sábado, 2 de agosto de 2014

Os Critérios pós-Tour

Na quinta-feira Nibali "bateu" Rui Costa...
Termina o Tour e as nossas atenções viram-se para a Volta a Portugal e a Vuelta. Entramos em contagem decrescente para a primeira e começamos a perspetivar quem deverá participar na segunda. Porém, para muitas das principais figuras da Volta a França é tempo de Critérios pós-Tour, onde acontecem coisas tão "surpreendentes" quando Nibali ou Majka vencerem um sprint a Kittel ou Greipel.

São antigos, mas os critérios pós-Tour ganharam nova atenção por parte dos adeptos portugueses no ano passado com as presenças e vitórias de Rui Costa. E são dezenas deles durante as próximas semanas, sobretudo em França, Bélgica e na Holanda, mas também na Alemanha, Luxemburgo e, ainda que em menor quantidade, alguns em países mais distantes do centro do planeta ciclístico como a Noruega.

Critérios existem ao longo de todo o ano, mas hoje foco-me nos Pós-Tour. Têm uma fórmula que não varia muito mas resulta é espetáculo garantido.

Os critériums e a UCI

Ciclistas com licença da UCI estão proibidos de participar em provas que não pertençam a nenhum calendário nacional, continental ou mundial. Como tal, surgiu a necessidade de incluir este tipo de critérios no calendário UCI, mas estas provas/espetáculos têm bastante diferenças face ao que estamos acostumados.


Quem participa

Não há equipas. Cada organizador monta um mini-pelotão em torno de 30 ou 40 ciclistas. São convidados três ou quatro dos ciclistas que mais se destacaram no Tour, como os vencedores das várias classificações ou de alguma etapa, aos quais se podem juntar o campeão do mundo, o campeão nacional e alguma outra estrela do país, formando o núcleo-duro atrativo de participantes. Tratando-se de uma prova belga, é provável que também esteja convidada alguma estrela do ciclocrosse.

São também convidados alguns ciclistas nacionais de equipas World Tour ou Continentais Profissionais e depois um maior número de ciclistas locais para completar o mini-pelotão.

Os ciclistas participam nestes eventos com contratos individuais, estabelecidos apenas entre eles e o organizador do Critérium. Os seus agentes têm um papel importante na negociação dos contratos que pode atingir algumas dezenas de milhares de euros mas os contratos são alheios às equipas.

No entanto, nem todos os ciclistas são autorizados a participar, como aconteceu no ano passado com Nairo Quintana, proibido de participar pela Movistar. Estes critérios de um dia são uma excelente fonte de rendimento para os ciclistas mas a relação com a equipa que paga o ano todo deve prevalecer.

Os números exatos são confidenciais, mas os ciclistas mais cobiçados podem ganhar entre 20 e 40 mil euros... num dia.
O organizador do Tour organizou um critério no Japão... e os protagonistas foram os mesmos



A corrida

As corridas realizam-se em pequenos circuitos fechados. A UCI permite critérios entre 800m e 10 quilómetros, mas regra geral os pós-Tour têm entre 1500 e 3000. Os organizadores pretendem um elevado número de voltas durante duas horas. Por exemplo, o Critério de Harentals (o da foto inicial) era composto por 50 voltas a um circuito de 1800m. Significa isto que durante cerca de duas horas os espetadores viram o camisola amarela Vincenzo Nibali, o campeão do mundo Rui Costa, a estrela nacional (e local) Jurgen Van Den Broeck, o veterano Alessandro Petacchi e o Canibal do cross Sven Nys passarem diante de si 50 vezes. Espetacular, não?

A maioria dos ciclistas corre com o equipamento da sua equipa, mas o que salta à vista são as exceções. O arco-íris de Rui Costa e as camisolas de campeões nacionais, o maillot jaune de Nibali, a verde de Sagan ou a branca às bolas encarnadas de Majka. Camisolas conquistadas no Tour mas que se estendem por estes dias. Também pode dar-se a presença da maglia rosa do Giro. É algo menos frequente. Tal como acontece este ano com Nairo Quintana, muitas vezes o vencedor do Giro está a preparar outros objetivos (a Vuelta, neste caso), mas quando o vencedor do Giro opta por alinhar no Tour e diminuir a carga de treino após a prova francesa poderá participar em alguns critérios com a sua camisola rosa. Foi o que fez Ivan Basso em 2010.


O espetáculo envolvente

Há muito mais do que as voltas ao circuito. É feita uma aparatosa apresentação dos ciclistas, muitas vezes as estrelas são apresentadas a todo o público espalhado pelo circuito através de um descapotável.

Também é frequente a tarde começar com uma corrida de jovens e a noite terminar com um concerto musical. A intereção com as estrelas e sessões de autógrafos também são outros grandes motivos de interesse. Mas nem tudo está disponível para todos.
Rui Costa faz a alegria do público. E parece que já muita gente assinou lá antes.



VIP

Patrocinadores são muitos, uns maiores, outros menores, mas uma parte das receitas destes eventos vêm dos bilhetes VIP. VIP vem do inglês Very Important Person (Pessoa Muito Importante), mas na zona VIP misturam-se convidados e pessoas que pagaram para lá estar.

Todo o público pode procurar o seu local para ver o Critério, mas alguns dos melhores locais estão restritos aos VIP. Os bilhetes VIP incluem ainda direito a um mais fácil contacto com as estrelas antes e após a prova, inclusive no jantar que alguns critérios têm. O preço dos bilhetes depende do critério e do que inclui, mas nalguns casos ultrapassa os 200€.


Quem vence?

Seria muito mais poético dizer que vence quem for melhor, mas não é verdade. Há muitos ataques durante toda a prova mas os primeiros lugares estão decididos logo à partida.

Imagine-se os patrocinadores e os adeptos pagarem pela presença de Nibali e Rui Costa e no final vencer um ciclista local, desconhecido do público. Quem pagou bilhete sentir-se-ia defraudado, a prova não teria impacto e os patrocinadores perderiam o interesse.

Também não é certo que vença sempre o ciclista mais popular. A prova também perderia interesse se desde o começo se soubesse que o triunfo seria de Vincenzo Nibali. Algum suspense tem que permanecer até ao final.

Há ataques durante toda a prova mas nenhum ameaça o resultado pretendido pelo organizador. Já perto do final dá-se uma fuga com aqueles que têm que ficar com os primeiros postos e sprintam. No final a foto do pódio é preenchida por camisolas do Tour, campeões ou heróis nacionais. Na quinta-feira o Critério de Herentals terminou com um sprint a dois entre o camisola amarela (do Tour) e o campeão do mundo. O pódio ficou completo com Van Den Broeck, natural de Herentals. No dia seguinte, no Critério de Sint-Niklaas, repetiu-se o mesmo "duelo" mas desta vez com o campeão do mundo em primeiro. O terceiro foi Matteo Trentin, vencedor de uma etapa no Tour e corredor da belga Omega Pharma. 

Nada é por acaso nos critérios pós-Tour. Tudo visa o espetáculo!
E na sexta-feira foi Rui Costa a "bater" Nibali

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