segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Porque a Astana tinha que continuar no World Tour

A foto dispensa legenda.
Primeiro foi Valentin Iglinskiy a acusar EPO, depois o irmão Maxim, depois um, e outro e ainda um terceiro da Astana Continental a acusarem esteroides anabolizantes. A licença World Tour da Astana foi sujeita a análise na Comissão Independente para a Reforma do Ciclismo e na semana passada foi anunciada a continuidade da equipa cazaque no primeiro escalão. Uma decisão que surpreendeu uns, indignou outros. Mas não podia ser feita outra coisa.

Quero com isto defender Alexander Vinokourov e a sua manutenção no ciclismo? Não, não, de forma alguma. Mas talvez a questão comece aí, por separar o que é Vinokourov e o que é toda a Astana.

A Astana surgiu dos destroços da Liberty Seguros, quando a Operação Puerto levou a seguradora a rescindir o seu contrato e o governo cazaque decidiu salvar a equipa de Alexander Vinokourov. Em 2007 teve os controlos positivos por transfusões de Vinokourov e Andrey Kashechkin, respetivamente o melhor ciclista da história do país e a então maior promessa, sete anos mais novo, que deveria assegurar a continuidade do Cazaquistão bem representado após a retirada do seu colega.

Com um positivo de Mathias Kessler, Eddy Mazzoleni (terceiro no Giro desse ano) investigado (e posteriormente suspenso) mas sobretudo pelos positivos de Vino e Kash, a equipa precisava de uma grande mudança e em 2008 a direção foi entregue a Johan Bruyneel. A Astana de Vino tornou-se a sucessora da US Postal/Discovery Channel. No entanto, logo no início do ano os organizadores do Giro e do Tour anunciaram que não convidariam a equipa para as suas principais provas.

Daí surgiu uma das imagens mais marcantes da carreira de Alberto Contador. Na Challenge de Maiorca, em fevereiro, em fuga, com a mota-câmara a seu lado, o vencedor da edição anterior do Tour gritava "Astana en el Tour". E depois de apontar para o nome do patrocinador, novamente Astana en el Tour. Mas não foi. Pelo menos a organização do Giro mudou de ideias, permitiu a participação da equipa e aí Contador pôde vencer.

A Astana voltou a sofrer uma renovação para a temporada 2010, quando a difícil convivência de Armstrong (e Bruyneel) com Contador levou à separação. Uns na Radioshack, outros na Astana, com a direção desportiva de Giuseppe Martinelli, mas onde quem realmente mandava era Vinokourov, entretanto regressado de suspensão. A caminho dos 37 anos, em 2010 Vinokourov foi sexto no Giro, venceu uma etapa no Tour, venceu o Giro del Trentino e a Liège-Bastogne-Liège (debaixo de assobios). Terminou a carreira nos Jogos Olímpicos de Londres, sagrando-se campeão olímpico à beira do 39 anos, entrando para a lista dos ciclistas suspensos que regressam da suspensão e continuam ao mais alto nível, porque apenas foram apanhados por descuido e nada muda.

A Astana e Vinokourov estão umbilicalmente ligados sim, Vinokourov é um dopado provado sim, é assumido cliente de Michele Ferrari sim. Mas a Astana não é apenas Vinokourov.

A Astana emprega trinta ciclistas e e ainda mais pessoal no staff técnico, com um orçamento que se aproxima dos vinte milhões de euros. Retirar a licença à Astana não implica apenas retirar Vinokourov do ciclismo (ou do World Tour), mas sim retirar toda esta gente.

Aqui é necessário separar aquilo que conhecemos, aquilo que pudemos supor e aquilo que pudemos provar. E a UCI não pode provar nada que justifique a expulsão de uma equipa do World Tour. Há o positivo de dois irmãos com a mesma substância (EPO) na equipa principal. E há três positivos na equipa continental, também com a mesma substância (ou da mesma natureza, esteróides anabolizantes), dois deles ao serviço da seleção nacional, que não se consegue ligar de uma forma clara à equipa World Tour. Pode ser o suficiente para desconfiar e para supor, pode ser o suficiente para uma conversa de café ou para um blog, mas não para a UCI retirar a licença à Astana. E a UCI sabe bem isso, sobretudo depois do caso da Katusha em 2013.

A equipa russa teve os positivos de Toni Colom e Christian Pfannberger em 2009, Alexander Kolobnev em 2011 e Denis Galimzyanov em 2012, no plantel estavam (e estão) Vladimir Gusev (suspenso em 2008), Ángel Vicioso e Giampaolo Caruso (clientes de Fuentes) e a isso juntava-se a presença no staff de Erik Zabel (confesso) e do Dr. Andrei Mikhailov (suspenso um ano em 2001 por tráfico de EPO). A UCI negou-lhes a licença para a temporada 2013, mas após recurso da Katusha no Tribunal Arbitral do Desporto, já com a temporada em curso, a sua decisão foi anulada.

Perder a licença World Tour poderia significar o final da equipa ou, pelo menos (e não é pouco) o despedimento de alguns ciclistas e membros do staff. É um fardo que a UCI não quer (nem pode) carregar, sobretudo correndo o risco da decisão ser depois anulada pelo Tribunal Arbitral do Desporto. Porque se há dois anos o TAD considerou não haver matéria suficiente para retirar a licença à Katusha, nada leva a crer que desta feita haja uma decisão diferente.

Alexander Vinokourov pertence à "distinta" lista das pessoas que gostava de ver afastadas do ciclismo. Mas não é de agora. Se os regras permitiram que voltasse em 2009, se a UCI permitiu que se tornasse o diretor geral da Astana em 2013, não há nada de novo que o impeça agora.

E sabe a UCI que expulsar Vinokourov seria uma mensagem tão forte como hipócrita. A solução não passa por afastar Vinokourov, se Riis continua. E não passa por expulsar Riis, se Vaughters e a sua memória seletiva continuam. E não passa por expulsar Vaughters se o doutor Mikhailov pode ser médico oficial de uma equipa. A solução, se me permitem dar a minha, passa por ter critério e não permitir que quem já foi culpado por doping (como dopado ou dopante) trabalhe de forma alguma com uma equipa profissional.

A União Ciclista Internacional não tomou a decisão que queria. Tomou a única decisão que podia ter tomado.

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