quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Coppi & Bartali: Dois Ciclistas e uma Guerra - O Reinado de Bartali

Com a Itália a entrar na Guerra no dia seguinte à primeira vitória de Fausto Coppi no Giro, a prova apenas se voltaria a disputar em 1946 e o Tour no ano seguinte. O ciclismo não parou em absoluto e ainda em 1940, já depois de convocado para o serviço militar, Gino Bartali venceu a Volta à Lombardia.



O início da Guerra para Bartali e Coppi

Com 26 anos já cumpridos em 1940, casado, Bartali seria poupado às missões além-fronteiras, servindo como mensageiro do exército em território nacional, com autorização para utilizar a bicicleta em vez da motorizada e assim se manter ativo. De facto, apenas após a morte de Bartali foi conhecido quão útil foi a sua bicicleta nos tempos de guerra. Já a vida de Fausto Coppi nesse período não demorou a ser conhecida. Solteiro e mais jovem, apenas conseguiu atrasar, mas não evitar o envio para África.

Entre 40 e 42 Coppi terá disputado vinte provas de perseguição individual de forma imbatível e decidiu apontar ao Recorde da Hora, então em posse do francês Maurice Archambaud. O ciclismo não estava completamente parado, mas as provas eram poucas, os prémios diminutos e dificilmente se juntava um pelotão que desse nível internacional à disputa. Nesse cenário, o Recorde da Hora era o único evento internacional que Coppi podia realizar para adiar a sua partida, não necessitando de adversários para tal. O assalto à marca de Archambaud estava agendado para novembro.

O registo de Coppi causaria discussão. Mais do que entre Archambaud e Coppi, era uma questão entre franceses e italianos, e apenas em 1947, terminada a guerra, a UCI reviu ambos os registos e aceitou o registo do transalpino como novo recorde: 45,848 km que apenas seriam batidos em 1956 por Jacques Anquetil. Em março de 43, Coppi partia para a guerra.

Coppi foi integrado num contingente deslocado para a Tunísia em março, numa última tentativa de estender o Império Italiano no Norte de África (em diferentes períodos, Itália colonizou Etiópia, Eritreia, Somália e Líbia). Será livre um homem enviado para a guerra contra sua vontade? A liberdade deixou rapidamente de ser uma questão filosófica para Coppi, que diria mais tarde que a ideia de ter que matar alguém era algo que o revoltava. Foi capturado pelos ingleses pouco depois, a 13 de abril, em Cape Bon. Apenas sairia de África em fevereiro de 45, depois de transferido para Nápoles, pouco antes da morte de Mussolini e da rendição italiana.


O regresso à normalidade

Na primeira corrida após o cativeiro, Coppi... venceu. Foi em Milão, o Circuito degli Assi, ainda em 1945. Mas o regresso à normalidade seria um processo demorado e o tempo perdido nunca seria recuperado. Bartali e Coppi tinham perdido cinco anos das suas carreiras, o primeiro quando já estava na sua melhor forma física, o segundo quando já tinha demonstrado capacidade para vencer o Giro. Quando começaram a temporada de 1946, Bartali tinha 31 anos e Coppi 26.

Correr no estrangeiro, em Espanha e na Bélgica por exemplo, apenas se tornaria frequente alguns anos depois. A Vuelta apenas se estreou em 1935 (já Bartali era profissional) e apenas muito recentemente se conseguiu aproximar do nível do Giro e do Tour. Quando hoje se olha para o palmarés de Bartali, Coppi e todos os grandes campeões até ao final da década de 50, há que levar em conta que estes apenas corriam nos seus países e, ocasionalmente, nas principais provas franceses: Tour e pouco mais. Coppi apenas se estreou na Vuelta no final da sua carreira.

O calendário italiano tinha nos anos 40, como agora, três pontos altos. Além do Giro d'Itália, a Milano-Sanremo era o primeiro objetivo da temporada e o Giro di Lombardia o último, e após dois anos de interregno, a Classicissima marcava o regresso aos grandes duelos, ainda com as estradas ainda muito afetadas pelos.

No Passo del Turchino, subida que ainda hoje está presente a meio da prova, a 590 metros de altitude, o túnel ainda não tinha iluminação reinstalada. À entrada, um grupo de ciclistas estava em posição adiantada. Quando voltaram a ver luz, Fausto Coppi estava isolado no comando. Daí até Sanremo, seriam 147 quilómetros em solitário para uma das mais marcantes vitórias da carreira, com 14 minutos de vantagem para o segundo classificado. Mais do que um trepador ou do que um contrarrelogista, em cima da bicicleta, Coppi era um homem sozinho.

O Giro desse ano também seria especial. Além do primeiro pós-guerra, era a primeira edição republicana, começando duas semanas após a proclamação da república e uma excelente oportunidade para os jornalistas contarem o estado do país. Os favoritos ao Giro della Rinnascita eram dois, Bartali e Coppi, que em 41 tinha começado a representar a Bianchi, deixando de ser companheiros

Uma queda ao quinto dia deixaria marcas e prejudicaria a luta de Coppi, que nem com duas vitórias nos Dolomitas conseguiu destronar Gino Bartali do comando da classificação. Depois de 5 anos de guerra, Bartali voltava a vencer, mas com magros 47 segundos entre eles, nunca mais seria possível separa-los. Tornou-se impossível explicar Bartali sem explicar Coppi e explicar Coppi sem Bartali.

A resposta viria logo de seguida. Coppi fechou o ano com vitória na Lombarida. Bartali abriu 1947 com vitória em Sanremo. Seguiu-se vitória de Coppi no Giro seguido de Bartali e no final o ciclista da Bianchi conquistou a segunda de quatro vitórias consecutivas na Lombardia.


Capa da Gazzetta dello Sport após a vitória de Coppi em Sanremo

A rivalidade levada à política

O escalar da rivalidade, na estrada mas também na imprensa, com declarações cada vez mais duras, levou-a para outro campo: a política.

Itália viria a ter eleições em 1948, ainda hoje descritas como uma das mais intensas da história do país, ou não fosse a república e a democracia duas novidades. Por um lado, apresentava-se Alcide De Gasperi, Primeiro Ministro italiano entre 45 e 53 e líder da Democracia Cristã. Por outro, como principal opositor, Palmiro Togliatti, líder do Partido Comunista.

Não era somente a Itália em polvoroso, era o Mundo. A tensão entre Estados Unidos e Rússia aumentava e, na tentativa de ganhar influência, os russos apoiavam o Partido Comunista e os norte-americanos apoiavam a Democracia Cristã. Bartali ficaria associado aos cristãos democratas ("De Gasperi in bicicletta") e Coppi aos comunistas ("Togliatti della Strada"). Eram associações forçadas.

O escritor Curzio Malaparte, membro do Partido Comunista, escreveu que Bartali pertence aos que acreditam na tradição, na imutabilidade; os que aceitam os dogmas. Ele sente-se metafísicamente protegido por santos. Coppi não tem ninguém a olhar por ele. Esta sozinho na bicicleta. Bartali ora quando pedala; Coppi, racional, céptico, cheio de dúvidas, apenas acredita no motor que lhe foi dado: o seu corpo.

Esta percepção levou às ditas associações, que parecem demasiado forçadas por interesses partidários e não por aquilo que cada um pensava e pretendia para a sociedade. Bartali era um cristão fervoroso e conhecido de De Gasperi, tinha a sua mulher, os seus dois filhos (Andrea e Luigi) e Deus como pilares da sua vida, nunca tentou parar o aproveitamento que a Democracia Cristã fazia da sua imagem, mas também nunca os apoiou publicamente. De resto, quando foi convidado para integrar as listas do partido, recusou. Já Fausto Coppi, homem dado à ciência, que modernizou o ciclismo da altura pelos métodos aplicados ao seu treino (Bartali fumava e bebia álcool em quantidade impensáveis hoje para um profissional), viria a envolver-se em escândalos conjugais numa altura em que o divórcio era proibido. Viria a ser fortemente criticado, inclusive pelo Papa, e defendido pelos comunistas, mas Coppi apenas queria viver a sua vida sem interferências, não ser um exemplo. Este seria um tema recorrente ao longo das suas carreiras.



1948: 10 anos depois

No começo de 1948 poucos poderiam antever quão intenso esse ano seria. Também no ciclismo.

De Gasperi venceu em abril as eleições gerais com 48,5% dos votos contra 31% de Togliatti, mas se no parlamento existia uma maioria absoluta, nas ruas a divisão acentuava-se cada vez mais e foi numa Itália em conflito que se disputou a Volta a Itália. Não fazia falta mais polémica, mas foi o que aconteceu. Bartali e Coppi sofreram problemas que os prejudicaram na luta pela maglia rosa, mas com duas vitórias consecutivas nos Dolomitas, já muito próximo do final, Coppi conseguiu saltar da décima segunda para a terceira posição e reduzir o atraso de 11'41'' para três minutos e meio, diferença que o separava do novo camisola rosa, Fiorenzo Magni, italiano de enorme valor que teve o azar de ser relegando a "terceiro homem" de uma rivalidade a dois.

Protestando por alegados apoios que Magni terá recebido do público, Fausto Coppi retirou-se do Giro à falta de duas etapas e consigo levou toda  Bianchi. Ainda assim, diga-se em abono da verdade, dificilmente poderia ter destronado Magni nas duas etapas (de baixa dificuldade) que faltava cumprir.

Os ânimos não iriam serenar. Na preparação para a o Tour de France de 1948, cedo se entendeu que Itália seria pequena demais para Bartali e Coppi e quando o mais novo percebeu que Bartali seria a aposta do agora selecionador italiano Alfredo Binda, recusou-se a participar, disse que teria todo o gosto em fazê-lo, mas competindo contra Bartali, o que não seria possível na seleção. Próximo de cumprir 34 anos, Bartali teria finalmente a oportunidade de defender o seu título conquistado dez anos antes, uma oportunidade primeiro retirada por Mussolini, depois pela Guerra e em 47 por decisão da sua equipa.

Seria uma das vitórias mais impressionantes da já centenária história do Tour e a mais impressionante da carreira desportiva do já então apelidado il vecchio, o velho.

Gino Bartali era o mais forte em prova, venceu a etapa inaugural e mais duas nos Pirenéus, mas nos Alpes tudo mudou, quando o azar lhe bateu à porta na forma em forma de furo. Com saída de Sanremo e chegada a Cannes, um furo deixou o italiano a 21m28s de Lousoin Bobet após a 12ª etapa. Era um duro golpe nos planos de Bartali, que, frustrado, reclamava a ausência nos "melhores italianos" para seu apoio, numa óbvia referência ao seu eterno rival. No dia seguinte, dia de descanso, Palmiro Togliatti sofreu uma tentativa de assassinato, foi baleado e hospitalizado.

Em França, Bartali recebeu uma chamada. Era o Primeiro-Ministro De Gasperi, não como governante, mas como adepto, a perguntar se podia vencer aquela Volta a França, numa altura em que se temiam as armas espalhadas pela população desde a guerra o país precisava de um motivo de união.

No dia seguinte, chegados os Alpes, Bartali venceu. E colocou-se segundo a 51 segundos de Bobet. Depois, com passagem pelo Galibier, Bartali voltou a vencer. E colocou-se líder com oito minutos de vantagem para Bobet. Ao terceiro dia, Bartali... venceu. E ampliou para 13'47'' a diferença. Em Paris, Bartali tinha transformado uma desvantagem de 22 minutos numa vantagem de 26.

Dessa vitória e a alegria que levou ao outro lado dos Alpes diz-se que foi crucial para manter a união.

Com dez anos a separarem, é, ainda hoje, a maior distância temporal entre duas vitórias de um ciclista e, com 34 anos já cumpridos, o quarto vencedor mais velho nas 102 edições do Tour. Eram outros tempos, outro ciclismo, e Bartali era o melhor do mundo. Sem a Guerra, quantas edições teria conquistado, nunca saberemos. "Cada um tem a sua própria maneira de expressar o propósito da vida-o advogado com a sua a eloquência, o pintor a sua palete e o homem de letras a sua caneta com que as palavras fluem. Eu tenho a minha bicicleta". Tão simples quanto isso.

Faltava-lhe um êxito que o poderia colocar num pedestal, um que o seu selecionador conhecia bem: o título mundial. Seria disputado na cidade holandesa de Valkenburg, onde se havia disputado o de 38 e viriam a disputar mais três: 79, 98 e 2012.

Desta vez com Coppi presente, o espetáculo entre os dois não foi bonito. A marcação pessoal entre os italianos foi tão descarada que, no final, a Federação Italiana de Ciclismo decidiu suspender os dois.

Fausto Coppi estrear-se-ia no Tour em 1949.
Gino Bartali vencedor do Tour de France 1948

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