domingo, 5 de outubro de 2014

Uma página de história

O prestígio de uma corrida vê-se pela forma como é disputada e o do Il Lombardia (Giro di Lombardia) ficou bem demonstrado com a sucessão de ataques que teve lugar nas últimas dezenas de quilómetros. Ciclistas que sabiam não ter hipótese de outra forma tentaram jogar as suas cartas de longe, como Weening ou Kiryienka, e outros atacaram para endurecer o ritmo a favor dos seus líderes, como Hermans para Gilbert ou Kolobnev para Purito. Ficou bem patente que havia muita ambição de vitória no pelotão.

Antes disso, uma dezena de fugitivos chegou a ter quase nove minutos de vantagem e entre eles estava Sérgio Paulinho que foi, aliás, o melhor entre os escapados. Foi o que melhor resistiu ao terreno acidentado e inclusive atacou, deixando sem capacidade de resposta os que o acompanhavam. Estando na frente de corrida, poderia dar uma importante ajuda na fase final a Alberto Contador, algo que acabou por não ser necessário, posto que o seu líder não conseguiu estar na discussão da prova. De todas as formas, foi uma grandes prestação de Sérgio Paulinho em prol dos interesses da sua equipa. Uma pena que, há uma semana, não tenha estado em Ponferrada a fazer o mesmo trabalho em prol do seu país. Numa semana muita coisa muda, não é apenas a camisola que se enverga. São coisas que não se pode dizer porque em Portugal não se pode questionar nem criticar. Apenas se pode aplaudir como se os aplausos solucionassem o que está mal, como se os aplausos aumentassem o ritmo. Mas diga-se ou não, são coisas que estão aí para quem quiser ver e quem quiser pensar para lá do que lhe é imposto.

As subidas anteriores serviam para ser atacadas, para desgastar, para reduzir o grupo principal, mas era na rampa de Bergamo Alta que se iria decidir o vencedor, já sem Tom Dumoulin afastado por queda e sem o campeão mundial Michal Kwiatkowski por cãibras.

Primeiro atacou Warren Barguil e depois Tim Wellens, este a conseguir ganhar alguns segundos de vantagem. Um ciclista de muita classe, de 23 anos apenas, vencedor do Eneco Tour e sobretudo um ciclista que ataca.  Algum dia vencerá uma grande prova de um dia mas ainda não foi hoje, alcançado por Philippe Gilbert, outro ciclista que corre para vencer (ou para que vença um colega). E que já por duas ocasiões conquistou o então Giro di Lombardia.

Sabendo que qualquer uma delas poderia ser decisiva, Rui Costa esteve muito atento a todas as movimentações. De Barguil, de Wellens, de Aru, de Gilbert e inclusive atacando na descida final que levava os ciclistas desde Bergamo Alta até ao centro de Bergamo.

Porém, ao ataque decisivo ninguém respondeu. Deu-se a 500 metros da meta, quando Daniel Martin acelerou todos ficaram à espera que alguém respondessem. Era um grupo de nove, um atacou a meio quilómetro da meta e oito ficaram à espera, sem saber o que fazer, num momento de apatia coletiva. Mereceu a vitória Daniel Martin, que já aqui tinha sido segundo em 2011, quarto no ano passado e que este ano perdeu a Liége-Bastogne-Liége na última curva por inclinar-se demasiado e tocar o chão com o seu pedal. Desta vez ninguém o segurou e nada o derrubou. Levantou o pé interior na última curva e só recomeçou a pedalar no tempo certo, rumo a uma grande vitória. Tem agora 2 Monumentos (Liége 2013 & Lombardia 2014), uma Volta à Catalunha e vitórias de etapas no Tour e na Vuelta.

Entre os oito que ficaram a ver Daniel Martin distanciar-se, Alejandro Valverde foi o mais rápido e ficou pelo segundo posto, pelo segundo ano consecutivo. Responsabiliza-lo pelo triunfo de Martin, por não ter respondido ao irlandês, é exagerado. Valverde errou, como todos erraram, sobretudo a BMC que tinha dois homens na frente, Samuel Sánchez e Gilbert. Mas depois de ter atacado tanto a corrida, é difícil dizer que a BMC esteve mal. Quem fechasse o espaço para Daniel Martin estaria também a lançar o sprint aos adversários e foi essa posição que todos quiseram evitar.

Rui Costa obteve um histórico terceiro posto, a sua primeira vez no pódio de um Monumento, a primeira vez de um português no pódio de uma das cinco grandes clássicas. Mais uma página que Rui Costa acrescenta à história do ciclismo português e já é quarto no Ranking do World Tour. Faltando somente a Volta a Pequim para fechar estas contas, Rui Costa é 4º! Quarto!

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