sexta-feira, 16 de maio de 2014

Incidentes, acidentes e Bling Bling no Giro

A figura (pela positiva) da semana
Por vezes esperamos uma etapa sem história e os ciclistas surpreendem-nos pela positiva. Outras esperamos uma etapa sem história e a estrada surpreende-nos pela negativa. Foi o que aconteceu ontem na sexta etapa do Giro, com um mar de quedas.

Antes disso, a quarta etapa foi neutralizada pelos ciclistas, que ocuparam toda a largura da estrada até à entrada na última volta do circuito, levando a organização a tirar os tempos à entrada desta e a anular as bonificações. Porém, não é verdade que todos os ciclistas tenham decidido não correr. Houve alguns capitães que decidiram neutralizar o dia porque no Giro são frequentes estes protestos, seja devido às etapas demasiado longas (fazem etapas de 100 km para depois fazer outras de 250) ou devido às longas distâncias entre chegadas e a partida seguinte, neste caso Dublin-Bari. Desta etapa guardo a imagem do Michael Matthews, jovem cheio de vontade de lançar a etapa, a tentar fazer valer a sua camisola rosa para se fazer ouvir. Paolini e Quinziato, nos papéis de Paulie Gualtieri e Silvio Dante, mostraram a sua indignação e mandaram-no ficar quieto. Nas corridas em Itália mandam os italianos mais velhos e que ninguém se atreva a desobedecer.

Depois do abandono de Marcel Kittel com febre, Nacer Bouhanni foi o mais forte. O sprínter francês de 23 anos já tinha vencido no Paris-Nice e, tal como Démare, pode dar muitas alegrias as franceses nos sprints do Tour ao longo dos próximos anos. Hoje voltou a mostrar a sua qualidade com nova vitória. Depois de ficar de fora da equipa para Sanremo, está praticamente certa a sua saída da FDJ.

A quinta etapa correu-se sem grandes incidentes. Gianluca Brambilla fez um bom ataque já na parte final e foi difícil de alcançar, mas Purito teve um grande apoio da sua equipa para anular a diferença. Quando Dani Moreno abriu, ficaram apenas Rodríguez, Arredondo e Boassan Hagen estavam na frente, mas mais uma vez Matthews mostrou muita classe e vontade de vencer e foi ele mesmo a fechar o espaço. Diego Ulissi aproveitou para conquistar a sua segunda etapa do Giro, ainda que tenha sido a primeira que terminou em primeiro. Em 2011, num sprint a três, Giovanni Visconti sentiu-se encurralado nas grades, deu um empurrão a Ulissi, ultrapassou-o e foi primeiro, mas a vitória acabaria por ficar com Ulissi após desclassificação do então campeão nacional. O homem da Lampre é muito forte neste tipo de chegada.

No dia de ontem, um festival de quedas. Porque não foi uma queda que arrastou muita gente. Foram pelo menos quatro pontos de queda numa dúzia de metros, talvez devido a óleo ou outra porcaria que mandou quase todo pelotão ao chão. Na frente ficou perto de uma vintena de corredores, destacando-se Cadel Evans com três colegas e o camisola rosa com mais dois.

Aí nasce o debate de tantas outras vezes, se os da frente devem ou não esperar. Eu acho extremamente anti-desportivo que um ciclista aproveite o azar de um adversário para atacar ou uma equipa pegue na corrida depois de alguém ser vítima de azar. Mas neste caso a subida final estava prestes a ter início e naquela fase a corrida já estava lançada. Parar ali à espera de todos (porque não se sabe quem vai demorar meio minuto e quem vai demorar meia dúzia deles a regressar) faria desta mais uma etapa neutralizada. Portanto acho aceitável que a BMC tenha continuado a puxar, como já vinha fazendo.

Quintana e Urán perderam 49 segundos, num grupo também com Pozzovivo, Majka, Kelderman, Rolland, Hesjedal, Kiserlosvki, Basso ou Aru. Scarponi perdeu minuto e meio, Niemiec dois, Roche um quarto de hora, Arredondo dezoito e todos perdemos Joaquim Rodríguez. A vitória de etapa foi para Michael Matthews, que levou duas da última Vuelta e tem muito ciclismo nas pernas para dar.

Depois de tantas quedas e antes de duas chegadas em alto, hoje era dia propício para vingar uma fuga, mas as equipas dos sprinters anularam a escapada do dia já dentro dos três quilómetros finais, para mais uma vitória de Bouhanni.

Se o primeiro fim de semana foi de Kittel, esta semana foi de Bouhanni e Matthews. O australiano, apelidado de Bling pelos seus brincos e piercings, perderá a camisola rosa amanhã, mas termina a semana com uma vitória de etapa, seis dias de liderança e, além da demonstração de qualidade, com várias demonstrações de classe.

Numa altura em que ainda falta quase tudo mas já não temos um dos principais candidatos à vitória, Evans é o primeiro dos favoritos, com Urán a cerca de um minuto e Quintana a mais de um e quarenta. Ainda assim, na etapa de quinta-feira vi um Evans com sorte mas que não me pareceu suficientemente forte. Com sorte porque foi o único candidato à vitória que não ficou envolvido nas quedas, mas não me pareceu forte porque poderia ter começado a colaborar com os seus colegas mais cedo, tentando ganhar o máximo de tempo possível. Em vez disso, só entrou ao serviço quando a BMC não tinha mais homens por queimar. Amanhã veremos se foi por falta de capacidade para mais ou por opção tática.

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Já aqui tinha sido dito que estava na calha a publicação de mais uma suspensão por irregularidade no passaporte biológico em Portugal e saiu esta semana a suspensão de dois anos para o Márcio Barbosa. A notícia nem merecia grande atenção e nem ia entrar aqui, mas o Record publica que o Márcio confessou o uso de EPO para a Volta a Portugal 2012 e uma transfusão sanguínea para a Volta 2013. Foi a sua confissão que fez o processo resolver-se mais depressa em vez de andar encalhado na justiça e foi a sua confissão que torna o caso com relevância para estar aqui.

O Passaporte Biológico não marca negativos nem positivos mas sim irregularidades (um dia talvez me aprofunde na sua explicação, mas não hoje) e por isso é mais fácil para os ciclistas negarem e dizerem que não há irregularidades, que os valores são todos normais ou que as variações se devem a uma constipação… enfim, depende da criatividade de cada um. Em vez disso, o Márcio confessou. Eu não o conheço pessoalmente, mas acredito que recorreu a EPO e transfusões porque conhece outros que o fizeram sem problemas e sabia que para dar um passo em frente, para discutir algo como a camisola da montanha na Volta, teria que o fazer. E agora quando lhe pediram que explicasse as irregularidades detetadas no seu Passaporte, confessou e adeus, porque não vale a pena andar a clamar inocência. Mais vale assim do que fazer como tantos outros que clamam inocência nas redes sociais e na comunicação social mas em privado protestam que o mundo é hipócrita (e é) e que só fizeram o que outros fazem. Só não disse quem lhe arranjava o produto, porque ninguém o obrigou e quem lhe deu estava a fazer um “favor”. E porque não se denuncia amigos ou conhecidos, da mesma forma que não se denuncia o vizinho que foge aos impostos ou o vizinho que vende droga na janela de casa. Ninguém quer chatices.

Depois do caso do camisola amarela e do qual se aguarda desfecho (preferencialmente enquanto exista Carro Vassoura, já agora), e depois do vencedor da juventude ser suspenso, agora é o vencedor da montanha. Um dos trepadores de segunda geração desta Volta. Porque é normal que os ciclistas evoluam progressivamente até uma certa idade, ou que a sua qualidade passe despercebida quando são gregários e depois comecem a dar mais nas vistas quando assumem um papel de maior liberdade. Ou que alguém faça uma boa geral porque entrou numa fuga e ganhou tempo. Mas esta Volta foi rica em trepadores de segunda geração, ciclistas que participaram nos últimos anos passando ao lado da corrida e este ano, já perto dos 30, se revelaram trepadores. O Márcio Barbosa nem era o caso mais surpreendente. De vez em quando tem que ser alguém suspenso para assustar outros e veremos se agora há alguém que se acalma, como tantas vezes acontece.

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Entretanto, à hora de publicação destes parágrafos, corre-se a sexta etapa da Volta à Califórnia, a última com chegada em alto e que se antevê decisiva. Tiago Machado é terceiro na geral.

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