terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Motores nas bicicletas: quando o mito virou realidade

No passado sábado, nos Mundiais de ciclocrosse, pela primeira fez foi detetada uma bicicleta com motor no ciclismo de competição. Depois de vários anos de suspeitas, a confirmação está aí: eles existem e chegaram à competição. Até onde já levaram ciclistas, não se sabe. Até onde levarão o ciclismo também não. No limite, levarão ao seu final.

Durante estes anos de rumores, e de cada vez que surgiam suspeitas sobre um novo caso específico, nunca me pareceu que o tema valesse a pena. Sim, era polémico, era sensacionalista, facilmente se tornava viral, certamente daria muitas visualizações, mas nunca foi esse o objetivo. Nunca achei que merecesse a pena. Via os motores no ciclismo como os espanhóis veem as bruxas: yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

As razões para a minha descrença na existência dos motores são principalmente duas. Primeiro, porque durante as últimas décadas as empresas tecnológicas têm trabalhado muito para reduzir o tamanho dos seus produtos sem perder eficiência. Pensemos no caso dos computadores portáteis que cada vez têm maior capacidade em menor tamanho ou dos telemóveis que durante os seus primeiros anos focaram-se na redução de tamanho (para que fossem realmente móveis) e só recentemente voltaram a "crescer". Segundo, porque outro dos focos das empresas tecnológicas tem sido a redução de ruído. Pensemos em eletrodomésticos como as máquinas de lavar ou exaustores, com os seus fabricantes a trabalhar para que sejam cada vez menos ruidosos. Que apareça alguém a dizer que, na sua garagem, trabalhava ao nível das melhores empresas de tecnologia? Sozinho fabricava um motor suficientemente pequeno ao ponto de caber na bicicleta, suficientemente silencioso para não se ouvir e ainda assim eficaz? Não podia, nem por sombras!

O melhor argumento contra a minha descendência chegou através de um dos mais ilustres céticos do mundo do ciclismo e todo um génio, o mui nobre Sérgio do Ciclismo 2005: se algo é tecnologicamente possível, então existe. De resto, a ideia foi muito bem explicada no seu blog, todo ele uma obra mestra, esta semana. "Se algo é tecnologicamente possível, não duvides que existe. Teletransportar objetos à distância não é possível, ou seja, deixem de pensar no Star Trek e no Scotty, beam me up; no entanto, fabricar lasers que podem ferir seres vivos e ser usados como arma ofensiva é tecnologicamente possível e que nãos lhes reste a mínima dúvida de que, por muitas convenções de Genebra ou de Tordesilhas que se façam e impeçam o uso, existem. E existem para utilizar-se se a ocasião for propícia." O mesmo será para os motores.

O caso

Relativamente ao caso concreto conhecido, deu-se no sábado, na prova sub-23 feminina do Campeonato do Mundo de ciclocrosse, com a belga Femke Van den Driessche, de 19 anos, campeã europeia e uma das principais favoritas. Segundo se sabe, a bicicleta não foi utilizada na prova, era a bicicleta suplente, o que acaba por ser pouco relevante. O que interessa para a modalide é que o motor existe e estava lá. A ciclista diz que a bicicleta não era sua mas emprestada por um amigo. Que acredite quem puder. De todas as formas, é irrelevante. Existe e estava lá.

O choque apenas não é maior porque se trata de ciclocrosse, feminino e em categorias inferiores, logo, uma atleta pouco conhecida do público em geral. Torna-se assim mais fácil de suportar um caso que seria insuportável no ciclismo profissional. Mas vejamos. O ciclocrosse não movimenta dinheiro nenhum comparativamente ao World Tour, muito menos o feminino e menos ainda em escalões de formação. É necessária uma grande dose de inocência para acreditar que a pioneira no uso de motores na competição foi uma miúda de 19 anos.

A UCI propagandeia este motor como uma grande conquista: vamos caça-los todos! Na verdade, o sistema de deteção de motores da UCI nunca detetou nenhum. No caso de Van den Driessche, havia cabos que saltaram para fora do quadro quando retiraram o selim e, uma vez que não utilizava sistema de andamentos eletrónico, chamou a atenção. A propósito, esta semana foi conhecido um positivo (do esloveno Jure Kocjan, irrelevante) por... EPO. E a amostra era de... 2012. A EPO foi detetada pela primeira vez em 2000, mas tantos anos depois o controlo ainda continua muito deficiente, a amostra passou limpa em 2012 (doze anos depois do primeiro positivo pela substância!) e só agora, com novas técnicas, foi detetada. Podem ver o atraso que leva o controlo às drogas, já imaginam o atraso à batota mecânica.


Fraude mecânica

O termo "doping mecânico" é algo que não me parece de todo correto, como se houvesse um doping humano e outro mecânico. Existem sim dois (e mais) tipos de batota que devem ser devidamente punida, mas o doping passa pelo uso de drogas e métodos proibidos no corpo humano; a fraude mecânica é feita na máquina. O doping serve para acelerar processos, sejam processos de evolução de performance, sejam processos de recuperação (um leva ao outro). Por consequência, se se aceleram os processos fisiológicos, acelera-se tudo. E o tudo acaba no nada, que é a morte. Por isso tantos ciclistas morrem tão prematuramente e, sim, há médicos que têm as mãos manchadas de sangue. Na fraude mecânico o acelerador era, literalmente, na máquina.

(O programa espanhol Informe Robinson apresentou um excelente episódio/documentário sobre o uso de drogas na liga de futebol italiano e as suas consequências no futuro. Primeira parte e segunda parte).

O uso de drogas no desporto deu azo à criatividade, não só para a diversificação de práticas de utilização e de fuga ao controlo, mas também para uma magnífica parafernália de desculpas que não se podem utilizar quando se encontra um motor na bicicleta. Por isso a miúda e o pai dizem que a bicicleta pertence a um amigo, ainda que, repito, me pareça irrelevante para o caso quem é o proprietário. Foi um bife estragado no único dia em que comi à parte, sou cliente de uma farmácia escondida em Andorra porque lá as vitaminas são melhores, a testosterona foi causada pelo whiskey que bebi antes da etapa decisiva, o clássico mas belo foi só uma vez e perdi, mas quando ganhei estava limpo, ou os familiares a EPO é do meu pai, a testosterona é para a minha mãe, a hormona de crescimento é para o gatinho, as bolsas de sangue na arca congeladora eram para fazer cabidela. São desculpas que fizeram as delícias de muitos durante muitos anos mas que não servem quando encontram um motor na tua bicicleta.

Mas aguardem com esperança. A ganância é grande, mas nada é mais ilimitado que a criatividade e a estupidez humana.

Como funciona

Teorias há muitas, mas não foi mostrado o mecanismo implementado na bicicleta de Van den Driessche. Poderia provocar mais uma forte machada e a UCI optou por esconde-lo.

Existem duas hipóteses que ganharam especial destaque. A primeira passa por um mecanismo colocado dentro do quadro da bicicleta, que custará em redor de €3.000. Outra hipótese avançada na Gazzetta dello Sport na segunda-feira, muito mais sofisticada, passa por um sistema eletromagnético colocado nas rodas capaz de produzir entre 20 e 60 watts, com o custo de €200.000.

Parece uma hipótese completamente nova? Mas não é tanto assim. Em julho tinha sido avançada por outra lenda anónima do mundo dos céticos, @Oufeh, que se define como apenas outro troll antidoping. Oufeh (ou Ufe), alegadamente o responsável por "hackear os dados" da subida de Froome ao Ventoux (na verdade foram cedidos por uma fonte privilegiada), avançou em julho do ano passado:

Relativamente ao motor descoberto no sábado, tendo sido ocultado, ainda desconhecemos qual a sua potência e ruído. Ainda. Como mostra o tweet a cima, a informação acaba por circular nas redes privilegiadas como circulam cabos por dentro de uma roda. E já há vídeos que não deixam dúvidas, mesmo em competição, de bicicleta parada e roda traseira a alta velocidade. Esperai.

Quando se utiliza

Muitas suspeitas foram lançadas por trocas de bicicletas a pedido dos ciclistas. De alguns ano a esta parte, cada vez se vê mais ciclistas a pararem antes da última montanha para trocarem de bicicleta, o que alimentou as suspeitas já existentes sobre a utilização de motores. Alegadamente, os ciclistas sairiam com uma bicicleta e durante a prova mudavam para a motocicleta. Também pode acontecer o contrário.

Algo que aprendemos com base nos testemunhos de vários ex-ciclista, muitos deles publicados em livro, diz respeito aos controlos surpresa que não o são. Ciclista (e equipas) que sabem que no dia D, à hora H, terão um controlo "surpresa". Poderá acontecer o mesmo com as inspeções mecânicas? Os escândalos recentes com UCI mas também com IAAF e FIFA estão aí para responder.

Em função disso, os ciclistas poderão utilizar de duas formas. Não havendo controlo no final, podem mudar de bicicleta durante a prova para utilizar o motor na parte final. No Mont Ventoux ou Alpe d'Huez, por exemplo, qualquer ruiduzinho seria ocultado pelo barulho do público (recordem que não sabemos que o motor apreendido emitia ruído ou não). Outra forma passa por utilizar o motor na fase inicial. Parece estranho, mas mesmo não podendo utilizar no final, seria o suficiente para uma maior poupança de energia durante quatro ou cinco horas.

O futuro

Há quem defenda a inclusão de parâmetros de controlo de potência no Passaporte Biológico. Não me parece que o ciclismo aguente até esse ponto. Isto é, se for necessário controlar sistematicamente os dados de potência para controlar o uso de motores, se for necessário controlar as bicicletas em todas as provas, que são medidas próprias do motociclismo, o ciclismo acaba.

Doping e fraude mecânica são duas formas de corrupção e adulteração de resultados que merecem ser punidas com máxima severidade, mas vistas em separado. O doping adultera o corpo humano, a fraude mecânica adultera a máquina. Se a importância deixa de estar no Homem para estar na máquina, o desporto deixa de fazer sentido, ou passa a desporo motorizado.

Para já um escândalo maior foi evitado por se tratar de uma ciclistas desconhecida e, por isso, despertando menor interesse. Na comunicação social generalista o caso foi abordado mais pela bizarrice do que pela fraude. Mas tudo será diferente no dia em que se associe um determinado resultado numa grande prova com o uso de ciclomotor. "Fulano tal usou na prova tal". Nesse dia a descredibilização será total.

Os principais inimigos do ciclismo, aqueles que contribuem para a sua descredibilização, não são os jornalistas nem os adeptos céticos. Os maiores inimigos estão frequentemente nas provas, mais ou menos escondidos entre inocentes. Uns de carro, outros de bicicleta, outros de mota.

As suspeitas sobre o uso de ciclomotores nunca poderão generalizar-se ao nível das suspeitas sobre o uso de EPO, transfusões sanguíneas, AICAR ou outras drogas. Não tenham ilusões. Antes disso, o ciclismo acaba.

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