terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Os primeiros 38 da lista de Michele Ferrari

- Sabes quem falta aqui?
- Quem?
- O Doutor
- AHAHAHAH
A Gazzetta dello Sport publicou na semana passada o nome de 38 dos ciclistas que surgem ligados a Michele Ferrari na investigação levada a cabo pela Procuradoria da Republica italiana. A informação é ainda escassa, mas entre estes 38 há algumas (poucas) surpresas e alguns (muitos) sobre os quais se pode desde já fazer uma abordagem, enquanto se aguarda que fique completa a anunciada lista de 90.

Michele Scarponi
Scarponi é um daqueles casos que resume de forma excelente a fraqueza da luta anti-doping. Era cliente de Eufemiano Fuentes (alcunha Zapatero), confessou, cumpriu 15 meses de suspensão e regressou em 2008. Tal como Valverde e Basso, foi suspenso devido ao seu envolvimento na Operação Puerto, mas nunca deu positivo, o que significa que as praticas do Dr. Fuentes eram indetetáveis. Por isso, quando voltou, voltou igualmente forte. Ou ainda melhor. Logo em 2009 venceu o Tirreno-Adriático e duas etapas no Giro. Depois disso, venceu o Giro (2011), teve mais três quartos lugares na prova e venceu uma Volta à Catalunha.

Pelo meio, mais uma suspensão. Por contactar com Michele Ferrari (médico banido) levou três meses de pena cumprida no inverno de 2012, não prejudicando o seu calendário desportivo. Após esta suspensão, a Lampre anunciou que não renovaria contrato no final de 2013, mas o ciclista encontrou abrigo na Astana.

Com Ferrari, é conhecida uma conversa telefónica de setembro de 2010 em que Scarponi diz ao Dr. Mito que poderia vencer o Giro e Ferrari lhe responde “sim, se tivesses uma bolsa”. Scarponi diz que apenas contactou com Ferrari para planos de treino e Ferrari diz que a conversa sobre a bolsa se tratava de uma piada sobre o envolvimento de Scarponi na Operação Puerto.

É duplamente ridículo. Em primeiro lugar, como Scarponi continua no pelotão. Em segundo, como tem continuado ao mais alto nível.

Denis Menchov
Um dos melhores grande-voltistas da última década, com um Giro e duas Vueltas no seu currículo (e no de Ferrari). Em maio de 2013 anunciou o final da sua carreira por uma “lesão no joelho”, uma decisão algo estranha considerando que tinha ainda ano e meio de contrato e poderia focar-se na sua recuperação. Porém, em julho deste ano, foi anunciada a sua suspensão por irregularidades no Passaporte Biológico. Em regra, para cada decisão aparentemente inexplicável, existe uma bolsa de sangue que explica.

Já era conhecida também uma conversa telefónica entre Menchov e o seu agente no final de 2010 na qual mostrava a intenção de que os ciclistas do seu circulo mais próximo trabalhassem também com Ferrari. Dessa lista fazia parte o já aqui mencionado Dmitiy Kozonthcuk, mas na lista da Gazzetta da semana passada saiu também o nome de Mauricio Ardilla. Curiosamente, foram os dois únicos ciclistas que acompanharam Menchov na saída da Rabobank para a Geox em 2011. “Porque todos os grandes líderes têm amigos inseparáveis.”

Popovych e Bileka
Dois dos nomes que não surpreendem. Em 2011 escrevi que “o ucraniano nunca mais foi o mesmo desde a Primavera de 2008, quando o seu compatriota, colega de Discovery Channel e Lotto e amigo Volodymyr Bileka foi suspenso por doping” e é daquelas coisas (entre outras) que levam a que me chamem conspiranóico, perseguidor, ou algo do género. Mas em 2012 saiu a público o testemunho dado por Bileka às autoridades italianas após o seu positivo, em que falava da sua carreira lado-a-lado com Popovych e do trabalho com Ferrari. É um testemunho muito interessante e se calhar tema para outro dia.

Kreuziger e Vinokourov
Outros dois que não surpreendem são Roman Kreuziger e Alexander Vinokourov. O checo está com um processo a decorrer no Tribunal Arbitral do Desporto e entretanto colocou no seu site a sua defesa.

Apresenta o parecer de três especialistas que entendem não haver razão para suspensão, o que é claro, porque é isso que fazem os especialistas pagos para defender os acusados. Porém, entre a massa crítica internacional, não se deixam convencer, nem os mais polémicos e céticos, nem os mais ponderados. Entre os factos mais suspeitos está um salto no hematócrito de Kreuziger durante o Giro 2012, de 43,2 para 48,1. Em pleno Giro. Talvez "estivesse ansioso".

José Joaquin Rojas
É um dos poucos nomes que surpreendem.

No seu testemunho, Bileka já havia declarado que numa das concentrações de Ferrari se cruzou com Luis León Sánchez e um outro colega da Caisse d’Epargne “alto e robusto”. O envolvimento de Rojas com a família Ferrari fica demonstrado através de uma troca de e-mails entre o ciclista e Stefano, o filho de Michele, que fazia de intermediário desde a suspensão do pai, mas Rojas tem apenas 1.77, o que me leva a crer que o “alto e robusto” Caisse d’Epargne possa não ser ele.

Na troca de e-mails, Stefano Ferrari recomenda a Rojas uma “dieta rica em azeite”. Porque a regra manda que se negue o que pode ser negado e se invente alguma história sobre o que não pode ser negado, Rojas diz que apenas contactou com Stefano Ferrari para falar de planos de treino. Mas no seu testemunho dado em 2012, George Hincapie refere que “oil” (óleo) era o nome de código para uma mistura de testosterona e “olive oil” (azeite). Nesse ano, o italiano Marco Fertonani, a correr na Caisse, teve um positivo por… testosterona. Claro que foi apenas para planos de treino, José, claro que sim.

O mundo do desporto é uma grande coincidência que envolve incríveis ligações entre atletas e equipas, médicos e resultados.


José Joaquin Rojas está no dossier de Ferrari. Luis León Sánchez está em todos.
Os russos
O que me parece muito interessante é a enorme quantidade de russos ligados a Ferrari. Alguns já com histórico. Como Serguei Ivanov (expulso do Tour de 2000 por hematócrito alto e vencedor da Amstel Gold Race 2009), Vladimir Gusev (despedido da Astana em 2008 por valores irregulares num controlo interno), ou Alexander Kolobnev, expulso do Tour 2011 por um positivo.

Também está Vladimir Karpets, o típico golfinho, que de vez em quando vinha à superfície e fazia uns números engraçados e depois voltava a mergulhar e desaparecer.

E muito interessante a inclusão de Evgeni Petrov e Ivan Rovny, dois grandes amigos de Oleg Tinkoff. Aliás, quando em 2013 Tinkoff se tornou principal patrocinador da equipa, o seu primeiro (e único) pedido russo foi Petrov. Quando em 2014 se tornou dono da equipa, a sua exigência foi Rovny. Mas é tudo uma grande coincidência.

Questões de família
O nome de Palmiro Masciarelli deve ser irrelevante para quase toda a gente. Bem como o dos seus filhos. Mas Palmiro foi ciclista nos anos 70 e desde 2002 diretor desportivo da Acqua & Sapone, onde correram os três filhos Simone Masciarelli, Andrea Masciarelli e Franscesco Masciarelli, todos eles agora ligados a Michele Ferrari.

O mais novo e com melhores resultados, Francesco, foi em 2011 para a Astana mas no começo de 2012 terminou carreira devido a um tumor benigno.

Foi na Acqua & Sapone que Scarponi e Di Luca encontraram lugar depois de cumprirem a sua suspensão.

Também merece uma menção honrosa Simone Boifava, ciclista irrelevante mas filho de Davide Boifava, ciclista nos anos 70 e diretor de várias equipas durante quase 30 anos, com destaque para a Carrera Jeans. E Andrea Vaccher, sub-23 desconhecido mas sobrinho de Moreno Argentin. E foi mesmo o ex-campeão mundial que insistiu para que o médico trabalhasse com o seu sobrinho, sabendo de experiência próprio que o Mito é real.

Pozzato & Visconti
Tal como Scarponi, Filippo Pozzato e Giovanni Visconti já cumpriram 3 meses de suspensão por terem contactado com Ferrari quando este já estava banido. No entanto, continuam no World Tour, na Lampre e na Movistar, porque desde que se respeite a lei do silêncio, está tudo bem.

Leonardo Bertagnolli
Já aqui falado no mês passado. Deu um testemunho bastante completo para o caso.

Marco Marcato e Borut Bozic
Além de Rojas, são as surpresas mais relevantes nesta lista e ainda no ativo. Não era conhecida nenhuma ligação a nenhuma outra investigação e também não são conhecidos pormenores do seu envolvimento nesta. Marcato correrá em 2015 na belga Wanty e Bozic na Astana.

Valentin Iglinskiy
Recentemente suspenso por acusar EPO.

Haverá mais nomes?

Inicialmente a Gazzetta informou que havia 90 ciclistas implicados na investigação e apenas saíram 38. Desde então, passou-se uma semana sem novidades, mas mais nomes devem sair.

Nos conhecidos depoimentos de Bertagnolli e Bileka, e que pertencem a esta investigação, são também implicados Franco Pellizotti, Enrico Gasparotto, Stefano Garzelli, Francesco Chicchi e Luis León Sánchez. À parte destes, com a inclusão de Valentin Iglinskiy, deve esperar-se a do seu irmão Maxim, dado que além dos laços de sangue, são unidos pelo que colocavam no sangue.

Esperemos.


Lista completa (dos 38):

Leonardo Bertagnolli, Simone Boifava, Diego Caccia, Enrico Franzoi, Marco Frapporti, Omar Lombardi, Fabrizio Macchi, Marco Marcato, Andrea Masciarelli, Francesco Masciarelli, Simone Masciarelli, Daniele Pietropolli, Morris Possoni, Filippo Pozzato, Alessandro Proni, Michele Scarponi, Francesco Tizza, Giovanni Visconti, Ricardo Pichetta, Andrea Vaccher, Mauricio Ardila, Volodymyr Bileka, Borut Bozic, Maxim Gourov, Vladimir Gusev, Valentin Iglinskiy, Sergei Ivanov, Vladimir Karpets, Aleksander Kolobnev, Dimitri Kozontchuk, Roman Kreuziger, Denis Menchov, Evgeni Petrov, Yaroslav Popovych, José Joaquin Rojas, Ivan Rovny, Egor Silin e Alexandre Vinokourov.


Não, Scarponi deve ser mesmo muito engraçado

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