sábado, 16 de maio de 2015

Giro 2015: este artigo sofre de "dupla" "deslocação"

- E eles acreditam?
- Sempre eheheh
Os leitores mais antigos deste pequeno espaço pessoal já sabem a minha opinião sobre Contador, mas para os novos, que os há: sobre a bicicleta, excelente; fora dela, absolutamente dispensável. Porém, Contador iniciou este Giro com uma postura diferente. Em vez do constante bluff e conversa da treta, sempre a inventar uma doença ou outro motivo qualquer para retirar pressão, desta vez Contador optou por dizer que o estágio no Teide tinha corrido muito bem, estava em muito boa forma, confiante nas suas possibilidades e chegou inclusive a dizer que seria ele a atacar a corrida. Não me recordo de semelhante confiança e positividade da sua parte antes de uma prova de três semanas e daqui ou corria tudo muito bem, ou tudo muito mal. Mas à sexta etapa uma queda envolveu o espanhol, que felizmente continua em prova e a 100%. (se quiser saltar o assunto Contador, pode passar direto para o quinto parágrafo).

Se escolheu continuar, repare o leitor que a última crónica foi publicada já após o final da sexta etapa, mas sem qualquer referência à queda de Contador, já então camisola rosa. Não foi por acaso, mas porque, tratando-se de Contador, é preciso um largo período até se conhecer o mais correto diagnóstico. Um período que pode ir até três semanas. As informações eram muitas, diferentes, e alarmantes para os fãs de Contador, sobretudo aqueles que não conseguem perceber que, apesar de excelente ciclista, é um mentiroso compulsivo. E logo Contador entrou no processo de vitimização: devido à queda, tinha deslocado o ombro, não uma, mas duas vezes. Eu não sou médico, mas a organização tem um médico, e no boletim clínico do final da etapa o médico fez o diagnóstico: Contador sofria de "ligeira instabilidade no ombro". A distância entre deslocar duas vezes o ombro e ter uma ligeira instabilidade no ombro é a mesma distância que separa a realidade e as palavras de Contador, o mesmo que venceu o primeiro Giro "saído da praia" (ou seja, sem preparação) e venceu uma Vuelta saído do hospital.

Porque Contador faz isto? Além da patologia de que padece, tem uma inexplicável necessidade de construir a imagem de algo para lá de humano, com uma capacidade de sofrimento ímpar, o salvador do ciclismo, um mártir. De tão ímpar que é, nunca um adversário o derrotou. Recorde-se o último Criétirum du Dauphiné, quando Talansky deu uma enorme demonstração de sagacidade com um ataque distante da meta, e Contador dizia-se derrotado pela situação de corrida. Nunca por um rival.

Não gasto estes quatro parágrafos do nosso tempo em vão, mas para que desde já fique claro que não tenho grande paciência para "é um grande sofredor" nem "ganhou o Giro com o ombro deslocado"No dia seguinte à "dupla" "deslocação" teve uma etapa de 270 km com 7 horas e meia sobre a bicicleta e a Tinkoff a aumentar o ritmo no final. Hoje uma chegada em alto. Ainda bem que Contador continua em prova e ainda bem que continua a 100%, porque ninguém merece ficar de fora por um acidente do qual não é responsável, mas era escusado todo este circo. Que acredite na "dupla" "deslocação" quem puder.

Falando da competição, a sétima etapa era a mais longa deste Giro com 270 quilómetros por pedalar, e os ciclistas apanharam durante grande parte vento frontal, o que tudo junto resultou numa média de apenas 35,8 km/h. Com os últimos quilómetros em terreno acidentado, o pelotão ficou reduzido e a vitória foi para Diego Ulissi. Como já aqui foi referido (duas vezes numa semana, será por acaso?), a Lampre deixou o Movimento Por um Ciclismo Credível propositadamente para poder receber o regresso de Diego Ulissi após a sua suspensão e o italiano correspondeu às expectativas da equipa. Aqueles que pensaram que tais referências eram desprovidas de propósito, têm a resposta dada pelo rendimento do próprio Ulissi. Porque nada é por acaso, tal insistência fazia parte de toda uma grande conspiração do universo, da qual o Carro Vassoura é um mero peão.

Para hoje estava no menu a segunda de seis chegadas em alto desta Volta a Itália, marcada por doze fugitivos e entre eles alguns que já andaram muito bem em edições anteriores mas, cada um pelo seu motivo, estão longe desse nível, como Pellizotti, Betancur, Intxausti, Kruijswijk (Cruxevique para quem segue pelo Eurosport) e Niemiec, que chegou a ser líder virtual. Mas também Danielson e Zakarin, a nova coqueluche do Carro Vassoura. Faltam duas semanas de Corsa Rosa, nas quais ainda espero uma vitória de Ilnur Zakarin. Venceu a Volta à Romandia para grande espanto, mostrando-se um excelente jovem, muito promissor, mas uma semana depois foi para o Giro e passou as sete primeiras etapas como um ciclista banal, perdendo muito tempo nas montanhas. Alguns justificarão que o seu pico de forma era na Volta à Romandia. Outros dirão que não é normal uma quebra tão acentuada em tão pouco tempo. O diretor geral da Katusha, Vatcheslav Ekimov, que sabe muito disto, diz que a única coisa que falta a Zakarin experiência, porque pode ser demasiado explosivo na primeira semana e depois pagar na última. Outros ainda (não sou eu, não sou eu) dirão que lhe pediram para acalmar-se e não discutir a classificação geral, o que pode ser visto como parte da já mencionada grande conspiração do universo. Mas tal como Ekimov, também ainda acredito que veremos o meu bom Zakarin em destaque neste Giro.

Regressando ao relato da etapa, no grupo principal a Astana foi novamente a formação mais forte, com Mikel Landa e Dario Cataldo a subirem até ao fim com os melhores e outros companheiros de Fabio Aru a realizar um excelente trabalhado de endurecimento para antecipar o seu ataque. Também Richie Porte esteve muito bem apoiado (Nieve, Konig), não se podendo dizer o mesmo de Alberto Contador, apenas com Kreuziger por perto. No entanto, e apesar da força coletiva da Astana e da Sky, Contador apenas tem que responder a um homem de cada: Aru e Porte.

A vitória de etapa foi, à semelhança da primeira chegada em alto, para um dos fugitivos do dia, desta feita para Beñat Intxausti, que em 2013 realizou um excelente Giro, com um triunfo de etapa, camisola rosa por um dia e o oitavo posto final. Na luta pela geral, apesar dos ataques de Aru e Porte, não houve diferenças na meta entre os três principais candidatos, mas sim a boa notícia de Rigoberto Urán subir junto deles, visivelmente melhor do que nos primeiros ensaios.

Pese a etapa de amanhã ter algumas subidas na fase final, não se esperam grandes mexidas na classificação geral até ao próximo fim de semana, com contrarrelógio no sábado e chegada em alto, na Madonna di Campiglio, no domingo. Contador, que hoje bonificou, leva 4 segundos de vantagem sobre Aru, 22 segundos sobre Porte e 1'24'' sobre Urán, oitavo na geral, que estando daqui em diante ao nível que demonstrou hoje, pode animar esta disputa.

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Lembrando: ao clicar no mapa do lado esquerdo do blog, irá direto para o artigo que inclui os perfis das etapas e a análise das mesmas.

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