sexta-feira, 20 de março de 2015

Milano-Sanremo 2015: o regresso à Via Roma

Oscar Freire foi o última a vencer na Via Roma, em 2007
Os mais de duzentos e noventa quilómetros continuam a ser a imagem de marca da Milano-Sanremo, que este ano regressa à Via Roma, onde Coppi, Bartali, Van Steenbergen, Van Looy, Merckx, De Vlaeminck, Kelly, Fignon, Zabel, Cipollini e tantos outros grandes ciclistas se impuseram.

O ciclismo alimenta-se de feitos heroicos, que ficam gravados na história, a maioria muito antes do YouTube e até mesmo antes das transmissões em direto. Dessa altura vem o primeiro final da Milano-Sanremo na Via Roma, no centro de Sanremo. Foi em 1949, com triunfo de Fausto Coppi, talvez (e sem esquecer Anquetil) o melhor ciclista até à chegada de Merckx, de feitos eternizados nos jornais da época. Seguiram-se quase 60 anos de finais na Via Roma, até que em 2008, devido a obras, a meta foi alterada para a marginal com o nome de Italo Calvino, lá permanecendo desde então.

Edição do La Domenica di Stadio de 1949, após vitória de Coppi
(até 2012 a prova disputava-se ao sábado.
Agora é ao domingo (domenica)
No próximo domingo, novamente devido a obras, a chegada retorna à Via Roma, uma mudança que tende a favorecer os atacantes. Após a subida ao Poggio di Sanremo, os ciclistas terão a mesma descida, cheia de curvas e contra-curvas, colocando a técnica sobre a potência. Mas finalizada esta, serão apenas 2350 metros planos em lugar dos 3000 dos últimos anos. Uma diferença importante para alguém que saia do Poggio com alguns segundos de vantagem face ao reduzido pelotão que se espera ao cabo de 293 quilómetros.

Ainda assim, o favoritismo continua a pertencer aos sprinters, à cabeça com o vencedor do ano passado, Alexander Kristoff, já com cinco triunfos em 2015. Depois dele, Peter Sagan, que à semelhança de Kristoff (em condições normais) também não terá problemas para ultrapassar o Poggio, chega motivado pela recente vitória no Tirreno-Adriático, mas tem contra si aquela que é a principal característica da Classicissima: a longa distância. Apesar de já ter sido segundo em Sanremo e na Volta a Flandres, na sua (ainda curta) carreira Sagan tem-se dado melhor em corridas a rondar os 200 km (já venceu Gent-Wevelgem e Harelbeke) do que naquelas que se estendam para lá dos 250. Mesmo o segundo lugar em Sanremo foi marcado pela neve, que reduziu a prova cerca de quarenta quilómetros.

O ponto fraco de Sagan é o ponto mais forte de outro grande favorito: Fabian Cancellara. Tem demonstrado ao longo dos últimos anos ser o ciclista mais resistente do pelotão e por isso, apesar de não ter hipóteses de bater estes adversários ao sprint numa etapa de quatro horas, a situação é diferente ao cabo de sete horas e tem quatro pódios consecutivos na Milano-Sanremo, competição que venceu em 2008. Ainda que sejam provas completamente distintas, venceu o crono final do Tirreno-Adriático, prova em que também passou pela frente do pelotão para fazer alguma série e afinar as pernas. (Ninguém tem quatro pódios consecutivos na mesma prova por acaso)
Perfil da prova deste ano
Dois dos melhores sprinters do mundo também estarão presentes, Mark Cavendish e André Greipel, que se separaram por uma guerra iniciada quando ambos queriam correr... a Milano-Sanremo. Foi em 2010. Cavendish, que venceu em 2009, demonstrou no ano passado (5º) ainda ser capaz de ultrapassar as dificuldades dos quilómetros finais, mas não é certa a sua plena condição depois de um vírus de estômago na semana passada. Greipel, por seu turno, nunca conseguiu estar no primeiro grupo, mas se Cav consegue, não sendo (teoricamente) pior a subir, o alemão também poderá fazê-lo. Dois grandes sprinters que parecem perfeitamente capazes de ultrapassar o Poggio são Michael Matthews e John Degenkolb.

Outros bons sprinters surgem como candidatos à vitórias, como Nacer Bouhanni ou Arnaud Démare (que se separaram por motivos semelhantes a Cav e Greipel), mas com particular atenção para Ben Swift e Juanjo Lobato, terceiro e quarto do ano passado, mais resistentes às dificuldades de relevo que os sprinters de referência, e no caso do espanhol já com três vitórias no presente ano.

Stybar Kwiatkowski, Gilbert e Van AvermaetGallopinValverde ou Rui Costa são ciclistas que podem beneficiar te uma corrida mais atacada nos quilómetros finais, todos eles com boas performances recentemente e de inquestionável qualidade. Os dois primeiros poderão ser alternativas a Cavendish, Gallopin a Greipel e Valverde a Lobato, mas no caso de Gilbert e Van Avermaet não resta grande alternativa ao ataque, uma vez que a BMC não dispõe de um sprinter de elite.

***** Kristoff, Sagan e Cancellara
**** Matthews, Degenkolb, Cavendish e Greipel
*** Bouhanni, Démare, Lobato, Swift, e Stybar
** Gilbert, Gallopin, Kwiatkowski, Modolo, Valverde e Rui Costa
Quilómetros finais

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