quarta-feira, 16 de julho de 2014

Coisas que acontecem em três semanas

Rui Costa perdeu tempo hoje. 1'36'', um minuto mais trinta e seis segundos diz a classificação, numa etapa em que não se esperava. Sim, tem uma bronquite aguda, mas o que vos escrevo não é afetado pela bronquite. E passo a explicar.

O Rui Costa foi ao Tour com um objetivo bem claro, terminar nos dez primeiros. Esse era o seu objetivo, assumido há vários meses, e quem quer terminar no top-10 do Tour não pode perder tempo numa etapa destas. É verdade. Ele sabe e se alguém está desiludido com o que aconteceu hoje e com o tempo perdido, ninguém está mais do que o próprio.

É por isso compreensível que as pessoas se sintam frustradas ou desiludidas com o que aconteceu hoje, mas não com o Rui Costa. Quem coloca em causa a sua qualidade com base no resultado de hoje, que me desculpe, mas percebe muito pouco disto.

Muito se tem questionado se o Rui é ou não trepador, se é ou não ciclista para três semanas. Ganhou três Voltas à Suíça de forma consecutiva e ganhou duas etapas na terceira semana do Tour 2013. Penso que isso deveria eliminar as dúvidas. Ninguém ganha três vezes a Volta à Suíça sem ser trepador, porque se não o for, acabará por ceder no meio dos Alpes. Ninguém ganha duas etapas de média e alta montanha na última semana do Tour se tiver problemas a recuperar do esforço de dia para dia. Etapas como as que o Rui Costa venceu há um ano, não, certamente. Mesmo em fuga.

Não é um ciclista para derrotar Nibali, Froome e Contador na alta montanha, mas também nunca colocou esse objetivo. Queria correr para a geral, ver até onde era capaz de ir e colocou a fasquia no top-10. Independentemente disso, a sua qualidade não estava nem está em causa neste Tour. Nem a sua atitude.

Os mais antigos e fiéis leitores deste espaço sabem o quanto valorizo a atitude dos ciclistas, dentro e fora da estrada, muitas vezes mais do que os resultados. Admiro os guerreiros que têm objetivos e lutam por eles, mesmo que falhem metade. Não gosto dos vegetais desprovidos de ambição que se passeiam pelo mundo no meio do pelotão, um dia o diretor desportivo pede-lhes que entrem numa fuga, que vigiem um adversário, e acabam por vencer. Prefiro os primeiros. O Rui Costa é dos primeiros. E mesmo que falhasse metade dos seus objetivos, eu continuaria a preferir o Rui... mas ele raramente falha.

Hoje ficou para trás no meio de pequenas colinas. Faltou-lhe capacidade, que não é o mesmo que qualidade. Gallopin venceu a etapa. Degenkolb, Matteo Trentin, Bennati, Gerrans e Rojas lutaram pelo segundo lugar. O Rui Costa chegou um minuto e meio depois deste grupo. Não era necessário esperar pelas suas palavras para saber que algo de anormal se passava.

O tweet anterior foi escrito poucos minutos depois de Rui Costa cortar a meta, várias horas antes de escrever o seu diário e nos dizer que se trata de um bronquite aguda. São coisas que acontecem ao longe de três semanas de esforço, entre a chuva e o calor.

Podia ser muita coisa, mas falta de ambição ou de vontade certamente que não. Na internet vi críticas exageradas. Demasiado exageradas. Falavam como se Rui Costa os tivesse convidado para jantar e não tivesse comparecido. Como se tivesse decidido faltar. Ninguém decide faltar no Tour e o Rui Costa, este campeão mundial, não falta a nada por opção.

Da bronquite tem que recuperar. Se o conseguirá ou não, não sei. Cumprir o seu objetivo de top-10 no Tour dependerá dessa recuperação, mas a qualidade está segura. É inquestionável.

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