terça-feira, 5 de agosto de 2014

Alejandro Marque e um processo que se arrastou durante um ano

Passagem de testemunho, vencedor da Volta 2013-vencedor da Volta 2014?
Foi na semana passada conhecido o desfecho do processo que a Real Federação Espanhola de Ciclismo abriu sobre Alejandro Marque por acusar betametasona na Volta a Portugal do ano passado, considerando o ciclista ilibado e desta forma vencedor da Volta 2013. Um caso que demorou demasiado tempo a resolver-se.

Demasiado porque uma pessoa não pode estar tantos meses impedida de exercer a sua profissão sem julgamento. Mas antes de mais, começar por explicar como se foi desenrolando.

Alejandro Marque foi primeiro na Volta a Portugal de 2013 e assinou contrato pela Movistar para 2014. No entanto, o dito contrato não chegou a iniciar-se, uma vez que em dezembro o jornal espanhol El País noticiou o positivo de Marque por betametasona.

Quando existe um controlo positivo, em primeiro lugar a UCI tem que analisar se existia ou não um TUE (Therapeutic Use Exemption, autorização de exceção para uso terapêutico). Caso não exista, a UCI deve comunicar o controlo positivo ao ciclista e só depois deste estar informado devem ser informadas a federação nacional do ciclista (no caso, a espanhola), a agência antidopagem do país de que é natural o ciclista (no caso, a espanhol) e a Agência Mundial Antidopagem.

Quando existe um controlo positivo na amostra A, o ciclista pode confessar o uso de substância ou prática proibida ou, se inocente, solicitar que seja analisada a amostra B (contra-análise). De todas as formas, após amostra A positiva, o ciclista fica provisoriamente suspenso. Se o ciclista confessar a sua culpa ou a contraanálise confirmar o resultado positivo, a UCI solicita à federação nacional que abra inquérito para determinar se há ou não motivo para suspensão.

Ora no caso do Alejandro Marque houve muita coisa que fugiu ao protocolo. A notícia do El País saiu sem que o ciclista tivesse sido sequer suspenso provisoriamente e rapidamente se criou a teoria de que era uma notícia encomendada pela Movistar. Houve quem dissesse que a equipa espanhola queria despedir Marque para ganhar margem orçamental de forma a encaixar Samuel Sánchez, então ainda desempregado. O tempo passou e Samu Sánchez não foi para a Movistar. Nem ninguém preencheu a vaga deixada em aberto por Marque, deitando por terra essa teoria.

Marque de pronto deu a sua versão dos factos. Admitiu o uso de betametasona, com autorização da UCI, para tratamento a uma lesão no joelho antes da Volta, problema que se arrastou durante a Volta. Segundo Marque, estava tão crítico que quase o obrigou a parar na última etapa, um dia depois de vencer o contrarrelógio e arrebatar a camisola amarela.

A situação continuou muito em território cinzento, sem esclarecimento. Poderão dizer que não houve suspensão e é verdade mas não poderão dizer com verdade que foi apenas uma notícia num jornal. Houve um inquérito que apenas foi concluído pela RFEC na semana passada.

Arrastou-se durante demasiado tempo mas a culpa não é da Federação Portuguesa de Ciclismo, não é do organizador da Volta a Portugal, não é dos portugueses que não querem que estrangeiros ganhem a Volta. Como dito antes, o inquérito é sempre de responsabilidade da federação nacional, a pedido da UCI, que depois poderá aceitar da decisão ou recorrer, que foi o que fez, por exemplo, com Valverde e Contador, em primeira instância ilibados pela RFEC mas suspensos após recurso da UCI ao TAS. 

No caso de Marque, a UCI solicitou inicialmente a suspensão do ciclista mas, depois da RFEC enviar as alegações deste, aceitou a absolvição, uma vez que é plausível a permanência da betametasona no organismo desde as infiltrações pré-Volta. Ciclista então ilibado.

Alejandro Marque alcançou as melhores performances da sua vida e venceu a Volta a Portugal lesionado, com o joelho em estado crítico, mas limpo. Fica assim encerrado esta história da Volta e do ciclismo, o desporto mais duro do mundo.

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