? Não é, mas é esta uma das muitas maneiras de baixar os salários dos corredores, ridicularizando o seu esforço.

Situação 2. Dias antes da Volta a Portugal perguntei a um ciclista se ia participar e se já era conhecida a convocatória da sua equipa. Era um ciclista que tinha participado nas últimas Voltas e julguei que tivesse a presença assegurada, mas respondeu-me que dessa vez talvez ficasse de fora, pois o diretor desportivo tinha-lhe perguntado o que estava disposto a tomar para melhorar o seu rendimento e ele respondeu que nada demais, apenas o básico. Dias depois saiu a convocatória e comprovou-se a sua expetativa: ficava em casa. Passadas duas semanas, a equipa estava a ganhar etapas na Volta e naquele dia senti duas coias. A primeira, nojo. A segunda, vergonha de mim, que perco tanto tempo com isto e a seguir tinha que escrever sobre o que vira na tv, esquecendo o resto.

Mais uma vez, é apenas um dos muitos exemplos que conheço e pelos quais digo que existe uma forte cultura de dopagem, que começa quando um miúdo de 16 anos diz no balneário (comun a todo o pelotão) que "para ser grande ciclista, é preciso estar carregado".

Estes casos deveriam ser públicos? Na minha opinião sim... mas não me cabe a mim.

Quem me contou, contou off the record e por respeito a quem confia em mim não posso deixar que sejam identificados. Só o conto agora porque, passados vários anos e não existindo nada público que me relacione com estes ciclistas, sei que estão "seguros" perante a omertà. Além disso, infelizmente são casos frequentes no ciclismo e a carapuça pode servir a muita gente.

Mas pensemos ainda noutra questão. Mesmo que os visados quisessem torna estas situações públicas, que provas teriam? Conhecendo os intervenientes, confio plenamente na sua veracidade (se assim não fosse, não as traria para aqui) mas em ambos os casos os diretores desportivos poderiam negar, porque não há provas.

Tudo isto é um convite aos ciclistas para ficarem calados. Afinal, o que pode fazer cada um deles? Nada. Unidos poderiam, mas é sempre difícil dar o primeiro passo.

Entrando em jeito de conclusão, é por tudo isto (e espero que os leitores do Carro Vassoura agora compreendam melhor) que tantas vezes tenho que ser abstrato no que conto, sem entrar em pormenores. E é também por isto que muitas vezes tenho que pegar e remexer em pequenas coisas que são públicas para mostrar o nível dos seus autores, porque os casos mais importantes ficam debaixo do tapete por falta de provas.

Como Lance Armstrong disse em entrevista há seis meses "penso que funciona assim noutros desportos. É assim no basebol, no boxe... A imprensa sabe tudo, o que faz um jogador de basebol ou um ciclista, simplesmente não escrevem".

O que trava o ciclismo português é a falta de escrúpulos de muita gente. Não digo que aconteça apenas em Portugal, mas é a realidade que conheço melhor. E com um certo orgulho posso dizer neste pequeno cantinho da internet vai-se mostrando esse lado menos digno, dentro do que se pode dizer.

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