domingo, 22 de março de 2015

Sanremo 2015: Degenkolb ao limite

A Milano-Sanremo é uma prova de mais de 290 quilómetros que se decide nos últimos 30, o que não é depreciativo para a corrida. O ciclismo é um desporto de resistência e a larga quilometragem pode ser uma das suas dificuldades, como as montanhas, os pavés ou outras mais arbitrárias como as condições climatéricas. Mesmo que nada de relevante se passe antes da subida para o Cipressa (à parte das quedas), os primeiros 260 quilómetros são fundamentais no desfecho, tornando duas pequenas colinas insuportáveis para muita gente.

É também por esses 260 quilómetros que é uma das poucas provas que costumo ver no Eurosport. Por haver poucos acontecimentos de relevância, perde-se pouco por ouvir dois comentadores que trabalham de olhos fechados, e até nos brindam com pérolas incríveis. Por exemplo, que Nacer Bouhanni é alérgico a subidas, o que demonstra que comentaram a Vuelta do último ano de olhos fechados, e tão-pouco viram o Campeonato do Mundo, onde Bouhanni foi 10º, a 7 segundos de Kwiatkowski. Ou ainda, que Óscar Freire foi quatro vezes campeão do mundo, algo que nunca nenhum ciclista conseguiu mas que também não foram capazes de corrigir, como nunca corrigiram nada. Coisas que os adeptos não são precisam de saber de cor, mas que é obrigatório para quem é pago para comentar toda a temporada de uma modalidade. É também um grande ensinamento para os jovens estudantes de jornalismo ou comunicação social que querem trabalhar em televisão: não interessa o que vocês sabem ou o quanto se esforça, mas sim quem conhecem.

A corrida ficou lançada por uma queda na frente do pelotão de um homem da Sky, que levou consigo Rui Costa (fora de discussão pela queda, mal-tratado mas sem fraturas), deixando outros três Sky na frente: Luke Rowe, Ben Swift e Geraint Thomas. Começaram a puxar a 30 quilómetros da meta, algo que estava condenado e apenas serviu para desgastar Thomas, que tem estado fortíssimo, hoje voltou a estar, e poderá ser um caso sério nas clássicas de pavé.

Os três (já com alguns dos integrantes da fuga do dia) foram alcançados na subida do Cipressa, feita num ritmo muito elevado por intervenção da Sky e da BMC, que continuaram a sua joint venture com um ataque de Daniel Oss e... Geraint Thomas. Incansável. Não foi o ataque bem sucedido porque houve hoje, como no ano passado, um enorme Luca Paolini, a controlar as distâncias para salvaguardar as aspirações de Alexander Kristoff, que tinha andado muito tempo na cauda do grupo.

A Milano-Sanremo, como todas as grandes clássicas, têm as suas especificidades. Não é necessário estar o tempo todo na frente, mas sim saber gerir o esforço, lembrar-se que as fases mais duras das subidas são curtas, saber sofrer quando necessário, proteger-se quando possível, saber quando se pode poupar para depois voltar a sofrer e no final ir para a frente no momento certo, porque é um sprint com poucos lançadores. Por isso vemos muitas vezes (como hoje) ciclistas passarem despercebidos no Cipressa e no Poggio e depois aparecerem a discutir a vitória na prova.

Thomas apenas foi alcançado na sempre perigosa descida do Poggio di Sanremo, onde todos os anos cai alguém e este ano calhou a Stybar (que tinha atacado no Cipressa), Gilbert (que também tinha atacado), Kwiatkowski e Ciolek. É sempre uma pena ver alguém ficar fora da discussão tão próximo da meta, mas ainda pior quando são ciclistas que tinham animado a corrida.

Num sprint final intensíssimo, John Degenkolb ultrapassou Alexander Kristoff já nos últimos vinte metros para uma excelente vitória, a mais importante da sua carreira até ao momento. No ano passado venceu a Gent-Wevelgem, foi segundo no Paris-Roubaix, e esta Primavera pode voltar a brilhar. Um ciclista muito parecido a Kristoff.

O terceiro foi Michael Matthews, o quarto Peter Sagan (Tinkoff já exigiu melhores resultados à sua equipa), o quinto Niccolo Bonifazio (tem 21 anos e fez aqui a sua estreia), o sexto Nacer Bouhanni (sem qualquer reação alérgica às subidas) e o sétimo Cancellara, quebrando a sua série de pódios.


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Começa amanhã a Volta à Catalunha.
Quarta-feira há Através de Flandres, a clássica flamenga dos gregários, sexta-feira E3 Harelbeke, o ensaio maior para a Volta a Flandres, e domingo Gent-Wevelgem, objetivo para muita gente importante.

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Correu-se este fim de semana o Troféu do Sudoeste e Costa Vicentina. A Federação Portuguesa de Ciclismo lançou este ano uma série de provas internacionais. Além da Volta ao Algarve, já se disputou a Clássica de Loulé, o Troféu do Restaurante Alpendre-Guadiana e agora este Troféu. No total de dez dias de competição, as equipas portuguesas levam zero vitórias. Nem etapas, nem classificações gerais. É difícil para os adeptos interessarem-se pelo ciclismo interno quando nem as equipas portuguesas se interessam.

Hoje a vitória foi para Rúben Guerreiro, ao serviço da norte-americana Axeon. Levou etapa e classificação geral. Tem 20 anos.

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Durante a Volta ao Algarve, o Carro Vassoura teve a companhia do Paulo Forastero, do site colombiano La Ruta del Escarabajo, uma experiência muito interessante e espero em breve poder falar-vos do que aprendi sobre a realidade do ciclismo colombiano por alguém que a conhece muito bem. Também das diferenças e semelhanças com o português.

La Ruta del Escarabajo tem uma revista digital e na edição lançada hoje (que pode ser descarregada aqui) tem dois artigos para os quais chamo atenção. O primeiro sobre a Volta ao Algarve, Los Aprendizajes de la Vuelta a Algarve (página 25). O segundo é La Importancia de la Televisión (página 40). O Paulo gostou do artigo aqui escrito no ano passado sobre a televisão e a Volta ao Algarve, pediu autorização para o publicar, fez a tradução e algumas alterações para o adaptar à realidade colombiana e lá está. Se vos interessar, espreitem.

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Faleceu hoje o jovem Guilherme Silva, ciclista júnior da Sicasal-Liberty Seguros-Bombarrelense. Caiu enquanto treinava, a descer o Montejunto.

Os sentimentos para a família, os colegas e os amigos do Guilherme. Que descanse em paz.

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