quinta-feira, 21 de maio de 2015

A que geração pertence Zakarin?

Um bólide no circuito de Imola. (Foto: Rouleur.cc)
Não estava planeado voltar a escrever antes do fim de semana, mas vendo como está este Giro, melhor não esperar muito para não correr o risco dos acontecimentos relevantes se acumulem.

O Giro regressou após o primeiro dia de descanso com uma etapa teoricamente acessível, mas que se veio a revelar muito penosa para um dos principais favoritos, Richie Porte, com um furo a custar-lhe importantes segundos e uma roda a custar-lhe dois minutos de penalização. Sobre isso deixei a minha opinião na página do Facebook e não tenho muito mais a dizer, ainda que reconheça ser um tema fraturante e daí existirem opiniões tão diferentes. Avancemos.

E por falar em avançar, (como em Macondo) no ciclismo dá a sensação que o tempo não avança, apenas anda em círculos. Tanto assim é que o Carro Vassoura caminha para um ponto no qual nada mais será necessário escrever, e basta copiar o que já aqui foi escrito. Ainda que, muitas vezes, seja necessário compreender a ironia. Imagine-se que, no último artigo, houve um leitor que comentou que aqui, no Carro Vassoura, apesar do seu passado, Zakarin era um herói. Ora veja-se a confusão que se pode criar numa mente incapaz de detetar um ironia. Pior ainda tratando-se deste ecossistema em particular que é o ciclismo, desporto mais bonito de todos mas com um sentido de ironia esdrúxulo.

Dizia Muhammad Ali que a sua maneira de fazer piadas era dizer a verdade, porque não há no mundo piada mais engraçada do que a verdade. Não vamos mais longe. A principal fuga da etapa de ontem teve treze ciclistas, entre os quais Ilnur Zakarin, suspenso aos 19 por esteroides anabolizantes, Franco Pellizotti, suspenso pelo Passaporte Biológico, e Ryder Hesjedal, que nunca mais foi o mesmo desde que Michael Rasmussen relatou as orgias de EPO que realizavam nos tempos de BTT. Se isso não é ironia, não sei o que seja. Até porque, entretanto, Davide Rebellin e Stefan Schumacher estão em casa, em virtude da sua equipa, a CCC, ter sido convidada para o Giro na condição de não fazer alinhar nenhum dos dois. E tudo isto, como se não bastasse, no dia em que o MPCC confirmou que a Bardiani tem neste Giro um ciclista com baixo nível de cortisol (recordar o caso de George Bennet). Claro que acho muito bem que não possam correr Rebellin e Schumacher (três casos de doping ao longo da carreira e ainda no ativo) mas se esta dualidade de critérios não é por pura ironia deste meio, não sei que seja.

A parte final da etapa corria-se num circuito acidentado, com uma subida suficiente para fazer a seleção, tanto no grupo de fugitivos como no pelotão. Ilnur Zakarin, desconhecido há dois meses, vencedor da da Volta à Romandia no início deste mês, ia tão folgado que se viu obrigado a conter o seu instinto de atacar, para não o fazer demasiado cedo. Finalmente, ainda a mais de 20 quilómetros, não aguentou e demonstrou ser o melhor trepador presente na fuga (pelo menos desde abril). Atacou, ganhou mais de 50 segundos aos seis perseguidores que restavam e perdeu apenas escassos segundos para o pelotão controlado pela BMC, Orica e Astana. Aliás, num grupo entre 40 e 50 ciclistas, a Astana tinha oito e o elemento que faltava estava na fuga do dia. É uma das mais extraordinárias Performances Coletivas de que me recordo, com os seus ciclistas a atacarem aos pares como aquela Saunier Duval do Giro de 2008 com Riccò, Piepoli e Simoni. Dava eu como certo que poderia esperar e falar do rendimento da Astana apenas no próximo domingo, após o espetáculo que têm programado para a chegada a Madonna di Campiglio. Seria a ocasião ideal, até para Aru homenagear Marco Pantani nesse que foi o ponto mais alto da sua carreira, mas temo que Aru falte à festa. O dia de descanso, tantas vezes aproveitado para recarregar baterias, parece ter calhado muito mal a Aru. Mas bom, melhor guardar alguma coisa para a próxima vez.

Zakarin - voltemos a ele e ao seu ataque - é um daqueles casos de acredite quem puder, que poderia ser o lema deste blog. Ou, por ter apenas 24 anos, um exemplo do tão prometido novo ciclismo, que também poderia ser o nosso lema. Continuo a acreditar que Zakarin (este último, que existe desde abril), teria capacidade para discutir a Volta a Itália, mas talvez o tenham proibido. Vejamos se o deixam voltar a vencer neste Giro, porque por vezes é a própria equipa a proibir.

Não tem nada a ver com o que estamos a falar, mas recordo-me de uma história na Volta a França de 1999, a primeira vencida por Armstrong. Armstrong tinha vencido o prólogo, o primeiro contrarrelógio longo e a primeira chegada em alto, tendo a classificação geral muito bem encaminhada. No dia seguinte, pretendia vencer a etapa rainha, no mítico Alpe d'Huez. Porém, para evitar os rumores que já então surgiam na imprensa francesa sobre Armstrong, Johan Bruyneel deu instruções à sua equipa para que deixasse vingar uma fuga, de modo a que Armstrong não chegasse à sua terceira vitória consecutiva e à quarta em apenas dez dias. Armstrong não gostou, mas acabou por compreender. A fuga do dia foi anulada pelos ataques de outros trepadores e o vencedor acabou por sair do grupo de favoritos - Giuseppe Guerini - mas durante toda a subida Armstrong apenas esteve na roda dos seus adversários diretos (Zulle, Escartin, Virenque) a fazer um esforço para não atacar, não vencer mais uma etapa e não alimentar suspeitas. Claro que isto foi em 99, entretanto Armstrong foi expulso, Bruyneel está suspenso e as coisas hoje são diferentes, porque este é é um ciclismo totalmente renovado, em que os ex-ciclistas passaram a diretores desportivos. São apenas histórias das quais uma pessoa se recorda, de forma inexplicavelmente aleatória.

A etapa de hoje também acabou por fazer mais mossa do que se previa. A Tinkoff tentou endurecer o ritmo de longe para aproveitar a fragilidade demonstrada no dia de ontem por Aru, mas quando realmente importa já se viu que fica toda a Astana enquanto Contador fica sozinho, com Kreuziger e Rogers no elástico. Falta saber se Fabio Aru fica quando chegarem as decisões do próximo fim de semana, porque pior do que os segundos perdidos hoje para Contador (na meta e nas bonificações), são as más indicações dadas. Philippe Gilbert foi buscar na Itália, num final muito ao seu jeito, o triunfo que escapou nas Ardenas.

Como estão as coisas, o melhor para a corrida (e não necessariamente para o ciclismo), seria Aru, Landa e Cataldo realizarem um bom contrarrelógio, para que na última semana possam jogar com a vantagem numérica, um pouco à imagem da Saeco em 2004. Gilberto Simoni era o chefe-de-fila mas foi Damiano Cunego quem venceu com um ataque longe da meta, aproveitando a debilidade da Landbouwkrediet de Yaroslav Popovych.

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Nota para as equipas continentais profissionais italianas que, de um modo geral, têm animado a corrida. A meu ver, uma das belezas particulares do Giro é a postura das equipas menores italianas, e uma das belezas particulares da Vuelta eram as equipas menores espanholas. O Pro Tour acabou com isto na Vuelta e também prejudicou em Itália. Em 2004, último ano antes do Pro Tour, havia 11 equipas italianas no Giro, hoje há 5. Havia 8 equipas espanholas na Vuelta, hoje há 2. Qual a diferença? A muitas equipas estrangeiras falta emoção, falta tesão, falta aquele sentimento de estar a decidir a temporada.

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Para quem não o fez, sugiro a leitura do artigo "Reportagem mostra como Passaporte Biológico não apanha transfusões, EPO e HGH", nomeadamente a teoria da vida das superdrogas. Porque aqui o tempo não avança, anda em círculos.

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