quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Andy Schleck: chegou novo, pedalou rápido, partiu cedo

Algum dia Di Luca iria quebrar. Tinha sido quarto em 2005, desde o primeiro dia que estava na frente dos seus adversários, já levava duas vitórias de etapa nas duas primeiras semanas de prova mas muitos duvidavam que Di Luca venceria aquele Giro 2007. Era um classicomano, bom na média montanha, mas não um trepador. Já tinha sido expulso de um Tour, já tinha sido suspenso uma vez (seria ainda mais duas) e todos esperavam o dia em que Di Luca quebrasse (sobretudo) perante Simoni e Cunego, dois ex-vencedores. Algum dia teria que quebrar.

Mas à medida que os dias e as montanhas passavam, à medida que Di Luca ia solidificando a sua candidatura à vitória, um jovem iam surpreendendo toda a gente. Pela primeira vez na Corsa Rosa desde 1994, a classificação da juventude era liderada por Andy Schleck, luxemburguês, 21 anos, levando a camisola branca entre os melhores trepadores da prova. Era segundo classificado na geral. Até então tinha um palmarés ao nível de um ciclista talentoso de 21 anos, com alguns bons resultados, inclusive vitórias, mas nada que o colocasse em destaque nas antevisões daquele Giro. No final, o segundo lugar era uma enorme surpresa.

Há que olhar para o top-10 daquele Giro. Andy Schleck, de 21 anos, atrás de Di Luca, diante de Mazzoleni, Simoni, Cunego, Riccò, Petrov, Bruseghin e Pellizotti, todos eles casos de estudo, muitos deles afastados do ciclismo, muitos deles ciclistas que só rendiam no seu país.


Com Piepoli e Simoni, na chegada ao Monte Zoncolan, no Giro 2007
Apesar da idade, e ao contrário do que vemos com muitos outros corredores nesta idade, nunca mais voltou ao Giro e nunca colocou a Vuelta como objetivo da temporada para que vencesse uma grande volta antes de se dedicar ao Tour. Com ele nunca houve o discurso do “vai ao Giro aprender a liderar uma equipa” ou “vai ao Giro para ganhar algo e retirar pressão antes do Tour”. Era um futuro vencedor do Tour e 2008 já organizou a sua temporada como viria a repetir nos anos seguintes: Ardenas-Suíça-Tour. De qualquer forma, nunca esteve na discussão da vitória na Volta à Suíça. Era apenas a preparação para a Volta a França.

Esteve em grande destaque na Liège-Bastogne-Liège, desde cedo ao ataque e alcançado apenas a cinco quilómetros por Rebellin, Valverde e o irmão que nunca puxava, claro. Desgastado, não foi capaz de seguir com os da frente, mas ainda terminou em quarto, às portas de um pódio que viria a pisar por duas vezes.

O Tour, no qual não tinha grandes responsabilidades para além de apoiar o irmão mais velho e Carlos Sastre, perdeu-o logo na primeira etapa de montanha. Na mítica etapa do Hautacam, quando Piepoli e Juanjo Cobo fizeram uma das maiores demonstrações de performances coletivas da última década, dando à Saunier Duval uma dobradinha enCERAda. Andy Schleck perdeu o contacto no começo do Hautacam e, sem obrigações, cedeu nove minutos. Não fora isso e teria terminado a lutar pelo top-5. Tinha pernas para tal, mas demasiadas vezes prendeu as suas asas por Carlos Sastre e pelo próprio irmão.
Vencedor da Liège-Bastogne-Liège 2009
Sobretudo no Alpe d’Huez, foi marcante ver tanta energia contida. O irmão estava de amarelo mas na dianteira estava Sastre, que viria a ganhar a etapa por dois minutos. Andy Schleck respondia aos ataques menos perigosos, depois deixava-se cair no grupo, voltava para a frente, via como estavam os adversários, falava com o irmão e deixava a responsabilidade de responder aos ataques mais perigosos a Cadel Evans. Sempre com um à-vontade esmagador, que deixa uns encantados e outros perplexos perante a impossibilidade de tal facilidade. Naquele dia podia fazer o que quisesse mas tinha Sastre na frente e não podia prejudicar o seu colega, apesar deste estar a atacar a liderança do seu irmão.

Há ciclistas que atacam sem olhar para trás e quase sem pensar. Há outros que pensam em tudo, ponderam e procuram motivos para não o fazer e, quando o fazem, avançam a olhar para trás. Andy pertenceu ao segundo grupo e esse foi sempre um dos grandes problemas.

Terminou o seu Tour de estreia no 11º lugar e com a camisola branca, que viria a repetir nos dois anos seguintes, igualando Jan Ullrich. Depois foi para Pequim e foi quinto nos Jogos Olímpicos.

Num dos poucos dias em que atacou sem medos, venceu a Liège-Bastogne-Liège, em 2009. Atacou a 20 quilómetros da meta na Côte de la Roche-aux-Faucons e foi por ali fora como mais nada importasse. Foi dos poucos dias em que mais nada importou e conseguiu a mais importante vitória da sua carreira.

Quatro dias antes tinha sido segundo na Flèche Wallone, atrás de Davide Rebellin. Pouco depois saiu o positivo de Rebellin em Pequim, por CERA, e o italiano foi desclassificado da corrida olímpica, valendo a Andy Schleck a subida ao quarto lugar. Também deveria ter valido a vitória na Flèche Wallone mas não foi o caso. O luxemburguês nunca sequer reclamou a vitória, tal como não reclamaria a vitória no Tour 2010 após desclassificação de Contador, tal como Menchov não reclamou a vitória da Vuelta 2005 após desclassificação de Heras, tal como Ullrich e Basso não reclamaram os Tours de Armstrong. Isso diz algo de Andy Schleck. Isso e a ligação com Bjarne Riis, com o qual trabalhou de 2004 a 2010. É algo incontornável na sua carreira. Foi uma das apostas de Riis para as grandes voltas depois de Hamilton e Basso (aos quais Riis recomendou Fuentes) e antes de Contador. Deve explicar parte da sua precocidade. No Tour desse ano e no de 2010 foi segundo (pelo menos na estrada), duas vezes atrás de Contador. Mas o de 2010 foi rico em histórias.


Com Contador, no Tourmalet, em 2010
Foi o da sua primeira vitória no Tour, na Estação de Ski de Avoriaz, nos Alpes. Na etapa seguinte voltou a ser o mais atacante, conquistou a camisola amarela (apesar de não ganhar tempo a Contador) e assim foi novamente na terceira semana, no dia que ficaria marcado pela sua corrente. Atacou, a corrente saltou e Contador, vindo de trás, continuou a sua resposta à aceleração de Schleck, mesmo com Schleck fora da disputa. No final da etapa Contador dizia que não tinha visto, no final do dia pedia desculpas (por algo que não viu?). Também me parece dizer muito de cada um. O Contador ardiloso, o Andy Schleck ingénuo.

Nesse ano, sem o irmão (que fraturou a clavícula na primeira semana) não tinha que olhar para o lado, nem para trás, nem tinha que se preocupar com Frank e como este se sentia. Atacou mais determinado. E atacou porque, mesmo com a camisola amarela, precisava de ganhar tempo antes do contrarrelógio final. Na última hipótese, no Tourmalet, não conseguiu. Tentou mas Contador sabia que o ataque surgiria e conseguiu pegar-se à roda. Se o primeiro não resultou, mais nenhum resultaria, porque a partir desse foi sempre Andy Schleck na frente e o espanhol na roda, facilitando a reação às (pocuas) tentativas seguintes. No alto do Tourmalet Contador abraçou Andy Schleck, como que lhe agradecendo a sua angélica ingenuidade. Contador não viu a corrente saltar, pediu desculpa e o luxemburguês pouco o atacou naquela que era a última oportunidade. No último contrarrelógio perdeu 31 segundos e o Tour por 39, exatamente o mesmo tempo deixado na estrada no dia em que a corrente lhe saltou a subir o Port de Báles.

Parecia estar a nascer uma rivalidade que marcaria uma época, como a de Armstrong e Ullrich. Mas tal não aconteceria. Em parte, devido ao positivo de Contador nesse Tour e que viria a dar o triunfo ao mais novo dos irmãos luxemburgueses, filhos de ciclista, netos de ciclista. Em 2011 voltaram a encontrar-se, mas o espanhol não estava no seu melhor nível e já não foi o seu maior oponente. E quando a suspensão de Contador terminou, era Schleck quem já não estava no seu melhor. Contador voltou sempre. Da suspensão, de um ano mau, de uma lesão. Andy Schleck entrou em declínio irreversível, acumulando lesões e anos maus.

2011 foi um ano de duplo sentido. Esteve próximo de ganhar o Tour, fez uma grande Liège-Bastogne-Liège mas no resto da temporada esteve a um nível demasiado baixo para um candidato ao Tour.

Ao serviço da Leopard-Trek, ele e o seu irmão fizeram tudo para bater Philippe Gilbert no Monumento de Liège, mas foram incapazes de vergar o extraterrestre (que no final do ano foi para a BMC e se tornou humano). Ficou-se pelo terceiro lugar, incapaz de vencer mas ainda assim claramente a melhor exibição da época até então.

Quando à Volta a França, foi a ocasião em que esteve mais próximo do triunfo. Ou não. Depende da perspetiva. Temporalmente ficou mais distante do que havia ficado em 2010, mas, por outro prisma, liderou até ao contrarrelógio do penúltimo dia, à partida do qual ainda tinha hipóteses reais de segurar o maillot jaune.

O que sim teve o Tour de 2011 foi uma exibição a recordar outros tempos, outras grandes figuras da história, porque são essas as etapas e os feitos que ficam para a história. O ataque no Izoard, ainda com sessenta quilómetros por cumprir e com todo o Galibier pela frente, foi a maior exibição de Andy Schleck. Na minha opinião, a mais espetacular vitória que o Tour testemunhou na última década. E dentro de vinte, trinta anos, será essa a história de Andy Schleck, porque são essas as etapas e os feitos que ficam para a história.

Nos muros e topos da primeira semana nunca pareceu bem e nas montanhas da segunda semana não esteve muito melhor, não o suficiente para vencer o Tour. Os irmãos condicionavam-se mutuamente, quase necessitavam de autorização um do outro para atacar e quando um acelerava, depois de meia dúzia de pedaladas, virava-se à procura do outro. O início da terceira semana foi desastroso, perdendo inclusive tempo a descer, e o Tour estava perdido à entrada para os Alpes.

Faltavam as chegadas ao Galibier e ao Alpe d’Huez, Frank estava a quatro segundos de Cadel Evans e Andy a um minuto e dezoito, necessitando de fazer algo que não tinham feito nos Pirenéus: ganhar tempo. Pior que isso, tinham que ganhar o suficiente para se defenderem no contrarrelógio que ainda faltava. O Tour estava perdido, ou quase, e situações desconfortáveis requerem medidas desconfortáveis. Teve que sair da sua zona de conforto.

Foi assim que no dia do Galibier foi grande, muito grande, e teve a determinação que lhe faltou tantas vezes. A 60 quilómetros da meta atacou e ninguém o seguiu. Mais à frente contou com o apoio de Posthuma e Monfort, companheiros que seguiam adiantados e descaíram da fuga do dia  em seu benefício. Primeiro auxiliado, depois por sua própria conta, derreteu as formações adversárias. Euskaltel de Samuel Sánchez, Saxo de Contador e a BMC de Evans. A mais de uma dezena de quilómetros, com Schleck a mais de quatro minutos, os candidatos ao pódio de Paris estavam cada um entregue a si mesmo. Desgastado, acabou por ceder na parte final, mas os dois minutos e quinze ganhos a Evans deixavam-lhe com quase um minuto de avanço para o australiano e próximo da camisola amarela de Voeckler. No Alpe d'Huez chegou à liderança mas mais uma vez as olhadas atrás a cada ataque impediram-no de ganhar mais tempo, permitindo que no contrarrelógio do penúltimo dia Evans virasse o jogo.

Não mais voltaria a vitória de uma grande volta. Nem de uma volta. Nem o que fosse. A partir daí a sua carreira foi um sequência de quedas, lesões e abandonos, talvez nem todos explicados pelas lesões.

Nas declarações que dava continuava a mostrar vontade de voltar ao seu melhor, mesmo quando os resultados estavam cada vez mais distantes. No último inverno esteve no Algarve com o irmão, a preparar mais uma tentativa. Aqui, além do bom tempo, tinha a tranquilidade que não podia ter no seu país, onde era uma figura pública. À parte dos treinos, podia ser um turista como tantos outros. Certa vez, após o almoço, deu-se conta que o restaurante não aceitava o cartão com o qual pretendia pagar. O dono indicou-lhe qual o multibanco mais próximo (a dois quilómetros), meteu-se no carro, foi, voltou, pagou, e ninguém se apercebeu tratar-se dum vencedor da Volta a França.

Hoje, aos 29 anos, anunciou o final de uma carreira que desportivamente terminou naquele Tour de 2011, naquele pódio de Paris, ao lado de Cadel Evans, com o irmão Frank do outro lado. A queda no Tour deste ano, a qual apontou na conferência de imprensa de hoje como principal motivo para o final da carreira, chegou três anos depois do seu final desportivo.

A justificação não convence muitos. Há desconfianças, teorias, cada uma com as suas razões. Uns relacionam a sua quebra de rendimento com o controlo positivo do irmão (um diurético, no Tour 2012), outros relacionam a sua quebra com o afastamento de Bjarne Riis, outros, de forma mais simples ou mais complexa, relacionam tudo isto e dizem que tentou correr limpo.
Pódio final do Tour 2011, com Cadel Evans e Frank Schleck
Há casos assim, vários. Yaroslav Popovych nunca mais foi o mesmo depois do positivo do amigo Volodymyr Bileka, Moreno Moser nunca mais foi o mesmo depois do positivo do amigo Stafano Agostini, Juanjo Cobo nunca rendeu afastado de Matxin, exemplos não faltam. Não me parece, contudo, que justifique completamente este caso.

Hoje, com toda a informação disponível, parece-me necessária demasiada ingenuidade para olhar para o top-10 daquele Giro, com Di Luca, Mazzoleni, Simoni, Piepoli ou Riccò, e pensar que o jovem de 21 anos entre eles era o anjo entre os monstros, a vítima entre os abusadores. Sobretudo tratando-se o seu diretor desportivo (desde o começo) de Bjarne Riis, o mesmo que recomendou a Hamilton e Basso que trabalhassem com Eufemiano Fuentes, o ginecologista canário que em Madrid armazenava sangue de tantos e tantos desportistas.

Houve uma quebra de rendimento de 2010 para 2011, quando saiu da Saxo de Riis, mas ainda assim em 2011 fez um Tour de altíssimo nível, fisicamente muito forte. E a quebra completa deu-se no começo de 2012, as quedas, as desistências, ainda bem antes de ser detetado em Frank Schleck um diurético que pode servir para mascarar o uso de outras substâncias. E mesmo após a suspensão, o irmão mais velho conseguiu voltar a um nível aceitável, bastante inferior ao que teve nos seus melhores anos, mas ainda assim bastante superior ao do irmão menor.

Talvez pela falta de Riis, talvez pelos problemas do irmãos, talvez apenas pelas lesões, talvez por problemas extra-desportivos. Acho que um misto de tudo.

Andy Schleck foi o melhor trepador do Tour 2010 e 2011 mas, à parte da sua debilidade como contrarrelogista, a sua aparente debilidade psicológica terá sido o maior impeditivo de vencer qualquer uma delas na estrada, de transformar a sua força física em vitória. Parece-me ter sido o seu maior inimigo também nos últimos anos, impedido que fosse, sequer, um ciclista de qualidade World Tour.

A sua carreira teve glória, mistério, suspense e drama. Cada um guardará na mente o género que mais o marcou. Andy Schleck foi, em tudo, precoce. Chegou novo, pedalou rápido, partiu cedo.


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