domingo, 15 de março de 2015

Um Paris-Nice levado com muita gana

Richie Porte foi o mais forte e nem uma queda num momento decisivo o impediu de ganhar pela segunda vez o Paris-Nice, a primeira prova por etapas da temporada que é objetivo para muita gente.

O prólogo foi para Michal Kwiatkowski, superando Rohan Dennis apenas por algumas centésimos, mas que desde logo deu uma demonstração de poderio físico, ao deixar o terceiro classificado a sete segundos e o quarto a dez, margens bastantes significativas num contrarrelógio de 6,7 quilómetros. Seguiram-se três jornadas para sprinters, levadas por três corredores diferentes mas todos de inquestionável qualidade e relevante palmarés: Alexander Kristoff, Andre Greipel e Michael Matthews.

A única chegada em alto deste Paris-Nice disputou-se na quinta-feira e a Sky assumiu a responsabilidade de comandar o pelotão muito cedo, com Lars Petter Nordhaug e Nicolas Roche a imporem um ritmo elevado ao longo da subida para sacudir muita gente. Até que Geraint Thomas atacou. E se até então a Sky tinha estado muito organizada taticamente, na parte final da subida pareceu que nem precisavam de o estar porque podiam fazer o que quisessem. Thomas ficou na frente com Jakob Fuglsang e Simon Spilak, um excelente ciclista em provas de uma semana até maio, preferencialmente se estiver mau tempo, mas com o qual não se conta nas provas de três semanas. Kwiatkowski lançou-se ao ataque no grupo principal, Richie Porte deu resposta mas com o australiano apenas conseguiu seguir... Geraint Thomas. Os dois homens da Sky chegaram sozinhos e festejaram no alto da Croix-de-Chaubouret, recordando aquele 2008 em que os Saunier Duval venciam sempre aos pares. Rui Costa foi sexto e subiu ao sétimo posto da geral, com Tiago Machado em nono.

A quinta etapa foi vencida por Davide Cimolai, ciclista da Lampre que começou a temporada com 25 anos e zero vitórias mas já leva duas: o Trofeo Laigueglia e uma etapa do Paris-Nice (e um segundo lugar noutra). Para não ser tudo novidade, José Joaquin Rojas foi quinto, ele que é de uma extraordinária regularidade entre o quarto e o décimo lugar.

No sábado foi-nos dado uma belíssima jornada de ciclismo. Eram seis contagens de montanha, três de segunda categoria e três de primeira, mas o espetáculo teve início numa descida. A Etixx-Quick Step é uma equipa flamenga de ADN e isso nota-se na forma como correm. Não importa de onde são os ciclistas nem onde estão a correr, ninguém veste aquela camisola para passear - ou estão para ganhar, ou estão para ajudar outro colega a tentar ganhar. E assim, mesmo sem terem os ciclistas mais fortes fisicamente, a Etixx lançou-se na descida a cerca de 40 quilómetros da meta, com o camisola amarela Kwiatkowski, o jovem Julian Alaphilippe e Tony Martin, um corredor que representa muito bem o espírito da sua equipa.

A Sky teve que se esforçar lá atrás para alcançar o grupo de Kwiatkowski, primeiro puxado por Martin e depois por Alaphilippe, o que veio a acontecer já na última subida do dia, com a corrida muito fracionada e os todos muito desgastados. Mas antes do camisola amarela ser alcançado, saltou Tony Gallopin, outro ciclista fantástico, e não será por acaso que está na belga Lotto. Além da sua grande capacidade física e da sua versatilidade, tem uma agressividade e determinação que embeleza as corridas em que participa e o leva às vitórias. Estava atento quando a Etixx atacou e depois soube também ele lançar-se para a vitória quando denotou a falta de capacidade do campeão do mundo.

Com uma curiosa sincronia, poucos segundos depois do seu colega Wout Poels vencer a etapa do Tirreno-Adriático (tema para outro dia), Richie Porte atacou muito forte, como havia feito dois dias antes, e a ele apenas se juntaram cinco: Spilak, Rui Costa, Geraint Thomas, Fuglsang e Rafa Valls, uma das grande surpresa deste começo de temporada. Todos tinham a ganhar com esta situação de corrida, podendo distanciar Kwiatkowski, Van Garderen (que era 4º) e deixar a luta pelo pódio muito mais restrita, mas deixaram todo o esforço de carregar o grupo nos dois Sky.

Não é em por acaso que dou a esta etapa tanta atenção quanto às outras sete (somadas). Da parte da Etixx, de Gallopin e da Sky houve aquela atitude que tantas vezes se elogia no ciclismo antigo, antes das telecomunicações, dos medidores de potência e das mariquices. Já a Lampre com dois ciclistas e Fuglsang, demorando demasiado tempo a assumir que a situação de corrida também era favorável para eles, mostrando o outro lado. E é por ser esta a norma que tanto elogio os que atacam. (Spilak esse nunca colaborou porque não sabia que Gallopin ia na frente, abdicou de subir na geral para se focar num sprint que julgava ser para a vitória na etapa.)

A sorte não premiou a iniciativa da Sky, que teve Porte e Thomas no chão na última descida, sendo alcançado pelo grupo de Kwiatkowski. Gallopin, sozinho, conseguiu aumentar a vantagem para os seus perseguidores, agradeceu a apatia destes, levou a etapa e ficou com a camisola amarela. Por bravura já tinha vencido uma etapa no último Tour e andado de camisola amarela.

Na crono-escalada do último dia, Porte confirmou a superioridade física, levando outra vitória de etapa e a classificação geral, como em 2013. Atrás de si na geral, Kwiatkowski, Spilak e Rui Costa a trinta segundos, mas o desempate a ser feito (como mandam as regras) pelos centésimos de segundo gastos nos contrarrelógios (um artigo sobre a metodologia das classificações seria interessante, não?). Spilak perdeu o segundo lugar e Rui Costa perdeu o pódio pela apatia do dia anterior. Com exceção de Porte, todos perderam. Mas Kwiatkowski perdeu ao ataque.

De todas as formas, ainda que corra para ganhar, um quarto lugar é sempre um resultado muito positivo para o Rui Costa. Pena o Tiago Machado ter desistido no sábado, juntamente a outros 47 ciclistas, devido às condições meteorológicas.

Terça-feira termina o Tirreno-Adriático, e no próximo domingo há Milano-Sanremo, temas a abordar durante a semana.

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